Brasil: neofascismo digital e golpe militar

 

A tentativa de golpe de 8 de janeiro é, depois do assalto ao Capitólio, mais um alerta das ameaças que a democracia enfrenta na sua luta existencial contra a extrema-direita. A democracia está em risco e o combate é internacional, tanto mais que as redes do neofascismo digital são globais. Lula tem hoje a duplo desafio de impedir que o golpe tenha sucesso e de assumir a sua dimensão internacional.

A 8 de janeiro convergiram duas correntes golpistas e antidemocráticas: a clássica, do autoritarismo militar brasileiro, e a nova, a do neofascismo digital.

Desde a campanha pelo impeachment de Dilma, cresceu nas redes sociais uma corrente fascista, que partilhou entre si, sobretudo em redes como o WhatsApp ou Facebook, notícias falsas, conspirativas, criando uma comunidade virtual ultraconservadora, ligada à ideologia da supremacia branca, do machismo, do culto da violência e das armas, numa mistura entre práticas de correntes evangélicas e as milícias fascistas italianas.

O neofascismo digital é um movimento político próprio da sociedade em rede. Foi ele que levou ao poder Bolsonaro, com a cumplicidade dos que se recusaram a ver a ameaça que representava para a democracia.

A 8 de janeiro convergiram duas correntes golpistas e antidemocráticas: a clássica, do autoritarismo militar brasileiro, e a nova, a do neofascismo digital.

No poder, Bolsonaro promoveu a infiltração das estruturas do Estado pelos grupos do neofascismo digital, incluindo no seio das Força Armadas. Foram esses grupos que lançaram a campanha de contestação à fiabilidade do processo eleitoral brasileiro, que não impediu a vitória de Lula. 

Só um golpe de Estado poderia reverter o resultado eleitoral, o que obrigou à saída do mundo virtual.

Desde a campanha pelo impeachment de Dilma, cresceu nas redes sociais uma corrente fascista, que partilhou entre si, sobretudo em redes como o WhatsApp ou Facebook, notícias falsas, conspirativas, criando uma comunidade virtual ultraconservadora, ligada à ideologia da supremacia branca, do machismo, do culto da violência e das armas, numa mistura entre práticas de correntes evangélicas e as milícias fascistas italianas.

As Forças Armadas brasileiras são a segunda componente deste golpe. Aceitaram a democracia a troco de uma amnistia, o que lhes deu um sentimento de impunidade. Nenhum dos governos democráticos foi capaz de alterar a sua convicção de que são um poder paralelo. As tentativas de internacionalização e de desconstrução da doutrina de segurança nacional, segundo a qual o inimigo é sobretudo interno, foram tímidas e fracassaram. O General Heleno, comandante da operação de paz das Nações Unidas no Haiti, continuou a elogiar a ditadura militar e era o responsável pelo gabinete de segurança de Bolsonaro. A “pacificação das favelas do Rio” pelo exército manteve o inimigo interno na agenda. Com Bolsonaro, milhares de militares na reserva assumiram postos nas estruturas do Estado. 

 Os assaltantes esperavam que, perante a fraqueza da resposta do executivo, o caos de Brasília se propagasse a outras cidades. Em São Paulo, a estratégica Avenida 23 de Maio estava bloqueada pelos bolsonaristas. Perante o caos e a impotência, os militares seriam chamados ou interviriam para repor a ordem. A consequência poderia ser uma junta militar, sem Bolsonaro. Esta tese é partilhada por analistas brasileiros, como o filósofo Renato Janine Ribeiro ou o jurista Pedro Dallari, que foi Presidente da Comissão da Verdade. 

Perante o caos, alguns defenderam que Lula deveria fazer um discurso conciliador, “compreender a ira popular que se manifestava “, para unir o povo brasileiro. Lula e o poder judiciário brasileiro fizeram exatamente o contrário. Classificaram os assaltantes de fascistas e golpistas. Foi decretada a intervenção do poder central no Distrito Federal, retirando competências ao Governador. O resultado foi imediato: as sedes dos 3 poderes foram evacuadas, com muitos golpistas detidos; os acampamentos à frente dos quartéis foram desmantelados, e muitos dos contestatários foram alvo de mandados emitidos pelo Juiz do Supremo Tribunal, Alexandre de Moraes.

A situação atual é bem diferente da que permitiu o sucesso do golpe de 1964. Hoje, Lula tem apoio nos sectores chaves do poder no Brasil, nos congressistas, no poder judiciário, nos governadores dos Estados, nas organizações patronais e nos média tradicionais – a TV Globo classificou os assaltantes como terroristas, quando em 1964 a grande imprensa apoiava o golpe. 

O envolvimento de militares no ativo no golpe está comprovado. Não só protegeram os que acampavam à frente dos quarteis, como o Batalhão da Guarda Presidencial do exército facilitou a ação dos assaltantes do Palácio do Planalto. Em entrevista à Folha de São Paulo, Lula afirmou que recusou decretar uma operação militar, proposta pelo Ministro da Defesa, de “Garantia da Lei e da Ordem” para afastar veleidades de “algum general assumir o governo”.

Lula é um grande político, com capacidade de forjar grandes coligações, e optou pelo diálogo com as Forças Armadas, procurando que afastem os elementos diretamente comprometidos com o golpe. Há quem defenda que este é o momento, quando Lula goza de tanto apoio político, para reformar as Forças Armadas, colocando-as claramente sob dependência política. Lula parece hesitar, o que indica que não está ainda seguro da reação dos militares. 

Lula encontrou pronto apoio nas democracias liberais, em Biden e nos líderes europeus. Os Estados Unidos. que em 1964 tinham participado no golpe, fazem hoje da luta contra a extrema-direita e o fascismo digital uma questão central da sua política internacional. O fascismo digital não tem fronteiras e é conhecido o apoio que Trump e Steve Bannon dão ao bolsonarismo. Lula irá continuar a confrontar-se com a ameaça do fascismo digital e das suas relações obscuras com as Forças Armadas. Paradoxalmente, talvez seja mais fácil resolver a questão militar. 

A defesa internacional da democracia irá marcar, apesar da relutância brasileira, a agenda da política externa do terceiro mandato. Contamos com Lula e com a sociedade civil brasileira para esse combate.

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers gostam disto: