Desinformação- Os europeus e a guerra do Iraque por Álvaro Vasconcelos

Um protesto contra a guerra no Iraque em Londres
(15 Fev. 2003)

Alguns afirmam, para justificar a sua complacência com a invasão da Ucrânia, que os europeus não se opuseram à invasão americana do Iraque.

Não é verdade que na Europa não houve uma forte oposição à Guerra do Iraque.

A Alemanha e a França condenaram a guerra. O discurso de Villepin (Ministro dos Negócios Estrangeiros Francês) no Conselho de Segurança, acessível no YouTube, ficou para a História.

Em Portugal, o Presidente Sampaio também condenou a guerra e impediu o envio de tropas portuguesas então desejada por Durão Barroso (Primeiro Ministro) e Paulo Portas ( Ministro da Defesa).

Nalgumas cidades de países que apoiaram a guerra, como Londres e Barcelona, milhões saíram à rua manifestando-se contra a invasão.

Derrida e Habermas escreveram uma carta expondo as razões da oposição da maioria dos europeus, como mostravam as sondagens, a uma guerra injusta e imperial. Para os dois filósofos a oposição à guerra do Iraque resultava da experiência história europeia-da tragédia do colonialismo e das guerras imperiais. O mesmo podemos dizer hoje no que diz respeito à oposição à política imperial de Putin.

A maioria dos Think Tanks europeus opuseram-se à guerra. Foi o caso do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais (IEEI). No editorial que escrevi, na minha qualidade de diretor, defini a intervenção americana como “política de potência, num mundo sem ordem, em que o unilateralismo se torna a regra”.

A desinformação russa tem interesse em esconder a oposição na Europa à invasão americana para justificar a invasão da Ucrânia, mas uma mentira, mesmo quando repetida muitas vezes, não passa a ser uma verdade.

Eleições francesas: um conto de dois destinos

Depois de cinco anos de presidência, da pandemia e da guerra da Ucrânia, Macron surge ainda como favorito nas sondagens, com cerca de 27% das intenções de votos na primeira volta e 53% na segunda. A reeleição dos presidentes franceses, porém, desde a crise financeira de 2008, não é um dado adquirido. Os dois últimos presidentes, Sarkozy e Hollande, não foram reeleitos. 

Já não é a clivagem clássica – entre a esquerda democrática do Partido Socialista, e a direita democrática dos Republicanos, a última das formas que foi tomando o partido dos herdeiros de De Gaulle – que atravessa a sociedade francesa. Os dois partidos correm o risco de desparecer: as suas candidatas, Anne Hidalgo e Valérie Pécresse, têm apenas 2% e 9 % de intenções de voto, respetivamente. 

A guerra da Ucrânia veio confirmar a clivagem entre uma França que acredita no seu destino europeu e uma França nacionalista – já patente quando o não prevaleceu no Tratado Constitucional, proposta de inspiração francesa. À invasão da Ucrânia por Putin opuseram-se Macron, o ecologista Jadot e a socialista Anne Hidalgo. A reação dos nacionalistas, de vários quadrantes, foi bem diferente. Marine Le Pen é a candidata de Putin e Órban, que financiaram as suas campanhas. Zemmour afirmava querer ser “o Putin francês”. Jean-Luc Mélenchon teve sempre uma posição ambígua sobre Putin, justificando a intervenção russa na Síria e a anexação da Crimeia e assacando a responsabilidade aos Estados Unidos. Os três candidatos partilham a oposição a tudo o que é supranacional, em particular a União Europeia, e assumem posições anti-Nato. O que os diferencia, e não é pouco,  é que Mélenchon recusa o etnonacionalismo e o conservadorismo. Marine Le Pen, a candidata da extrema-direita, aparece com 21% das intenções de votos na primeira volta, Zemmour tem cerca de 11% e Mélenchon cerca de 15%. As sondagens dão a Le Pen  cerca de 47% na segunda volta.

Na primeira volta, as intenções de voto nos partidos que defendem a União Europeia, de acordo com a última grande sondagem, são de 44%. Le Pen surge com uma nova camuflagem, com uma linguagem menos radical, seguindo, desde a expulsão do pai, uma estratégia de normalização do partido. Na campanha fala mais de poder de compra, a principal preocupação dos franceses, do que da sua agenda identitária e iliberal. O essencial do seu programa, no entanto, não se alterou, defendendo a revisão da constituição por referendo, nomeadamente para que o Conselho Constitucional não possa “examinar uma lei aprovada por referendo”. Continua a defender a teoria racista dita da “grande substituição” e por isso quer inscrever na Constituição a proibição de políticas que possam alterar “a composição e a identidade da França”. Basta ouvir Zemmour para sabermos o que Le Pen esconde.

Zemmour, como Putin, representa o estado supremo do nacionalismo, que rompe o consenso civilizacional francês do pós-Vichy. Defende Pétain, profere declarações racistas, evoca uma guerra civil entre os franceses “verdadeiros” e os milhões de muçulmanos de França, assume a defesa da sociedade patriarcal e da virilidade, que, segundo ele, “vai a par com a violência”. Zemmour, que foi jornalista do Figaro, consegue penetrar no campo da direita democrática, desviando votos para a extrema-direita que podem ir parar a Le Pen na segunda volta.

O apoio ao nacionalismo e a popularidade dos líderes da extrema-direita são sinais de que em França se confrontam, de forma radical, os dois grandes destinos da Europa. Um tem como horizonte uma Europa federal capaz de pesar na ordem do mundo, outro uma Europa fragmentada pelo iliberalismo, o etnonacionalismo, as identidades tristes. 

A presidência de Macron atestou a convicção no destino Europeu da França, e essa é a razão primeira para a defesa da sua reeleição. As suas propostas mais ambiciosas, mais federais, encontraram a oposição da Alemanha, mas com a pandemia conseguiu impor a Angela Merkel a necessidade do Programa de Reconstrução e Resiliência. Com a Guerra da Ucrânia, assumiu a liderança da resposta europeia de enorme firmeza no apoio ao povo ucraniano e de abertura para negociações diplomáticas, ao mesmo tempo que impulsionava um salto qualitativo na Europa da Defesa. 

O destino nacionalista, que assombra a França, não é fruto do acaso. Na sua base está a convicção de largos setores das classes populares, nomeadamente dos operários, de que nem o Estado francês, nem a União Europeia, os protege da globalização neoliberal. Nos primeiros anos do seu mandato, Macron, eleito com uma agenda de pendor social-liberal, nada fez que os convencesse do contrário, continuando a política económica dos seus antecessores . A igualdade é um credo fundador da democracia francesa, pelo que há uma intolerância às desigualdades. Com a pandemia, Macron assumiu que o Estado tem um papel essencial na economia, mas junto de uma parte dos eleitores o mal já estava feito. Marine Le Pen, ao contrário de Trump e Bolsonaro, verbera contra o neoliberalismo, e por isso a sua candidatura encontra apoio significativo nas classes populares. 

Não tenhamos dúvidas de que nas eleições franceses se joga não só o destino democrático da França, mas também da União Europeia e da paz no continente. A vitória de Marine Le Pen será o triunfo do iliberalismo e Putin poderá, com a sua cumplicidade, chantagear a Europa.  Se o destino europeu da França se confirmar, então haverá esperança na derrota de Putin, na contenção da ameaça autocrática e no renascimento democrático. 

versão ligeiramente revista do artigo do Público

Uma União capaz de garantir a paz na Europa

A reafirmação por Putin da política de potência, que marcou a Europa da primeira metade do século XX é uma ameaça existencial aos fundamentos da integração europeia e da paz no continente.

A União Europeia nasceu deslegitimando a política de potência entre os seus Estados membros, a via da paz democrática kantiana pela integração é a sua razão de ser. A invasão da Ucrânia por Putin mostrou que tal era insuficiente.

já sabíamos que as democracias enfrentavam ameaças internas, somos agora confrontados com a ameaça externa do etno-nacionalismo extremista de Putin. Em consequência, esfumaram-se os dividendos da paz e a defesa voltou a ser uma prioridade das democracias europeias.

já sabíamos que as democracias enfrentavam ameaças internas, somos agora confrontados com a ameaça externa do etno-nacionalismo extremista de Putin.

A Alemanha vai transformar-se numa potência militar de primeiro plano, e mesmo sem armas nucleares terá uma muito maior capacidade de ação fora do espaço europeu. François Mitterrand impôs como condição para a unificação alemã o aprofundamento da União Económica e Monetária e a criação da moeda única, com o objetivo de amarrar a Alemanha à integração europeia e travar qualquer tentação da Alemanha em agir como grande potência fora do quadro europeu. 

A guerra na Ucrânia impõe de novo um salto qualitativo na integração europeia, nomeadamente no domínio da defesa. É necessário para que a corrida aos armamentos entre os Estados membros não provoque a desintegração da União em potências rivais, agindo de forma autónoma, e para que a segurança europeia não fique dependente das opções e prioridades de uns Estados Unidos cada vez mais focados no Pacífico e que podem voltar aos anos Trump. A proposta de Macron de criação um fundo de defesa de 200 mil milhões de euros seria o passo necessário para garantir que é no quadro da União que se reforça a capacidade militar dos Estados membros, mas o facto de ainda não ter sido aprovada ilustra o risco real de uma perspetiva essencialmente nacional  das políticas de defesa.

Um salto na Europa da Defesa , como o proposto, será feito no quadro dos mecanismos da cooperação reforçada entre os Estados membros e colocará a questão do escrutino democrático das despesas militares e das condições do uso da força..

O Tratado de Lisboa introduziu uma cláusula de segurança mútua, mas procurou acomodar as preocupações atlantistas do Reino Unido e dos neutros, reduzindo a sua aplicação à luta contra o terrorismo e às crises humanitárias. É difícil imaginar, porém, que um ataque militar a um Estado da União, mesmo não membro da Nato, não tenha uma resposta comum, o que, a acontecer, seria o fim da União Europeia. Daí que as ameaças da Rússia à Suécia e a Finlândia exijam uma resposta inequívoca: atacar um Estado membro é iniciar uma guerra com a União Europeia. 

O processo de adesão da Ucrânia à União Europeia coloca  a questão das garantias de segurança que Kiev considera essencial para assinar qualquer acordo de paz, num contexto em que já reconheceu que não seria membro da NATO.  Creio que a ambição da União Europeia deveria ser criar as condições para assumir essa responsabilidade. Se der o salto na defesa que anuncia e associar o Reino Unido, a União a segunda economia do Mundo, terá capacidade para tal.

O processo de adesão da Ucrânia à União Europeia coloca  a questão das garantias de segurança que Kiev considera essencial para assinar qualquer acordo de paz, num contexto em que já reconheceu que não seria membro da NATO.

O uso da força em resposta a uma agressão militar é garantido pelo artigo 51 da Carta das Nações Unidas: “Nada na presente Carta prejudicará o direito inerente de legítima defesa individual ou coletiva, no caso de ocorrer um ataque armado contra um Membro das Nações Unidas”. Não é por não terem esse direito que os Estados da NATO não intervêm diretamente na defesa da Ucrânia contra a invasão russa, mas por considerarem que essa intervenção poderia levar a uma escalada e a uma guerra mundial, potencialmente com recurso a armas nucleares. 

Uma Europa com capacidade de agir militarmente é fundamental para garantir uma relação mais equilibrada no seio da Aliança Atlântica que continuará a desempenhar um papel essencial para garantir a credibilidade da dissuasão nuclear

Nada disto implica que a Europa possa vir a atuar como uma potência tradicional, que passe a considerar que a guerra é a continuação da política de Estado por outros meios, na fórmula de Clausewitz. Se o fizesse estaria a por em causa o próprio fundamento da sua existência: a deslegitimação da política de potência. É no quadro de uma ordem multilateral e no respeito estrito dos seus princípios que a União poderá usar a força – na defesa da sua soberania, quando atacada, em socorro a um Estado vítima de agressão ou em operações de paz. A segurança humana deverá orientar toda a acção da União e o objectivo essencial deverá ser a paz .

Num mundo sem ordem, de competição armada entre os Estados, o projeto de uma Europa pacífica kantiana enfrenta enormes dificuldades. A guerra na Ucrânia abala profundamente os fundamentos da ordem internacional do pós-guerra, aprofundados nos anos 90. Uma das suas grandes vítimas é, desde logo, a ONU. Apesar da mais que expressiva votação da Assembleia-Geral, na qual apenas cinco países votaram contra a condenação da guerra, a ONU foi incapaz de gerar qualquer iniciativa que levasse ao fim da invasão. E não está a desempenhar o papel que deveria ser o seu para garantir a segurança dos corredores humanitários e o apoio em bens e medicamentos às cidades cercadas.

A afirmação da União Europeia enquanto potência política e militar pode fazer com que venha a ter um papel central na reconstrução da ordem multilateral. Mas para já, é urgente travar a invasão da Ucrânia e fazer com que as tropas de ocupação se retirem. A União Europeia pode contribuir para tal aumentando o apoio logístico e em armamento às forças armadas ucranianas. O fracasso da agressão é o primeiro passo para repor a ordem internacional, como foi a invasão do Koweit pelo Iraque ou do Iraque pelos Estados Unidos. A União Europeia política e militar será um ator decisivo para garantir a paz na Europa e contruir com a Rússia pós-Putin uma ordem europeia inclusiva. 

Aos meus amigos brasileiros -Álvaro Vasconcelos 

As posições que hoje tomarem sobre a Ucrânia contribuirão para o restauro da ideia de que a esquerda brasileira é uma alternativa real ao bolsonarismo.

Em Setembro de 2015, publiquei no Público, uma carta  aos meus amigos brasileiros, inquieto que estava com o futuro da sua democracia, ameaçada pelo regresso do ódio político e por uma polarização maligna que levaria ao poder Bolsonaro.

Hoje sinto de novo a necessidade de vos escrever, num momento em que as cidades ucranianas estão cercadas, muitos civis morrem nos bombardeamentos e mais de dois milhões  são já refugiados.  A guerra voltou à Europa e ninguém é capaz de dizer como irá acabar.

Sinto-me, tal como muitos europeus, cheio de razões para apelar à vossa solidariedade para com uma Europa que vos acolheu nos anos de ditadura militar e sempre condenou Bolsonaro, onde seria sempre recebido com manifestações de protesto e ovos podres

O apoio brotava da convicção profunda de que o direito à liberdade e à democracia são universais, de que os direitos humanos e a obrigação de os defender são as maiores conquistas dos pós II Guerra Mundial.

No lugar da empatia humana com o sofrimento atroz das populações, vemos a cegueira ideológica de muitos para quem o mundo se reduz a um confronto estratégico, entre os Estados Unidos e a Rússia, indiferentes à luta heroica dos ucranianos pela liberdade contra a tirania ou aos russos que vão para a rua defender a paz.

Olham para as relações entre os Estados com as lentes das velhas teorias geopolíticas reacionárias dos espaços vitais e zonas de influências, tão populares na escola de guerra de todas as ditaduras. Negam o papel da ideologia, do nacionalismo identitário de Putin, de etno-nacionalismo eslavo e religioso, de um conservadorismo extremo. Não vêm, ou não querem ver, que Putin é um autocrata obscurantista, para quem a sorte  do seu povo é irrelevante, que se preocupa com as sanções apenas na medida em que afetem o seu poder. Para terem a exata imagem do que é Putin, basta pensar no que seria o Brasil sem ser um Estado de direito com contrapoderes, sem imprensa livre, e onde quem se manifestasse contra o regime fosse preso, onde os opositores pudessem ser envenenados impunemente. Em suma, se Bolsonaro tivesse o poder absoluto e se dotasse de uma poderosa máquina de guerra e de mentira que construiria com o propósito de afirmar um poder imperial. A ida de Bolsonaro a Moscovo nas vésperas da invasão e a sua manifestação de solidariedade com Putin deveria ter ajudado a compreender isso.

Os que condenam a agressão de Putin – e também há muitos o que fazem -, na sua maioria, acrescentam um “mas”, normalmente para serem identificados como do lado da boa consciência de esquerda, para não serem atacados pelos seus. Dizem: ‘mas’ os Americanos invadiram o Iraque, ‘mas os Palestinos são vítimas de agressão… Agem como se um crime justificasse outro crime.  Quando da Guerra no Iraque, milhões foram para a rua em todo o mundo, sem nenhum ‘mas’. Passam o tempo a discutir as decisões tomadas depois da queda do Muro de Berlim, como se, depois da invasão da Polónia, a discussão pertinente fosse o mal-fundado do Tratado de Versalhes.

Para alguns, ser de esquerda é ser antiamericano, pelo que nenhum esforço sério de análise é necessário, basta saber o que lado estão os Estados Unidos. Se fosse assim tão simples, para tomar posição, bastava ler os comunicados da Casa Branca.

Já durante a guerra da Síria me interroguei sobre quais eram as razões que levavam tantos a apoiarem a intervenção russa em socorro de um criminoso de guerra como Assad. Argumentei que a explicação podia ser encontrada nas teorias, de um outro russo, Ivan Pavlov, dos “reflexos condicionados” e escrevi que “quanto maior o antiamericanismo, maior é o apoio a Putin e a Assad”.

As razões do antiamericanismo na América Latina são bem conhecidas. As intervenções americanas, o apoio a sangrentos golpes militares contra os regimes democráticos, como no Chile, na Argentina e no Brasil, as décadas de bloqueio a Cuba, são crimes que marcam a consciência da esquerda latino-americana. Embora as razões profundas do antiamericanismo estejam bem identificadas, não justificam o niilismo de alguns, não justificam a falta de compromisso com os direitos humanos.

Temos que lembrar, em abono da verdade, que também em Portugal existem alguns para quem ser de esquerda é apenas uma etiqueta, sem conteúdo ideológico, sem qualquer empatia, muito menos solidariedade, perante as vítimas da opressão e que, talvez por isso, só descobriam que Putin é um reacionário que quer reconstruir o império czarista, quando responsabilizou Lenine e os bolcheviques pela existência da Ucrânia.

Não o Lenine que dizia que o império dos Czares era “uma prisão dos povos e das nações”, mas na sua versão estalinista de deportação de populações.

É verdade que há muitos brasileiros que se consideram de esquerda e que se opõem à guerra, que assumem uma posição de denúncia de Putin e que, por isso, são bombardeados de comentários insultuosos ou de espanto. A sua coerência faz deles a esperança de um Brasil ode prevaleça a razão  e capaz de fazer dos direitos humanos um credo universal; um Brasil que poderá este ano desembaraçar-se de Bolsonaro e voltar a ser uma voz credível e respeitada.

As posições que hoje tomarem sobre a Ucrânia contribuirão para o restauro da ideia de que a esquerda brasileira é uma alternativa real ao bolsonarismo. O mundo precisa de um Brasil que recupere o seu protagonismo enquanto ator da paz, que coloque os cidadãos e os seus direitos no centro da sua ação.

Porque é que Putin pode ser derrotado na Ucrânia – Álvaro Vasconcelos

FOTOGALERIA: manifestações anti-Putin multiplicam-se pela Europa, enquanto  na Rússia os manifestantes antiguerra são avisados de possíveis  “consequências negativas” - Expresso
Manifestantes contra a guerra em S.Petersburgo

No início da invasão, o sentimento generalizado era o de que a Ucrânia seria uma presa fácil. Porém, passados 6 dias, constatamos que não o é. Nasce a convicção de que Putin pode ser derrotado na Ucrânia.

O que é que foi subestimado e o que é que fomos descobrindo?

 Em parte, a surpresa deve-se ao esquecimento de uma lição da História do século XX: um exército invasor, por muito poderoso que seja, encontra sempre muita dificuldade na ocupação de um país. Foi o que aconteceu com os Estados Unidos no Iraque e a União Soviética no Afeganistão. A única invasão bem-sucedida de que me lembro nos pós II Guerra Mundial foi a invasão da minúscula Granada.

Talvez levados pela propaganda do Kremlin – sobre a falta de união entre a população ucraniana, que viveria numa situação de guerra civil –, muitos pensaram que se dividiria entre pró-russos e pró-ocidentais e que as dificuldades da democracia ucraniana a tornariam frágil perante um invasor. Ao contrário do que Putin afirmou, a Ucrânia não é uma invenção de Lenin e dos Bolcheviques, é uma Nação. A unidade dos ucranianos, a sua vontade de resistir ao invasor, tem sido um factor decisivo nestes primeiros dias de guerra.

O Presidente Zelensky, a sua coragem, mas também sentido político, os seus apelos ao povo russo, tem sido outro factor extremamente importante para dificultar o sucesso de Putin. Pensava que encontraria um líder frágil e temeroso como dizia a propaganda russa. Dizem-me que teve um enorme impacto o seu discurso no Conselho Europeu e ficará para a história a sua reposta à proposta de evacuação: “Preciso de munições, não de uma boleia”. Se as circunstâncias fazem os grandes homens, aqui está um exemplo.

Sou levado a crer que, como acontece muitas vezes com os autocratas, Putin acreditou na sua própria propaganda.

Por outro lado, para esta situação também contribui o facto de o exército russo estar a combater num país irmão. Muitos daqueles soldados, tantos deles jovens, talvez não vejam razão alguma para morrer. À semelhança do que aconteceu em Praga em 68, chegam relatos de soldados que dizem que não sabiam para onde iam. Entre combatentes que lutam por uma causa que consideram justa e os que vêm para impor a opressão existe uma diferença fundamental: a convicção de que o sacrífico da vida faz sentido.  

Se a resistência continuar, os soldados russos morrerão numa proporção inaceitável para a opinião pública russa, as suas mães irão protestar contra a guerra, como o fizeram no Afeganistão. As manifestações para a paz na Rússia já enfraquecem Putin e destabilizam os soldados.

Putin pode censurar a informação, mas esta é uma guerra na era das redes sociais e tudo se acaba por se saber. É também por isto que os ucranianos, a começar pelo seu Presidente, fazem apelos em russo – porque sabem que chegarão aos seus irmãos históricos do outro lado. A interconecção pelas redes sociais entre ucranianos e russos, mas também com cidadãos de todo o mundo, é um fator desta guerra, tal como são as redes de cooperação que hoje envolvem cidadãos de todo o mundo e ucranianos e russos em todos os domínios do saber e da actividade social, e que que despertam a consciência de todos para os crimes de Putin e para o futuro sombrio que ele representa. Não foi em vão que a Ucrânia e a Rússia foram sociedades abertas ao mundo nestes últimos 30 anos.

A resistência dos ucranianos, bem como a atitude do seu Presidente, estão a empolgar a opinião pública internacional e a levar a manifestações pela paz de centenas de milhares de pessoas. O azul e o amarelo enchem as redes sociais e muitos são os que exigem aos seus governos mais apoio à Ucrânia. Não é por acaso que amigos de Putin, como Viktor Orbán, hoje exigem medidas duras.   Perante estes apelos e perante a gravidade da situação, os governos estão a responder com pesadas sanções económicas, mas também com ajuda militar cada vez mais significativa. 

Putin enfrenta uma ameaça existencial à sobrevivência do seu regime, com um fracasso da sua invasão da Ucrânia. Uma Ucrânia que saia consolidada da guerra como nação democrática e com a integração na União Europeia assegurada, será um poderoso incentivo para os russos que aspiram ao mesmo destino.  Tem feito muito bem o governo ucraniano em não confundir os russos com Putin e o regime oligárquico que o apoia.

Putin declarou que colocava as armas nucleares em estado de alerta elevada. É a declaração mais bárbara desde que Hiroxima foi destruída. Os americanos foram derrotados no Vietnam e os soviéticos no Afeganistão sem recorrer à chantagem nuclear. Tenta com ela intimidar o Ocidente, mas também os ucranianos. Do arsenal nuclear russo fazem parte armas nucleares táticas que, utilizadas na Ucrânia, não criariam uma situação de destruição mútua assegurada. Tenho a convicção que os ucranianos não se vão deixar intimidar.  

 Se se sentir derrotado, Putin poderá aplicar na Ucrânia a estratégia com que arrasou Grozni e Alepo e bombardeará maciçamente as cidades, fazendo centenas de milhares de mortos. Todavia, esta escalada apresenta um enorme risco: aumentaria a oposição à guerra na Rússia e aumentaria a pressão no Ocidente para uma intervenção militar em defesa da Ucrânia. Intervenção que aconteceria se Putin usasse armas nucleares.  

Tudo isto me leva a crer que Putin pode ser derrotado na Ucrânia. Assim o povo ucraniano e o seu exército resistam mais uma semana, talvez menos. A eles ficaremos então, sem sombra de dúvida, a dever a paz na Europa.

A Ucrânia tem lugar na União Europeia

Como não nos sentirmos hoje ucranianos? Como não sentir o horror que estão a sentir? Creio que para nós, portugueses, que nos cruzamos diariamente com muitos ucranianos que cá vivem, deve ser um sentimento quase imediato.
Os 44 milhões de ucranianos devem estar hoje no centro dos nossos pensamentos e no centro da ação da comunidade internacional.

Será que é preciso dizê-lo? Os ucranianos são seres humanos que aspiram, como nós, à liberdade, a uma vida boa e feliz, que têm um direito inato ao respeito pelos seus direitos humanos.
À semelhança de outros grandes criminosos da História, Putin, antes de transformar a vida dos ucranianos num inferno, começou por desumanizá-los. Disse que eles não tinham direito a sentirem-se como cidadãos de um país que amam, que eram uma criação artificial do bolchevismo, que, sem Lenine, nunca teriam existido.

A desumanização do outro, como tão bem escreveu Primo Levi, é a condição necessária para lhes negar o direito à vida. É um traço de todos os déspotas, dos que acreditam na superioridade da sua raça, cultura ou etnia. Os ucranianos que não falam russo, que não se reveem na Rússia eterna de Ivan ‘O Terrível’, no império colonial dos czares, na Rússia de antes da Revolução de Outubro, não têm direito a ter direitos. Podem sofrer e morrer, porque devem pagar por quererem ser cidadãos dum país que não devia existir.

Os cínicos de todos os quadrantes também se esquecem dos ucranianos: os que se dedicam a meros cálculos geopolíticos e que continuam a raciocinar como se ainda vivêssemos na Guerra-Fria, reduzindo os ucranianos a meros peões de um jogo global; os que vão atrás da propaganda do Kremlin e que acreditam que cada ucraniano é um fascista, porque na Ucrânia, como em todos os países europeus, existe uma força de extrema- direita minoritária (2,15% dos votos na últimas eleições); bem como os que, por antiamericanismo, são incapazes de ser solidários com os ucranianos – o que me leva a pensar que estiveram com os iraquianos apenas porque estes estavam a ser atacados pelo imperialismo americano.

Durante muitos anos deixou-se Putin agir impunemente. O momento-chave terá sido talvez o bombardeamento pela aviação russa das cidades sírias e as centenas de milhares de mortes que provocaram. Poderá também ter  sido a invasão da Geórgia em 2008 ou da Ucrânia em 2014. Violações sucessivas do direito internacional sem consequências sérias para Putin.

A questão que se coloca hoje é como ir em defesa dos ucranianos. Sabemos que seria um suicídio o envio de tropas para defender a Ucrânia, o que Putin relembrou a Macron e demonstrou ao mundo com os exercícios nucleares realizados antes da invasão, pondo em prática o princípio da dissuasão nuclear – contra uma intervenção militar ocidental em defesa da Ucrânia, a garantia de uma destruição mútua.

Nontira Kigle

Mesmo assim, há muitas formas de sermos solidários com a Ucrânia. A iniciativa mais eficaz seria a União Europeia declarar que a Ucrânia tem o destino europeu assegurado, oferecendo-lhe já a perspetiva de adesão.

Mesmo assim, há muitas formas de sermos solidários com a Ucrânia. A iniciativa mais eficaz seria a União Europeia declarar que a Ucrânia tem o destino europeu assegurado, oferecendo-lhe já a perspetiva de adesão. Se o fizer, dá aos ucranianos, que se encontram desesperados, uma perspetiva de um futuro melhor. Os líderes europeus podem de novo não ter a coragem de ir tão longe, mas não ficarão para a História. Não serão perdoados pelos ucranianos que, distantes das considerações estratégicas dos gabinetes, se sentirão mais uma vez sozinhos no seu combate.  É bom lembrar que foi a opção da Ucrânia pela Europa e a democracia em 2014  que  desencadeou a agressão russa O exemplo ucraniano era uma ameaça existencial para Putin .

A iniciativa mínima é assegurar a ajuda  humanitária e militar para que resistam. Concomitantemente, como propôs o economista francês Thomas Piketty, é preciso congelar os bens dos oligarcas que sustentam o esforço de guerra e a ditadura russa.
A II Guerra Mundial começou, é bom lembrá-lo, com a ocupação dos sudetas pela Alemanha nazi, região  da Checoslováquia, alegando que a sua população falava alemão. Hitler já tinha anexado  a Áustria e depois, como sabemos, invadiu a Polónia e desencadeou a II Guerra Mundial. Putin, até agora, seguiu o mesmo plano, e, tendo já anexado a Bielorrússia, prepara-se para ocupar a Ucrânia e impor um governo fantoche em Kiev.

Não parece provável que o Presidente russo prossiga a sua guerra de conquista em direção às Repúblicas Bálticas, que são as mais vulneráveis.  A NATO tem lembrado que as Repúblicas Bálticas são membros da Aliança e, como tal, estão protegidas pelo mesmo sistema de destruição mútua assegurada que nos deve proteger de uma nova guerra mundial. Porém, para que a dissuasão funcione, é preciso que os Estados Unidos e seus aliados deem continuidade ao reforço da sua presença militar nos países do Leste europeu, mais vulneráveis a um ataque russo.

Se Putin triunfar na Ucrânia é difícil prever o que fará a seguir. A independência da Geórgia, pelo menos, está em risco.

A Paz é ainda possível, desde que se consiga impedir que a guerra de Putin triunfe na Ucrânia. A afirmação do destino na União Europeia seria o estimulo  necessário aos ucranianos . É nosso dever fazê-lo.

“Putin pretende desestabilizar e mudar o regime na Ucrânia” – Álvaro Vasconcelos

Entrevista a Álvaro Vasconcelos pela RFI (22 de Fevereiro de 2022)
[fonte]

Depois de semanas de infrutíferas tentativas de diálogo sobre a crise ucraniana, o Presidente russo reconheceu oficialmente ontem à noite a independência das províncias separatistas pró-russas do leste ucraniano de Donetsk e de Lugansk e ordenou que as tropas russas garantam a segurança desses territórios, Moscovo esclarecendo contudo hoje que as suas tropas só deveriam entrar nesses territórios em caso de “ameaça”.

Esta decisão representa uma violação flagrante das fronteiras da Ucrânia, denunciou a ONU, enquanto chovem promessas de retaliações, nomeadamente por parte dos Estados Unidos que anunciaram sanções para as entidades que fizerem negócios com as províncias separatistas. A Grã-Bretanha anunciou sanções contra três oligarcas considerados próximos do Kremlin e cinco bancos russos. No mesmo sentido, a União Europeia também pretende adoptar novas medidas contra Moscovo nomeadamente a nível financeiro. Por seu lado, a Alemanha que tem sido país europeu mais próximo economicamente da Rússia, já anunciou a sua intenção de suspender o arranque do funcionamento do gasoduto Nord Stream II que devia marcar o aumento do fornecimento de gás russo à Alemanha.

Para Álvaro Vasconcelos, antigo director do Instituto de Estudos de Segurança da União​ Europeia, a Rússia parece para já ser avessa a qualquer solução diplomática e o seu objectivo é desestabilizar a Ucrânia de modo a lá instalar um regime que lhe seja mais favorável.

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Ucrânia: A Hora da Europa

A primeira vítima da guerra é a verdade. Sabemos isso desde há muito e a guerra de informação à volta do conflito na Ucrânia não é exceção.

A informação americana deixou de ser credível para muitos, sobretudo depois da guerra do Iraque e da desinformação sobre o programa nuclear e sobre as armas químicas, que bem sabiam, não existiam. Por arrasto, a informação dos governos europeus, mesmo os que se opuseram à guerra do Iraque, tornou-se também menos credível.  

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O Nacionalismo é a Guerra

 

Em A guerra de Troia não terá lugar, Cassandra pressagia a Andrómaca que a guerra, com a sua barbárie, vai regressar. Em 1935, dois anos depois de Hitler se ter proclamado Führer, Jean Giraudoux escreveu a peça como um manifesto pacifista. Foi também em 1935 que Mussolini, perante a impotência da Sociedade das Nações e das democracias, invadiu a Etiópia. É a Sociedade das Nações que veio  à memória quando António Guterres afirmou que não existe nenhum envolvimento das Nações Unidas na procura de uma solução para a crise da Ucrânia.

François Mitterrand, no seu discurso de despedida, no Parlamento Europeu, afirmou: “o nacionalismo é a guerra”. Como não pensar neste nefasto presságio quando vemos as imagens de milhares de tanques nas fronteiras da Rússia com a Ucrânia? Quando o discurso nacionalista justifica de novo a guerra e enaltece as suas virtudes? Quando vemos em países democráticos, incluindo em Portugal, políticos nacionalistas a apregoarem de novo a superioridade da ‘raça branca’?

Para os europeus ocidentais, a ideia de uma guerra em solo europeu é do domínio do impensável. Muitos entregam a Biden o destino da paz na Europa – tão levianamente que na campanha eleitoral portuguesa a crise da Ucrânia não merece sequer uma nota de rodapé.

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2021: sinais de futuros alternativos num mundo interconectado

 

O exercício que procurei fazer foi o de olhar para os eventos de 2021 de forma a tentar identificar sinais de futuros alternativos. Que vivíamos num mundo interconectado tínhamos tido a confirmação trágica em 2020 com a pandemia ,que continuou a dominar o mundo em 2021. A questão importante era em 2021 tentar compreender que sinais tínhamos de outras tendências que moldam o nosso futuro.

Será que tivemos sinais de que o refluxo democrático chegou ao fim? As mudanças que estamos a assistir na ordem internacional vão no sentido de um reforço do multilateralismo capaz de enfrentar os grandes desafios que se colocam à humanidade como as pandemias e a urgência climática? A União Europeia será capaz de superar a crise existencial com que se confronta desde a crise financeira de 2008 e assumir uma posição compatível com os seus valores na questão migratória derrotando o nacional-populismo ?

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