O Brasil do nosso contentamento

Por: Luis Faro Ramos

No dia 1 de janeiro tomaram posse em Brasília o Presidente e o Vice-Presidente da República Federativa do Brasil.

Perante mais de duas dezenas de delegações estrangeiras, entre as quais a de Portugal, liderada pelo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

Foi um momento muito aguardado e de elevado simbolismo. Representa o início de um novo ciclo político, que interessa ao Mundo e particularmente a Portugal. 

Porque, embora o relacionamento entre o nosso país e o Brasil vá muito além dos ciclos políticos, não lhes é indiferente.

O início de cada ano é tempo de fazermos balanços do que passou e prepararmos o que está para vir. Cheguei a Brasília em dezembro de 2020. Se 2021 foi um ano marcado pela pandemia, em que não parámos, tendo apenas conseguido fazer o possível dentro das circunstâncias, 2022 foi bem diferente. 

Portugal respondeu positivamente ao convite brasileiro para se associar às comemorações dos 200 anos da independência deste país. Constituímos uma Estrutura de Missão para, por iniciativa própria ou juntamente com a parte brasileira, dar um destaque ainda mais especial à singularidade das nossas relações.

Foram muitos e diversificados os resultados dessa celebração conjunta. Destaco a participação de Portugal como país convidado de honra na Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Durante dez dias mostrámos ao Brasil o que temos de melhor na literatura, a de ontem e a de hoje. 

Outro ponto alto nas celebrações do Bicentenário foi a participação do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa na sessão solene organizada em setembro pelo Senado Federal do Brasil. Com uma intervenção que, tal como a proferida pelo então Presidente de Portugal António José de Almeida nesse mesmo local em 1922, ficará para a história.

A comemoração de duas outras efemérides mereceu também a nossa atenção particular: os centenários do nascimento do Nobel da Literatura José Saramago e da primeira travessia aérea do Atlântico Sul pelos navegadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral. 

O caminho faz-se caminhando, e esta viagem tem sido compensadora. 

Da investigação científica à educação, da defesa à agricultura, da partilha de espaços estratégicos como a CPLP ou a ibero-américa, não faltam áreas em que a nossa cooperação é densa e intensa. 

A língua comum é um ativo extraordinário. Foi com grande satisfação que pude testemunhar a conceção (enquanto presidente do instituto Camões) e o nascimento, em 2022, do Instituto Guimarães Rosa. Um instituto que dará certamente que falar e que terá um papel importante a desempenhar, por si só, em conjunto com o Camões e no contexto da CPLP.

Extraordinário é também o crescimento da comunidade brasileira em Portugal e dos nacionais portugueses com origem no Brasil.

A comunidade brasileira é hoje a maior comunidade estrangeira no nosso país. No Brasil, sobretudo por via das aquisições de nacionalidade de descendentes de portugueses até ao terceiro grau, a comunidade portuguesa e luso-descendente está também a crescer. 

Temos muitas razões para estarmos otimistas em relação ao futuro das relações entre Portugal e o Brasil.

O Brasil está a iniciar uma nova Era.

José Inácio Lula da Silva, já como presidente eleito, esteve no final de novembro em Portugal, onde teve encontros com os nossos Presidente da República e Primeiro-Ministro. Foi uma passagem extremamente significativa. Portugal foi o primeiro país que Lula da Silva visitou após a sua eleição. E em Lisboa anunciou-se o início de um novo ciclo nas nossas relações.

Assim, ficou decidido que este ano retomaremos as Cimeiras bilaterais, que não se realizam desde 2016 (!). Esse evento constitui normalmente o ponto mais alto das relações institucionais entre dois países e traduz a sua maturidade. 

Até à Cimeira realizar-se-ão diversas reuniões preparatórias, que envolvem as administrações dos dois países, e nas quais normalmente se comparam notas, atualizam calendários e prioridades, e agregam setores cuja importância não estava antes devidamente reconhecida ou que não estavam no radar dos Ministérios setoriais.

Bastaria isto para que 2023 prometesse muito. Mas há mais. 

Finalmente, serão entregues os Prémios Camões a Chico Buarque e Paulina Chiziane, vencedores em 2019 e 2021. Ao vencedor de 2022, Silviano Santiago, o Prémio será atribuído também em data definir entre os dois países.

Continuaremos a trabalhar juntos no âmbito da CPLP e da Ibero-América, com o objetivo de maximizar o potencial que essas duas Organizações nos oferecem no cenário internacional.

Queremos aprofundar as parcerias já existentes, como a da OGMA e da EMBRAER, e explorar novas e prometedoras dimensões da nossa cooperação, por exemplo na área da saúde. E cuidaremos de tudo fazer para facilitar e dinamizar os investimentos portugueses no Brasil e os investimentos brasileiros em Portugal, bem como  o conhecimento mútuo das empresas dos dois países. 

Olhando para os 27 Brasis de que o Brasil é feito, cada um com uma realidade e expetativas diversas, ali promovendo o Portugal moderno e competitivo que somos.

E porque no fundo são as pessoas que contam, queremos continuar a prestar os melhores serviços consulares às nossas Comunidades e a todos os que nos procuram, apostando na qualidade e na inovação tecnológica.

Não são poucas as tarefas que nos compete executar.

Felizmente, existem várias estruturas que colaboram connosco e que são importantes instrumentos de afirmação e divulgação do nosso país, complementando o trabalho da Embaixada e da nossa rede consular, a maior que Portugal possui em todo o mundo. Desde as 18 Câmaras Portuguesas de Comércio – em breve serão 19 – passando pelas 8 Cátedras Camões, até aos conselhos consultivos dos diversos Postos Consulares, aos brasileiros que cada vez mais procuram o nosso país para estudar, fazer turismo, residir ou investigar, e passam palavra sobre o país que somos. Ou aos treinadores de futebol que trabalham diariamente com equipas do primeiro escalão de norte a sul do país (serão sete em 2023!). Todos contam, e muito.

É um privilégio, mas também um dever para o Embaixador de Portugal e a sua equipa, trabalhar e interagir com todas essas estruturas.

Ao Brasil desejamos um ótimo ano, com a tranquilidade e paz que permitam enfrentar e superar os inúmeros desafios nacionais e internacionais que se colocam. Portugal cá estará, com razões redobradas para sorrir neste novo ciclo.

Como diz frequentemente o Presidente Lula da Silva, o Brasil está de volta. De volta, designadamente, ao concerto das Nações, com uma voz autorizada em matérias tão importantes como as alterações climáticas, a proteção dos Oceanos ou a transição digital. 

Lembro-me bem, entre o final do século passado e o início deste, de ver o Brasil participando ativamente em todas as negociações internacionais relevantes, e cuja opinião contava sempre. 

Ao Brasil que está de volta, ao Brasil do nosso contentamento, votos de um excelente 2023!

Luis Faro Ramos

Embaixador de Portugal no Brasil

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