Brasil: uma vitória histórica, por Mara Telles

Fotografia disponível no Site da Campanha de Lula à Presidência do Brasil 2022

Atualmente, nota-se a corrosão da confiança da opinião pública nas instituições representativas. Trata-se de fenômeno que atinge diversas democracias, o que tem sido denominado como democracia de democratas insatisfeitos. Alguns analistas consideram que tal insatisfação não se constitui em um problema, uma vez que as críticas à democracia podem ser neutralizadas por lideranças e instituições. Contudo, crescem no país grupos insurgentes contra o sistema, que passaram a dominar agendas, seja mobilizando a opinião pública nas ruas e nas redes ou obtendo cargos políticos. As direitas moderadas estão sendo atraídas ou se reposicionando em função desses movimentos de caráter autoritário, que são ágeis e forçam mudanças na pauta política, além de influenciarem outros partidos a adotarem seus temas. 

Em relação ao perfil do europeu de direita radical, o eleitor médio é homem, mais ou menos jovem, com nível educacional médio e desconfortável com o tema da imigração. Tal padrão – homens e brancos – se repete no eleitor que apoia a direita radical brasileira. Porém, o que se destaca no país é a expansão de instituições cristãs, especialmente as de origem pentecostal e neopentecostal, que são legitimadas pelo discurso do atual Presidente. 

Orientados pela Teologia do Domínio, seus seguidores, grande parte oriunda das classes populares, têm outorgado autoridade a políticos que disseminam essa doutrina. Eles propagam que a política tem como objetivo a instauração de uma Nação Cristã, cujo cerne é a batalha do “bem contra o mal.” Mas, muitos desse exército de fiéis são formados por não-brancos e os mais pobres, fidelizados por lideranças religiosas que abastecem essas comunidades com serviços sociais ausentes e empregabilidade dos “irmãos”.   

Essa visão sagrada da política está influenciando governos, obtendo cadeiras nos legislativos e disputando temas como comunicação, educação, ciência, família, entretenimento, negócios e política. 2022, as direitas seguiram crescendo, mas foi o PL (Partido Liberal), do Presidente Bolsonaro, que se agigantou. Um PL menos fisiológico e mais ideológico e influenciado pelo bolsonarismo que se infiltrou nesse e em outros partidos que validam visões religiosas ou radicais da política. 

É difícil contabilizar o número exato de políticos eleitos em 2022 que aderem às direitas radicais, pois, eles não se vinculam a uma única legenda e passaram a ocupar cargos representativos. A partir da legitimação de agendas antisseculares, não apenas a direita moderada perdeu espaço na opinião pública e nas instituições. A entrada no mercado eleitoral de políticos que pregam contra a laicidade e o secularismo é mais um indício do desgaste da democracia brasileira.

A campanha presidencial pouco se pareceu com a democracia que parecia vigorar no Brasil durante mais de vinte anos. Embalada por sucessivos escândalos de corrução no âmbito federal, que atingiu seu ápice com o chamado “Orçamento Secreto” – recursos distribuídos prioritariamente aos parlamentares da base aliada do Presidente por meio das emendas do relator. A máquina pública foi intensamente usada de modo ilegal. O Presidente violou a Constituição Federal, propondo pacote de benefícios sociais eleitoreiros, tais como auxílio financeiro aos mais pobres (Auxílio Brasil), projeto incompatível com as regras eleitorais.

Não faltou amplíssima disseminação de Fake News nas redes bolsonaristas: as plataformas digitais foram invadidas com postagens sobre “satanismo”, atribuído ao candidato Lula, que ficou nos primeiros lugares nos trending topics do twitter mundial durante dias; associação de Lula a organizações criminosas de tráfico de drogas; fechamento de Igrejas cristãs; projetos lulistas de banheiros “Unissex”; ataques às urnas eletrônicas e às pesquisas eleitorais – tentando, inclusive, criminalizando-as através de Projeto de Lei e de abertura de uma CPI – Comissão Parlamentar de Inquérito, aprovada na Câmara dos Deputados, a pedido da base bolsonarista.  Não se sabe a quantidade de dinheiro gasto nas redes sociais, mas nunca antes os eleitores receberam tal quantidade de mentiras. Apesar do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ter adotado medidas para reduzir as Fake News, a velocidade delas era maior que a capacidade do tribunal para detê-las.

A escalada autoritária e a violência política foram marcas do governo Bolsonaro, intensificando-se durante a campanha, em especial após o 2º Turno. A violência atingiu seu ápice há uma semana do 2. Turno. Dentre os casos, destacam-se o do Ex-Deputado Roberto Jefferson e da Deputada Federal reeleita Carla Zambelli. Jefferson, que cumpria pena de prisão domiciliar por corrupção, proferiu xingamentos contra a Ministra do STF, numa clara violência política de gênero e institucional. Teve então a prisão domiciliar revogada e, ao ser abordado em sua casa pela Polícia Federal, resistiu à prisão com tiros de fuzil e granadas. Já a Deputada Federal reeleita Carla Zambelli, na véspera das eleições, sacou uma arma contra um militante do PT negro em São Paulo. No próprio dia do pleito, a Polícia Rodoviária Federal (PRF), descumpriu a decisão do TSE que buscava garantir o voto dos cidadãos brasileiros, determinando o direito de deslocamento gratuito deles.  Contudo, a PRF fez uma operação em todos país, paralisando o transporte, concentrada em redutos do petista, para impedir o eleitor de chegar às urnas. Junte-se à isso as inúmeras denúncias de assédio eleitoral – chantagem, ameaças e etc.  

Foi uma eleição histórica. Lula ganhou por apenas 50,9% contra 49,10%, uma diferença de apenas pouco mais de 2 milhões de votos, num total de mais de 118 milhões de eleitores que compareceram para votar. O Brasil saiu mais dividido do que nunca: Lula ganhou nos estados e nas classes mais pobres; Bolsonaro teve mais votos em áreas mais economicamente desenvolvidas e entre os mais ricos. A decisão foi pela economia, mas também entre a democracia e o fascismo orgânico, enraizado na sociedade brasileira. E, caso Bolsonaro tivesse sido consagrado pelas urnas, teríamos o fortalecimento de um regime autocrático.  Mas, as luzes estão acessas: com minoria no Congresso Nacional e a quantidade enorme de votos bolsonaristas, os próximos 4 anos não serão fáceis para Lula da Silva. 

Uma eleição histórica para tentar preservar as instituições e a democracia no Brasil. Mas, não será fácil reconstruir o que a extrema direita destruiu: os nossos valores democráticos e as instituições. O Brasil ganhou uma batalha, mas ainda não ganhou a guerra contra a direita radical, que está fincada em muitos corações e instituições do país.  

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