Pelé, mais que um futebolista. Um homem como todos, ídolo de um povo soberano – Guilherme Giuliano Nicolau

Guilherme Giuliano Nicolau

Cientista Político

Nos últimos dias, estamos de luto pela morte do nosso ‘rei etíope’. Nosso rei que primeiro conquistou o Brasil e depois conquistou o mundo. Todos falam de Pelé. Entre eles, muitos estão cobrando o Rei por ser alienado politicamente, ou por decisões da vida pessoal de Edson Arantes do Nascimento.

Discordo em parte, não posso dizer que é possível ver dessa forma, mas eu peço para trocarmos as nossas lentes de ver o mundo por óculos escuros. Talvez estejamos ofuscados por tanta claridade. 

Defenderei Pelé, mas não é porque sou brasileiro. Antes disso, sou humano e internacionalista. Confesso também que me identifico muito mais com outros ídolos do futebol como Maradona (outro ídolo repleta de contradições). Venho falar sobre ser humano.

Parece-me injusto cobrar tanto de Pelé desconsiderando o seu contexto. Ele fez coisas fascinantes no futebol e é isso que ele pôde fazer, assim como nós nos destacamos em uma ou outra coisa.

O Brasil é um país extremamente desigual, com pobreza extrema, dificuldade de acesso à educação, com alta taxa de analfabetismo comparado aos seus vizinhos, em uma região pobre do mundo, um país extremamente religioso, com violência extrema e intolerância generalizada.

Se ainda é assim hoje, imagina nos anos 1960? A escravidão oficialmente havia acabado em 1888, não muito longe.

Acho injusto cobrar tanto de um homem preto e pobre que saiu do interior de Minas Gerais e teve o nome de Edson, porque em sua cidade de Três Corações a luz chegou apenas em 1940 e seu pai decidiu homenageá-lo. Saiu de lá para ir para Bauru no interior de São Paulo e em seguida para a cidade de Santos, onde consagrou-se. 

Em 1950, o Brasil era um País desconhecido no mundo e nem o brasileiro tinha orgulho de suas qualidades, o que nosso cronista Nelson Rodrigues chamou de ‘complexo de vira-latas’, quando perdemos a Copa de 1950. O pai de Pelé chorou e seu filho disse que ganharia uma Copa por ele. Com 16 anos já se dedicava integralmente ao futebol, algo que ocupou-o por décadas – ou talvez até o fim da vida. Com 17 anos anos, esse menino preto que apanhava em campo e era constantemente xingado de ‘negro sujo’, ganhou um Copa em 1958 na Suécia, com atuação de gala, em um esporte inventado pelos ingleses. É muita ousadia do nosso Rei. 

O mundo passou então a ter um ídolo preto e o Brasil foi colocado no mapa – não muito tempo atrás, era um País baseado no trabalho escravo e na monocultura de exportação de café. Assim como Mohammed Ali, Charlie Parker e Nina Simone, a branquitude foi obrigada a reconhecer, reverenciar e apreciar as habilidades e criatividade excepcional desses humanos que costumavam tratar como ‘bestas selvagens’ e ‘ignorantes’. Nossos ídolos pretos cruzaram o muro de Berlim e são verdadeiros internacionalistas. Pelé parou uma guerra na Nigéria em 1969, para todos assistirem o brilho de seu irmão comum – quase uma década antes, em 1960, o Ano Africano, um número expressivo de Nações conquistaram sua independência do colonialismo europeu. 

Pelé dançou em campo, inventou fintas na época que ninguém conhecia ou conseguia imitar, hoje está no pé de alguns profissionais de destaque. As elites tiveram que engolir Pelé e  foram obrigadas a apreciar o brilho do seu futebol, mas a cobrança para Pelé ser alguém diferente do que ele era nunca terminou. 

Veja, enquanto brasileiro e consciente do racismo extremo que vive o País, parece-me muito injusto cobrar do Pelé ser mais do que foi. Estamos muito acostumados a ver isso na vida cotidiana brasileiro, um peso e duas medidas: ao mesmo tempo que Pelé é cobrado de uma forma por toda a sociedade (seja esquerda ou direita), homens brancos medíocres são condecorados apesar de seus piores vícios. Acredito que existe algo por trás dessa cobrança, muitas vezes inconsciente, mas que Pelé sempre lidou com a elegância de um Rei do povo.

Gostaria de defender nosso Rei de algumas cobranças.

Dizem que Pelé apoiou a ditadura, ao ganhar a Copa de 1970. Já na época foi cobrado por isso, já que vivíamos uma brutalidade naqueles ‘anos de chumbo’ e a ditadura militar decidiu tornar a Copa a sua propaganda. No calor do momento, pessoas de esquerda e democratas convictos como familiares meus foram perseguidos e torturados, é compreensível que se cobre o estado de alienação do futebol naquele momento. Mas, Pelé não apoiou a ditadura, é injusto dizer isso. O que Pelé fez foi jogar futebol durante a ditadura e sabia de futebol e samba, essa era a sua realidade. Quando ganhou a Copa, tirou foto com a seleção toda (que tinha Rivelino!) junto ao General Médici, mas nunca imaginou que teria a repercussão que teve (para ele era apenas uma foto, o foco dele não era a política). 

Não por acaso, Pelé não foi para a Copa seguinte, mesmo tendo plenas condições físicas. Apesar da insistência do governo militar para a sua participação, justificou sua ausência justamente para não relacionarem sua atuação com os militares (ou com a política em geral), como foi cobrado antes. Não adiantou, porque dessa vez ele foi cobrado por não ter ido. 

Qualquer ação de Pelé virava assunto dentro de uma disputa entre elites, da qual ele estava muito distante e era o único cobrado. Pelé fez parte de uma luta silenciada que apenas hoje se dá atenção e é mais fácil de compreender.

Em outro momento, quando houve a redemocratização e um dos movimentos democráticos mais significativos da região (Diretas Já), cobraram novamente uma posição de Pelé. Apesar de alguma resistência devido ao histórico de cobranças, ele posou para um grande fotógrafo de esquerda chamado Ronaldo Kotscho, com a camisa do movimento, apoiando a eleição direta para Presidente, junto com grandes nomes populares do Brasil. Depois falou, de maneira simples (porque ele era um homem simples), que não apoia ditaduras, porque ele sabe que fez mal para o povo, que o povo estava sofrendo com a ditadura. Esse era o máximo de política que você poderia tirar dele – pelo menos dos assuntos políticos da elite.

Veja o discurso que Pelé fez ao completar mil gols, em 1969. É um discurso de um homem simples que ele repetiu diversas vezes na vida com olhos em lágrimas. Foi chamado de demagogo até o fim da vida por esse discurso, mas também afirmou que se tivesse que fazê-lo, faria de novo. No pior período da ditadura militar, o ‘máximo’ que Pelé conseguia discursar era sobre as crianças brasileiras e sobre cuidar das crianças, dedicou o título às crianças. Não é um discurso rebuscado, mas é o que ele tinha, o que ele foi, o que ele carregava em si, na sua história e nas oportunidades que teve.

Hoje, talvez, esse discurso soasse de outra forma, dada a visibilidade da luta contra o encarceramento em massa e o racismo de Estado, com polícias que praticam políticas de extermínio. A alienação é uma questão de perspectiva. O discurso de Pelé veio da sua vida real, da sua trajetória, da sua infância, dos seus irmãos e do seu trabalho com a juventude em Santos que, como ele contou, o deixava preocupado sobre o destino que estávamos condenado as crianças pobres (muitas pretas como ele), que rumavam pela delinquência.

Pelé sabia que era um ídolo e que tinha a responsabilidade de ser um exemplo, a partir do esporte. Pediu, certa vez, que quando fosse embora desse mundo, esquecessem um pouco do Edson que é humano e tem falhas, mas guardassem o Pelé. Rivelino contou que, em um tempo que o futebol profissional não exigia tanto fisicamente, Pelé invejava pelo seu desempenho. Foi líder de suas equipes pela sua disciplina. Chegava primeiro nas atividades e era o último a sair. Nunca reclamou de nada, nem quando estavam nas piores condições, dormindo no meio de escorpiões e dava coragem para todos seguirem focados em dar o melhor de si. Pelé era um jogador completo e desenvolveu todas as suas habilidades com muito treino. Na Copa de 1970 ele foi cobrado por estar velho, disseram que ele estava acabado, mas ele nunca perdeu a serenidade ou o foco. Também demonstrou ser aguerrido e um líder: Rivelino diz que entrou no vestiário e repetiu aos brados diversas vezes ‘eu não estou morto!’.

Pelé nunca deixou de desenvolver suas habilidades técnicas ao longo da vida. Foi para os EUA jogar no New York Cosmos, aprendeu inglês, aprendeu espanhol, aprendeu sobre negócios, concluiu uma faculdade de educação física, fez cinema em Hollywood, fez novela. A dedicação que o esporte ensinou para o Pelé deu tudo para ele, não foi por meritocracia, mas por sobrevivência – não existe cobrança que poderia pará-lo.

Não é por acaso, que Pelé ainda foi Ministro dos Esportes do Fernando Henrique Cardoso e teve algumas contribuições de políticas que vigoram até hoje (com méritos e deméritos), como a ‘Lei Pelé’. Cobraram novamente Pelé, disseram que ele não entendia nada de política, que era apenas garoto-propaganda – como se ele não pudesse ter opinião própria. De qualquer forma, Pelé enquanto ministro nunca falou de economia, só falou de esportes e trabalhou em cima da realidade dos esportistas profissionais, preocupado com sua liberdade e seus direitos; ou também, pensou na importância da educação esportiva para as crianças vivendo na marginalidade. Na época, pouca atenção foi dada ao seu discurso, quando disse que desejava mais ministros negros, mais deputados negro, ninguém deu atenção. Hoje teria outra repercussão.

Recentemente, Pelé foi cobrado por ter assinado uma camisa para o ex-presidente Jair Bolsonaro. Quando ele assinou a camisa do Bolsonaro, assinou como assinava a camisa de qualquer um e de qualquer Presidente. Possivelmente um erro. Mas muito plausível na sua realidade. Acho desproporcional como ele foi cobrado por isso. Muitos outros fazem isso e não são cobrados igual. Pelé passou a vida inteira sendo cobrado para se posicionar sobre tudo e novamente teve que aparecer, já idoso e na cadeira de rodas, para explicar a assinatura dessa camisa.

É verdade, a parte mais triste de sua trajetória foi não reconhecer a filha que teve com uma de suas empregadas domésticas, mesmo depois de exame de DNA e depois de ela dizer que não queria dinheiro algum, só queria o reconhecimento do pai. Não é nada incomum homens brancos não reconhecerem seus filhos com suas empregadas domésticas negras – essa, na verdade, é uma história muito recorrente na realidade laboral, racial e familiar brasileira, que a curtos passos a emancipação da mulher e do povo preto vem superando, muitos graduando-se em uma faculdade de educação física, como Pelé. O próprio Lula também foi cobrado em 1990 por um casamento abandonado e filha não reconhecida, usaram isso politicamente e contribuiu para perder a eleição daquele ano. Posteriormente, Lula se redimiu, hoje tem uma relação muito próxima com sua filha, que é jornalista. Lula também foi cobrado em uma medida desigual por na época ser nordestino, pobre, ex-analfabeto e sindicalista, mas ainda assim, é branco e não foi cobrado como Pelé. 

A desestrutura familiar é uma realidade que foi imposta a um povo que foi retirado de sua terra, escravizado, cortado seus laços, proibido de tudo, até de memória. Quando a escravidão foi abolida em 1888, continuaram ignorados e maltratados pelas elites, por muito tempo sem nenhum apoio para se estruturarem novamente. As imperfeições são heranças estruturais do passado que trazem sofrimento e desigualdade, mas ela não é responsabilidade apenas de quem sofre com elas, é uma dívida histórica da sociedade em reparar isso agora e para as gerações futuras. A cobrança, às vezes, parece uma punição e um novo obstáculo à construção gradual da emancipação de um povo. Nada disso impediu Pelé de, em 1988, discursar em rede nacional de televisão, em uma campanha de memória pelos 100 anos de abolição da escravatura no Brasil – e isso é intocável, o que uma parte da  elite pode fazer foi ficar em silêncio e torcer pelo esquecimento.

Pelé foi um ótimo jogador de futebol e um homem de seu tempo. Marcou a história naquilo que ele fez. E é um humano como qualquer outro. É o Rei do povo. Continuarão cobrando Pelé por séculos, mas ele continuará respondendo de sua forma serena, ‘na bola’, com suas conquistas e agora com a memória que se eternizou. Pelé nunca abaixou a cabeça, mesmo quando o mundo parecia dizer-lhe que seu lugar não era de ídolo. Com a sua ousadia conquistou o mundo. 

Um ídolo preto internacional. Pelé é imortal.

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