24 JAN, 18h, no Centro Nacional de Cultura: Conversa à volta do livro «Memórias em Tempo de Amnésia», de Álvaro Vasconcelos

«O livro trata, sobretudo, do que era proibido lembrar, do que era subversivo memorizar. Os crimes deviam ser esquecidos para todo o sempre. Podia-se ser preso e torturado por ter visto o crime que nenhum registo podia guardar e ficava, apesar de todo o esforço dos fazedores de silêncio, na memória dos homens. Nos contadores de histórias, nos que pela tradição oral preservam as lembranças dos seus antepassados. Mas as dificuldades do presente funcionam como uma droga que apaga a memória e propaga como um vírus a amnésia coletiva, tornando a sociedade mais frágil perante ameaçadas já conhecidas pela humanidade. Uma Campa em África, o primeiro volume, aborda os caminhos que me levaram, ainda menino, para África. Aí vivi entre 1953 e 1967, primeiro em Moçambique, depois na África do Sul. Pretende ser um testemunho da viagem às trevas que era viver em África no tempo em que o racismo era política de Estado, quer fosse na mentira lusotropical ou no horror do apartheid. É um testemunho em nome do dever de memória, contra a política do esquecimento e o revisionismo histórico sobre o crime contra a humanidade que foi o colonialismo» 

Autor do Livro: Álvaro Vasconcelos

Oradores convidados:
Sheila Khan (socióloga)
Valter Hugo Mãe (escritor)

Moderação: Guilherme d’Oliveira Martins

Dia 24 de janeiro de 2023 (terça-feira), às 18h00
no Centro Nacional de Cultura – Galeria Fernando Pessoa
Morada: Largo do Picadeiro, n.º 10, 1º . 1200-445 Lisboa
(porta do lado esquerdo da esplanada do Café No Chiado)
Mapa de localização | GPS: 38.709292,-9.14199
Entrada livre

FONTE https://www.cnc.pt/conversas-a-volta-do-livro-memorias-em-tempo-de-amnesia/

Brasil: neofascismo digital e golpe militar

 

A tentativa de golpe de 8 de janeiro é, depois do assalto ao Capitólio, mais um alerta das ameaças que a democracia enfrenta na sua luta existencial contra a extrema-direita. A democracia está em risco e o combate é internacional, tanto mais que as redes do neofascismo digital são globais. Lula tem hoje a duplo desafio de impedir que o golpe tenha sucesso e de assumir a sua dimensão internacional.

A 8 de janeiro convergiram duas correntes golpistas e antidemocráticas: a clássica, do autoritarismo militar brasileiro, e a nova, a do neofascismo digital.

Desde a campanha pelo impeachment de Dilma, cresceu nas redes sociais uma corrente fascista, que partilhou entre si, sobretudo em redes como o WhatsApp ou Facebook, notícias falsas, conspirativas, criando uma comunidade virtual ultraconservadora, ligada à ideologia da supremacia branca, do machismo, do culto da violência e das armas, numa mistura entre práticas de correntes evangélicas e as milícias fascistas italianas.

O neofascismo digital é um movimento político próprio da sociedade em rede. Foi ele que levou ao poder Bolsonaro, com a cumplicidade dos que se recusaram a ver a ameaça que representava para a democracia.

A 8 de janeiro convergiram duas correntes golpistas e antidemocráticas: a clássica, do autoritarismo militar brasileiro, e a nova, a do neofascismo digital.

No poder, Bolsonaro promoveu a infiltração das estruturas do Estado pelos grupos do neofascismo digital, incluindo no seio das Força Armadas. Foram esses grupos que lançaram a campanha de contestação à fiabilidade do processo eleitoral brasileiro, que não impediu a vitória de Lula. 

Só um golpe de Estado poderia reverter o resultado eleitoral, o que obrigou à saída do mundo virtual.

Desde a campanha pelo impeachment de Dilma, cresceu nas redes sociais uma corrente fascista, que partilhou entre si, sobretudo em redes como o WhatsApp ou Facebook, notícias falsas, conspirativas, criando uma comunidade virtual ultraconservadora, ligada à ideologia da supremacia branca, do machismo, do culto da violência e das armas, numa mistura entre práticas de correntes evangélicas e as milícias fascistas italianas.

As Forças Armadas brasileiras são a segunda componente deste golpe. Aceitaram a democracia a troco de uma amnistia, o que lhes deu um sentimento de impunidade. Nenhum dos governos democráticos foi capaz de alterar a sua convicção de que são um poder paralelo. As tentativas de internacionalização e de desconstrução da doutrina de segurança nacional, segundo a qual o inimigo é sobretudo interno, foram tímidas e fracassaram. O General Heleno, comandante da operação de paz das Nações Unidas no Haiti, continuou a elogiar a ditadura militar e era o responsável pelo gabinete de segurança de Bolsonaro. A “pacificação das favelas do Rio” pelo exército manteve o inimigo interno na agenda. Com Bolsonaro, milhares de militares na reserva assumiram postos nas estruturas do Estado. 

 Os assaltantes esperavam que, perante a fraqueza da resposta do executivo, o caos de Brasília se propagasse a outras cidades. Em São Paulo, a estratégica Avenida 23 de Maio estava bloqueada pelos bolsonaristas. Perante o caos e a impotência, os militares seriam chamados ou interviriam para repor a ordem. A consequência poderia ser uma junta militar, sem Bolsonaro. Esta tese é partilhada por analistas brasileiros, como o filósofo Renato Janine Ribeiro ou o jurista Pedro Dallari, que foi Presidente da Comissão da Verdade. 

Perante o caos, alguns defenderam que Lula deveria fazer um discurso conciliador, “compreender a ira popular que se manifestava “, para unir o povo brasileiro. Lula e o poder judiciário brasileiro fizeram exatamente o contrário. Classificaram os assaltantes de fascistas e golpistas. Foi decretada a intervenção do poder central no Distrito Federal, retirando competências ao Governador. O resultado foi imediato: as sedes dos 3 poderes foram evacuadas, com muitos golpistas detidos; os acampamentos à frente dos quartéis foram desmantelados, e muitos dos contestatários foram alvo de mandados emitidos pelo Juiz do Supremo Tribunal, Alexandre de Moraes.

A situação atual é bem diferente da que permitiu o sucesso do golpe de 1964. Hoje, Lula tem apoio nos sectores chaves do poder no Brasil, nos congressistas, no poder judiciário, nos governadores dos Estados, nas organizações patronais e nos média tradicionais – a TV Globo classificou os assaltantes como terroristas, quando em 1964 a grande imprensa apoiava o golpe. 

O envolvimento de militares no ativo no golpe está comprovado. Não só protegeram os que acampavam à frente dos quarteis, como o Batalhão da Guarda Presidencial do exército facilitou a ação dos assaltantes do Palácio do Planalto. Em entrevista à Folha de São Paulo, Lula afirmou que recusou decretar uma operação militar, proposta pelo Ministro da Defesa, de “Garantia da Lei e da Ordem” para afastar veleidades de “algum general assumir o governo”.

Lula é um grande político, com capacidade de forjar grandes coligações, e optou pelo diálogo com as Forças Armadas, procurando que afastem os elementos diretamente comprometidos com o golpe. Há quem defenda que este é o momento, quando Lula goza de tanto apoio político, para reformar as Forças Armadas, colocando-as claramente sob dependência política. Lula parece hesitar, o que indica que não está ainda seguro da reação dos militares. 

Lula encontrou pronto apoio nas democracias liberais, em Biden e nos líderes europeus. Os Estados Unidos. que em 1964 tinham participado no golpe, fazem hoje da luta contra a extrema-direita e o fascismo digital uma questão central da sua política internacional. O fascismo digital não tem fronteiras e é conhecido o apoio que Trump e Steve Bannon dão ao bolsonarismo. Lula irá continuar a confrontar-se com a ameaça do fascismo digital e das suas relações obscuras com as Forças Armadas. Paradoxalmente, talvez seja mais fácil resolver a questão militar. 

A defesa internacional da democracia irá marcar, apesar da relutância brasileira, a agenda da política externa do terceiro mandato. Contamos com Lula e com a sociedade civil brasileira para esse combate.

Pelé, mais que um futebolista. Um homem como todos, ídolo de um povo soberano – Guilherme Giuliano Nicolau

Guilherme Giuliano Nicolau

Cientista Político

Nos últimos dias, estamos de luto pela morte do nosso ‘rei etíope’. Nosso rei que primeiro conquistou o Brasil e depois conquistou o mundo. Todos falam de Pelé. Entre eles, muitos estão cobrando o Rei por ser alienado politicamente, ou por decisões da vida pessoal de Edson Arantes do Nascimento.

Discordo em parte, não posso dizer que é possível ver dessa forma, mas eu peço para trocarmos as nossas lentes de ver o mundo por óculos escuros. Talvez estejamos ofuscados por tanta claridade. 

Defenderei Pelé, mas não é porque sou brasileiro. Antes disso, sou humano e internacionalista. Confesso também que me identifico muito mais com outros ídolos do futebol como Maradona (outro ídolo repleta de contradições). Venho falar sobre ser humano.

Parece-me injusto cobrar tanto de Pelé desconsiderando o seu contexto. Ele fez coisas fascinantes no futebol e é isso que ele pôde fazer, assim como nós nos destacamos em uma ou outra coisa.

O Brasil é um país extremamente desigual, com pobreza extrema, dificuldade de acesso à educação, com alta taxa de analfabetismo comparado aos seus vizinhos, em uma região pobre do mundo, um país extremamente religioso, com violência extrema e intolerância generalizada.

Se ainda é assim hoje, imagina nos anos 1960? A escravidão oficialmente havia acabado em 1888, não muito longe.

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O Brasil do nosso contentamento

Por: Luis Faro Ramos

No dia 1 de janeiro tomaram posse em Brasília o Presidente e o Vice-Presidente da República Federativa do Brasil.

Perante mais de duas dezenas de delegações estrangeiras, entre as quais a de Portugal, liderada pelo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

Foi um momento muito aguardado e de elevado simbolismo. Representa o início de um novo ciclo político, que interessa ao Mundo e particularmente a Portugal. 

Porque, embora o relacionamento entre o nosso país e o Brasil vá muito além dos ciclos políticos, não lhes é indiferente.

O início de cada ano é tempo de fazermos balanços do que passou e prepararmos o que está para vir. Cheguei a Brasília em dezembro de 2020. Se 2021 foi um ano marcado pela pandemia, em que não parámos, tendo apenas conseguido fazer o possível dentro das circunstâncias, 2022 foi bem diferente. 

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O Regresso do Brasil

 

A cerimónia de passagem da faixa presidencial foi um momento de grande emoção. Uma afro-brasileira, descendente de escravos, ter colocado a faixa no Presidente Lula ficará para a História.

A tomada de posse de Lula é um acontecimento de repercussões globais na afirmação da vitalidade da democracia liberal, do triunfo dos ideais do iluminismo, da justiça social , da defesa do ambiente e da diversidade. Lula é uma esperança para o Brasil e o Mundo.

Lula é uma esperança para o Brasil e para o Mundo

A 30 de outubro, Lula foi eleito Presidente , com 50,9% dos votos. Bolsonaro contestou o resultado das eleições, seguindo o exemplo do seu mentor Trump. Assim que os resultados foram conhecidos, para travar qualquer tentativa de golpe, os Presidentes americano e francês e o Chanceler alemão felicitaram o presidente eleito. Biden declarou imediatamente as eleições “livres, justas e credíveis” e Macron realçou mesmo que a eleição de Lula abria “uma nova página na História do Brasil “.

O dilema internacional do Brasil será o de sempre: como conciliar a sua pertença ao mundo das democracias liberais, o chamado Ocidente, sendo simultaneamente um ator importante do Sul global, membro dos Brics (com a China, a Rússia, a Índia e a África do Sul). Esta dupla identidade poderá ser um trunfo, desde que assumida com equilíbrio – algo que é mais difícil agora que a Rússia de Putin invadiu a Ucrânia e continua a sua brutal guerra de conquista. 

Após ter condenado a invasão russa numa primeira fase, Lula passou a fazer um discurso mais ambíguo, embora não alinhado com as posições de setores do PT que ainda têm uma visão bipolar do mundo, marcada pelo antiamericanismo. O Brasil será chamado, pelo menos nas Nações Unidas, a tomar posição. Se não se espera que alinhe a sua posição pela dos Estados Unidos e da União Europeia, não apoiar as resoluções condenando a violação pela Rússia da Carta, de que é um dos primeiros subscritores, seria afastar-se da sua tradição multilateralista e do campo das democracias liberais – numa altura em que é reconhecido como um dos seus.

Alguns conselheiros de Lula consideram que o Brasil poderia ter um papel de mediador na guerra da Ucrânia, uma ideia que não creio que possa ter qualquer sucesso. Não é no campo da segurança internacional que o Brasil é um ator de peso, algo que Lula deve saber. 

Já no campo ambiental, o Brasil pode ser um ator muito relevante. Daí, aliás, que Lula tenha participado na Cimeira do Clima, apenas quinze dias depois de ser eleito. O entusiasmo com que Lula foi recebido na Cimeira é indicativa não só do prestígio de Lula, mas do domínio onde a ação do Brasil é considerada vital: a proteção da biodiversidade e a luta contra as alterações climáticas. É no ambiente que o Brasil é uma superpotência, é na questão climática que a sua posição é decisiva, sobretudo pela importância da Amazónia. A indicação de Marina Silva para Ministra do ambiente é a confirmação de que o desmatamento da Amazónia será revertida.

É no ambiente que o Brasil é uma superpotência, é na questão climática que a sua posição é decisiva, sobretudo pela importância da Amazónia. A indicação de Marina Silva para Ministra do ambiente é a confirmação de que o desmatamento da Amazónia será revertida.

O Brasil poderá ter um papel decisivo na construção do consenso entre os países do chamado Sul global e os membros da OCDE, fundamental para a saída do impasse em que se encontram as conferências do clima e para o cumprimento dos acordos de Paris. 

A União Europeia deveria tirar partido do efeito Lula para concluir o acordo UE-Mercosul. Como defende o manifesto promovido pela Casa Comum da Humanidade e pelo Fórum Demos, o acordo deveria integrar um anexo com uma nova orientação estratégica, fazendo-o evoluir de uma relação essencialmente comercial para uma parceria que coloque o objetivo do clima estável no centro das relações birregionais, no que deveria ser um passo para o clima estável ser considerado património comum da Humanidade.

Em relação à China, o Brasil irá afastar-se da política americana, procurando ter as melhores relações possíveis com o seu principal parceiro comercial. 

O Brasil continuará certamente a defender um multilateralismo mais inclusivo, que tenha em consideração o mundo policêntrico, pós-hegemónico, em que vivemos, no que poderá convergir com a visão da autonomia estratégica da Europa defendida pela França, o que não significa assumir uma visão ideológica da multipolaridade. 

O Brasil não tem a sua ação internacional, onde ela pode ser significativa, entravada pelos Estados Unidos ou a União Europeia. Pelo contrário, será um ator bem-vindo, tanto no ambiente como na estabilização da situação económica e política na América do Sul (a normalização das relações entre os Estados Unidos e a Venezuela é uma boa notícia para a diplomacia brasileira). Certamente que será saudada o relançamento do Mercosul e da   Organização do Tratado de Cooperação Amazônica.

A presidência brasileira do G20, em 2024, poderá ser uma ocasião para dar um novo alento ao multilateralismo e fazer do combate à pobreza uma prioridade mundial.

A presidência brasileira do G20, em 2024, poderá ser uma ocasião para dar um novo alento ao multilateralismo e fazer do combate à pobreza uma prioridade mundial.

A coroar a presidência Lula, em 2026, quando Guterres for substituído por um latino-americano, porque não, enfim, uma Secretária-Geral, quem sabe uma brasileira.

É fundamental sublinhar que a consolidação da democracia no Brasil terá um efeito mundial, que, por si só, irá expandir a influência do país, que voltará a ser um exemplo a seguir – tanto mais que o sucesso do governo brasileiro depende da sua capacidade de demonstrar que é possível combater a pobreza e recusar os imperativos das políticas neoliberais.

Finalmente, o Brasil terá um papel decisivo, com repercussão mundial, no combate à extrema-direita e ao obscurantismo e na defesa dos direitos humanos. Por isso a vitória de Lula é saudada, como uma vitória do iluminismo contra a barbárie, por cientistas e homens de cultura do mundo inteiro. 

O destino comum luso-brasileiro, para além da saudade, poderá então finalmente começar a cumprir-se .

A diplomacia cultural do Brasil acompanhará a da sua sociedade civil, cuja luta pela igualdade, contra o racismo, tem um enorme eco na Europa. Já em 2023 teremos em Portugal um bom exemplo disso mesmo com a entrega do prémio Camões de 2019 a Chico Buarque, que Bolsonaro tinha bloqueado. 

O destino comum luso-brasileiro, para além da saudade, poderá então finalmente começar a cumprir-se.

Fundamentalismo sectário impede o fortalecimento da economia da sociobiodiversidade, por Ricardo Abramovay

Este artigo foi publicado anteriormente na revista Estudos Avançados.

O autor é Professor Sênior do Programa de Ciência Ambiental do IEE/USP. Autor de “Amazônia: Por uma Economia do Conhecimento da Natureza” (Ed. Elefante/Terceira Via, São Paulo).

Brasil e o Combate aos Pecados da Carne, por Ricardo Abramovay

Fotografia de Kamikia Kisedje/WWF-Brasil – Desmatamento no Estado de Mato Grosso, 2021.

A presença do presidente Lula na COP27 recoloca o Brasil na condição de protagonista decisivo do desenvolvimento sustentável. Uma das mais ambiciosas propostas dos movimentos socioambientais que apoiam o novo governo é que o País lidere a formação de um bloco internacional formado por Brasil, Indonésia e Congo (BICs) com o propósito de zerar o desmatamento nas florestas tropicais. O mundo está pronto para investir no uso sustentável deste gigantesco patrimônio, cuja destruição poria a perder todo o esforço global na luta contra as mudanças climáticas.

Para que se tenha ideia da magnitude do problema, só a Panamazônia armazena uma quantidade de carbono correspondente a algo entre 10 e 15 anos das emissões globais. E é claro que a proteção e o uso sustentável das florestas tropicais exigem não só repressão severa aos criminosos que as desmatam, mas também políticas sociais que contribuam para elevar os padrões de vida das populações que vivem em seus territórios. Duas das maiores potências ambientais do planeta (Brasil e, agora, Colômbia, com Gustavo Petro) estão seriamente comprometidas com a proteção e a regeneração florestais.

Mas há um segundo desafio para o Brasil na COP27, de certa forma, mais difícil até que o do desmatamento: é a redução nas emissões de metano, cujo principal vetor global (e mais ainda entre nós) é a pecuária bovina. O metano permanece por menos tempo que o CO2 na atmosfera, mas tem impacto destrutivo muito maior. Se as emissões de CO2 fossem subitamente interrompidas, a temperatura global média não deixaria imediatamente de aumentar. Diminuir o metano é a maneira mais eficiente e imediata de evitar que se alcancem pontos de não retorno (tipping points) nas mudanças climáticas. Na COP26, de Glasgow, 125 países (inclusive o Brasil) comprometeram-se com metas de redução imediata nas emissões deste poderoso gás de efeito estufa.

O combate ao desmatamento não envolve qualquer tipo de mudança estrutural na organização da vida econômica do País. Mas reduzir as emissões de metano exige um conjunto de transformações nos modelos produtivos, nas bases técnicas da produção, nos comportamentos dos consumidores e, portanto, nos próprios mercados.

Mais que isso, a evidência de que a oferta de carnes tem sido até aqui o elemento determinante do fato de que entre 25% e 35% das emissões globais vêm da agropecuária, amplia a contestação global a este setor e faz emergir alternativas tecnológicas a seus padrões atuais de expansão. Se fosse um país, o rebanho global de ruminantes ocuparia o segundo lugar em emissões de gases de efeito estufa, à frente dos Estados Unidos e só atrás da China. E o Brasil, como mostra estudo recente do Observatório do Clima, é o quinto maior emissor mundial de metano, com 5,5% das emissões globais. 72% das emissões brasileiras de metano derivam de seu rebanho bovino.

Mesmo que o sucesso do governo Lula em reprimir seriamente o desmatamento desfaça o atual vínculo entre destruição florestal e pecuária, o trunfo de termos o maior rebanho bovino do mundo e a condição de maior exportador global de carnes converte-se em ameaça. Imaginar que esta ameaça possa ser contornada com a afirmação de que o mundo vai precisar da carne brasileira é ilusório. O Guia Alimentar Chinês anuncia redução de 50% no consumo de carnes até 2030. Estudo recente da Boston Consulting Group prevê que Europa e Estados Unidos atinjam o pico do consumo de carnes em 2025. Matéria recente do blog do FMI preconiza uma taxa metano, que estaria na faixa de US$ 70 por tonelada emitida.

Mais importantes, porém, do que estas mudanças nos padrões de consumo alimentar são as transformações tecnológicas pelas quais passa a oferta de proteínas no mundo. Paul Gilding e Pablo Salas acabam de publicar importante trabalho pelo Institute for Sustainability Leadership da Universidade de Cambridge mostrando que os próprios mercados estão reagindo às ameaças representadas pelas formas convencionais de pecuária com alternativas tecnológica que vêm ganhando força entre os investidores globais. Seu estudo sustenta que o sistema agroalimentar global está passando por uma transição que pode ser comparada à que vem dominando os investimentos de descarbonização na área de energia e de mobilidade. Na vanguarda desta transição estão quatro formas de proteínas artificiais: as que se baseiam em plantas (já no mercado), as de cultura celular, as que se apoiam na fermentação de precisão e as que vêm de insetos.

O recém-publicado livro de George Monbiot (Regenesis. How to feed the world without destroyng the planet. Penguin) vai mais longe: pecuária regenerativa é uma contradição nos termos. Usar o solo para a criação de gado é, na sua opinião, retirar superfícies que poderiam ser utilizadas para o crescimento florestal e, portanto, para a captação de gases de efeito estufa. Em vez de continuar aumentando os rebanhos, as sociedades contemporâneas devem, na visão de Monbiot, investir nas proteínas alternativas, que estão emergindo com força.

Em resumo, não é só o desmatamento, mas a própria atividade pecuária que está e estará cada vez mais no epicentro das discussões climáticas contemporâneas.

O Brasil possui hoje iniciativas importantes (embora muito minoritárias) de criações bovinas respeitosas da dignidade animal, com manejo de pasto que captam carbono e regeneram a biodiversidade. Os conhecimentos da EMBRAPA neste domínio também são importantes. As ameaças que pesam sobre um setor tão estratégico da vida econômica brasileira têm que ser enfrentadas com pesquisas capazes de encontrar caminhos pelos quais a carne chegue aos brasileiros e aos mercados exportadores com a garantia de que seus métodos produtivos captam carbono e regeneram a biodiversidade. É muito mais do que apenas interromper a ocupação de áreas recentemente desmatadas. É uma convocação para que o maior exportador mundial de carnes promova inovações norteadas pelas urgências do clima, da regeneração da biodiversidade e da alimentação saudável.

Artigo publicado a 07/11/2022 no Valor Econômico.

Ricardo Abramovay é Professor Sénior do Programa de Ciência Ambiental do IEE/USP. Autor de Amazônia: Por uma Economia do Conhecimento da Natureza (Ed. Elefante/Terceira Via, São Paulo).

Lula, a liberdade contra a tirania

Depois de 4 anos de governo que confirmaram Bolsonaro como neofascista, não apoiar Lula já não é só uma falta política grave, é uma falta ética. 

Ao ouvir alguns comentários chega a parecer-nos que Bolsonaro partiu para a segunda volta, tendo ganho a primeira. Lula precisa de obter mais 1,6% dos votos para ganhar, Bolsonaro necessita de mais 6,8 %; por cada voto a mais de Lula, Bolsonaro terá que ter três. 

Não façamos o jogo de Bolsonaro – o triunfalismo, mesmo quando derrotado, é arma dos populistas.

Não façamos o jogo de Bolsonaro – o triunfalismo, mesmo quando derrotado, é arma dos populistas. Mesmo assim, Bolsonaro recolheu 51 milhões de votos (43%), um resultado que nos surpreende, ocultando os mais de 57 milhões de votos de Lula. 

Como é que um candidato incapaz, com uma linguagem racista e machista, que nega a pandemia, que faz a apologia das armas e da mentira, tem tanto apoio? Escapa à nossa compreensão que um homem que representa tudo o que nos repugna não seja esmagado nas urnas. 

Na Europa já devíamos ter compreendido melhor a força da corrente neofascista. As vitórias de Meloni e Salvini na Itália, a força de Le Pen, os resultados eleitorais da extrema-direita na Suécia estão aí para o provar. Mas talvez fiquemos mais espantados com o apoio do populismo brutal e bronco, de Bolsonaro ou Trump. A extrema direita europeia parece mais polida, mas não é por isso que deixa de representar a mesma tentativa de desconstrução do Estado de Direito. Partilham o mesmo credo da superioridade do homem branco e do apelo, ao conservadorismo religioso – inscrevem-se na mesma corrente etnonacionalista religiosa de Putin. 

O discurso racista e patriarcal encontra apoio no Brasil, sustentado nas correntes reacionárias evangélicas, num vasto sector da classe média de remediados, que vive nos arredores das grandes cidades, que vira o seu ódio contra os descendentes dos escravos e, em parte, contra a elite urbana. Essa realidade ficou patente no voto paulista: Lula ganhou na cidade de São Paulo, mas perdeu no Estado. A escolha de Geraldo Alckmin para vice-presidente, duas vezes eleito como governador de São Paulo, pelo PSDB, não bastou para conquistar esse eleitorado. Encontrou eco a narrativa dos sectores da elite que apoiaram Bolsonaro em 2018, culpando a corrupção de políticos do PT pelo empobrecimento. O facto do PT , apesar de ter tomado medidas para garantir a independência do judiciário, ter  abandonado a agenda ética com que tinha sido eleito facilitou esse discurso.

O significado político da vitória de Lula na primeira volta, com mais 6 milhões de votos, não deve ser subestimado. O PT e o seu líder sobreviveram à destruição dos outros partidos democráticos porque não abandonaram a agenda social e continuaram a defender os interesses dos pobres e a combater a trágica herança da escravatura. 

O significado político da vitória de Lula na primeira volta, com mais 6 milhões de votos, não deve ser subestimado. O PT e o seu líder sobreviveram à destruição dos outros partidos democráticos porque não abandonaram a agenda social e continuaram a defender os interesses dos pobres e a combater a trágica herança da escravatura. 

Os governos de Lula foram uma experiência singular de social-democracia na América Latina, com políticas sociais capazes de tirarem milhões da miséria, garantir o crescimento económico, e ao mesmo tempo acalmar os mercados internacionais, uma política que nada tem a ver com a de governos populistas como os de Perón, Chávez ou Maduro. 

O centro e a direita democrática, como em países europeus, foi canibalizado pela extrema-direita. Simone Tebet, apoiada pelo PSDB e pelo PMDB, partidos que dominaram, com o PT, a política brasileira e ocuparam a presidência desde o fim da ditadura, obteve 4,16% dos votos. Os partidos que a apoiavam perderam muita da legitimidade que alcançaram com a democratização do Brasil, ao embarcarem na campanha de destruição do PT, ajudando, em 2018, a eleição de Bolsonaro. O mesmo aconteceu a Ciro Gomes, do PDT, que obteve 3% dos votos. A fraqueza do centro-direita é um dos graves problemas da democracia brasileira. 

Depois de 4 anos de governo que confirmaram Bolsonaro como neofascista, não apoiar Lula já não é só uma falta política grave, é uma falta ética. 

O que resta dos partidos do centro e da direita democrática, no Brasil, são coligações de personalidades, algumas delas prontas a vender a sua dignidade. Por isso o MDB e o PSDB declaram a sua neutralidade, o que permitiu ao governador de São Paulo (PSDB)negociar com Bolsonaro o apoio que lhe dá.

 Depois de 4 anos de governo que confirmaram Bolsonaro como neofascista, não apoiar Lula já não é só uma falta política grave, é uma falta ética. 

Fernando Henrique Cardoso, fundador do PSDB, ao contrário do que fez em 2018, declarou inequivocamente o seu voto em Lula, em defesa do Estado de Direito democrático. O mesmo fez Simone Tebet, que se afirma como uma alternativa para o futuro, no campo do centro-direita, ao declarar a participação na campanha de Lula. 

A tomada de posição em favor de Lula de muitas personalidades políticas, económicas e religiosas, mostra uma crescente consciência em sectores da elite brasileira de que Bolsonaro está a destruir o legado da democracia brasileira. Que o Estado de Direito, nomeadamente a independência do Supremo Tribunal, está ameaçado. Que mais quatro anos de extrema-direita no poder representam um risco existencial para as liberdades e para o lugar do Brasil no Mundo.

 A vitória contra Bolsonaro, como mostram as eleições francesas, impõe uma aliança entre a esquerda e o centro-direita (apesar da sua fraqueza atual). No Brasil, os movimentos sociais, como foram na derrota de Trump , são vitais também para travar o projeto autocrático. 

Para vencer Bolsonaro, Lula terá que unir todas as forças do campo democrático, sem ceder na agenda da inclusão social, da ecologia e da defesa dos direitos humanos. Ao mesmo tempo, terá que combater as campanhas de fake news de Bolsonaro que o acusam, por exemplo, de tencionar fechar as igrejas e perseguir os padres, apesar de ser católico praticante. O Supremo Tribunal Eleitoral tem procurado conter a onda de mentiras, mas a desinformação irá ser cada vez mais monstruosa.  

Essas campanhas de fake news encontram apoio na extrema-direita internacional que tem manifestado o seu apoio a Bolsonaro, como fez Trump. O Senado norte-americano, pelo contrário, numa resolução sem precedentes, declarou que romperia relações com o Brasil se o resultado das eleições não fosse respeitado. 

Nos BRICS, hoje dominados por dirigentes autocráticos, a voz de um Brasil democrático é essencial. 

O combate é difícil, mas o mais provável é que Lula vença – uma vitória da democracia contra a autocracia, no Brasil e no mundo. 

Debate :O futuro da democracia brasileira.

DEBATE «O futuro da democracia brasileira»O Brasil depois das eleições e os seus impactos internacionais.

 Orador: Reginaldo Nasser, Professor de Relações Internacionais da PUC de São Paulo, investigador no Instituto de Estudos sobre os EUA

Comentador: Alvaro Vasconcelos (Forum Demos)

Moderador: Rui Albuquerque, (UL Porto, Relações Internacionais)

Local:Universidade Lusófona , Rua de Augusto Rosa,24; 4000-098 Porto