Fundamentalismo sectário impede o fortalecimento da economia da sociobiodiversidade, por Ricardo Abramovay

Este artigo foi publicado anteriormente na revista Estudos Avançados.

O autor é Professor Sênior do Programa de Ciência Ambiental do IEE/USP. Autor de “Amazônia: Por uma Economia do Conhecimento da Natureza” (Ed. Elefante/Terceira Via, São Paulo).

Não é a economia, estúpido!…, por Leonardo Costa

O Homem Que Matou Liberty Valance (The Man Who Shot Liberty Valance), John Ford (1962)

Em relação ao neoliberalismo (que não é novo nem é liberal) interessa-me o mesmo em concreto. E o mesmo em concreto não só nos transportou ao mundo em que vivemos, com a Democracia ameaçada pele extrema-direita, como está vivo, em particular, na gestão monetária que os Bancos centrais dos países mais ricos estão a fazer da inflação.

O neoliberalismo não é novo nem é liberal.

Os Bancos centrais estão a usar as taxas de juro, para matar a procura, como quem usa napalm. Matam tudo, as famílias, as empresas, também a inflação. Nos Estados Unidos, a inflação anual está nos 8% e constitui um problema para franjas importantes da sociedade americana, sendo que era importante ver as suas origens para entender a forma mais apropriada de a atacar. Aí, o referido neoliberalismo não questiona a receita monetarista do costume para atacar o problema, não questiona o napalm. A receita é, como vimos, matar a procura, para controlar a inflação. Mesmo que o problema possa estar, essencialmente, na oferta. Acresce que na procura há procuras. Ou seja, na procura o problema é capaz de estar mais nos fundos de investimento e nos mercados de futuros do que propriamente nos salários. Muita especulação nos mercados de futuros das farinhas de cereais, por exemplo, gera preços em alta nos referidos mercados e, no presente, uma diminuição da oferta de cereais (por via do seu armazenamento para venda no futuro). O facto diminui a oferta de cereais no presente, aumentando a inflação.

Os Bancos centrais usam as taxas de juro como que quem usa napalm. Matam tudo, também a inflação.

Tudo isto para dizer que, num contexto de guerra ou à beira da guerra (mais ainda na Europa), o impacto do tratamento que está a ser dado à inflação nas famílias e nas empresas pode ser tão ou mais negativo do que a inflação em si. Tudo junto, não foi pela economia (pela inflação e pelo tratamento dado pela Reserva Federal à mesma) que, aparentemente, os democratas se seguraram nas eleições intercalares americanas. Foi pelos valores da Democracia e das liberdades individuais ameaçadas pela extrema-direita, apesar da economia, apesar da inflação e do tratamento monetarista dado à mesma. E também foi muito pelas gerações mais novas.

No rescaldo das referidas eleições, o presidente Biden teve um discurso virado para a classe média e a possibilidade de mobilidade social dos que estão na base da pirâmide, com uma visão de uma sociedade mais coesa (fazendo referências ao próprio pai). No mundo em que vivemos, dominado por abordagens éticas que não são nem Kantianas, nem Utilitaristas, são, diz-me o jovem Filipe Seixas, Muskianas ou Zuckerbergianas (isto é, não têm ética nenhuma), o discurso chega a ser revolucionário.

Não foi pela economia (…) que, aparentemente, os democratas se seguraram nas eleições intercalares americanas.

No momento em que escrevo estas linhas, ainda não é certo que os democratas consigam ter uma maioria no Senado. Tendo em conta o super/mega/maga estado de alienação dos valores democráticos e de indecência a que chegou uma fatia importante do partido republicano, era importante que tal sucedesse, digamos, para o mundo livre. Refiro-me ao mundo que acredita na Democracia como sistema de valores. Esperemos que a Reserva Federal Americana, independente do poder político, mas não do sistema financeiro, não mate, com a sua atuação, a possibilidade de os democratas elegerem um senador no Estado da Georgia, no 2º turno das eleições no referido Estado, em dezembro.

Esperemos que a Reserva Federal Americana (…) não mate, com a sua atuação, a possibilidade de os democratas elegerem um senador no Estado da Georgia

Leonardo Costa é Professor Associado da Universidade Católica Portuguesa no Porto. Licenciado em engenharia agronómica (especialidade economia agrária) e mestre em economia agrária e sociologia rural, pelo Instituto Superior de Agronomia (ISA), em Lisboa, doutorado em economia, pela Universidade do Arizona, em Tucson, Arizona, Estados Unidos da América, tem interesses de investigação e publicações nas áreas de macroeconomia, estudos de desenvolvimento, economia agrícola e dos recursos naturais e inovação.