Lula, a liberdade contra a tirania

Depois de 4 anos de governo que confirmaram Bolsonaro como neofascista, não apoiar Lula já não é só uma falta política grave, é uma falta ética. 

Ao ouvir alguns comentários chega a parecer-nos que Bolsonaro partiu para a segunda volta, tendo ganho a primeira. Lula precisa de obter mais 1,6% dos votos para ganhar, Bolsonaro necessita de mais 6,8 %; por cada voto a mais de Lula, Bolsonaro terá que ter três. 

Não façamos o jogo de Bolsonaro – o triunfalismo, mesmo quando derrotado, é arma dos populistas.

Não façamos o jogo de Bolsonaro – o triunfalismo, mesmo quando derrotado, é arma dos populistas. Mesmo assim, Bolsonaro recolheu 51 milhões de votos (43%), um resultado que nos surpreende, ocultando os mais de 57 milhões de votos de Lula. 

Como é que um candidato incapaz, com uma linguagem racista e machista, que nega a pandemia, que faz a apologia das armas e da mentira, tem tanto apoio? Escapa à nossa compreensão que um homem que representa tudo o que nos repugna não seja esmagado nas urnas. 

Na Europa já devíamos ter compreendido melhor a força da corrente neofascista. As vitórias de Meloni e Salvini na Itália, a força de Le Pen, os resultados eleitorais da extrema-direita na Suécia estão aí para o provar. Mas talvez fiquemos mais espantados com o apoio do populismo brutal e bronco, de Bolsonaro ou Trump. A extrema direita europeia parece mais polida, mas não é por isso que deixa de representar a mesma tentativa de desconstrução do Estado de Direito. Partilham o mesmo credo da superioridade do homem branco e do apelo, ao conservadorismo religioso – inscrevem-se na mesma corrente etnonacionalista religiosa de Putin. 

O discurso racista e patriarcal encontra apoio no Brasil, sustentado nas correntes reacionárias evangélicas, num vasto sector da classe média de remediados, que vive nos arredores das grandes cidades, que vira o seu ódio contra os descendentes dos escravos e, em parte, contra a elite urbana. Essa realidade ficou patente no voto paulista: Lula ganhou na cidade de São Paulo, mas perdeu no Estado. A escolha de Geraldo Alckmin para vice-presidente, duas vezes eleito como governador de São Paulo, pelo PSDB, não bastou para conquistar esse eleitorado. Encontrou eco a narrativa dos sectores da elite que apoiaram Bolsonaro em 2018, culpando a corrupção de políticos do PT pelo empobrecimento. O facto do PT , apesar de ter tomado medidas para garantir a independência do judiciário, ter  abandonado a agenda ética com que tinha sido eleito facilitou esse discurso.

O significado político da vitória de Lula na primeira volta, com mais 6 milhões de votos, não deve ser subestimado. O PT e o seu líder sobreviveram à destruição dos outros partidos democráticos porque não abandonaram a agenda social e continuaram a defender os interesses dos pobres e a combater a trágica herança da escravatura. 

O significado político da vitória de Lula na primeira volta, com mais 6 milhões de votos, não deve ser subestimado. O PT e o seu líder sobreviveram à destruição dos outros partidos democráticos porque não abandonaram a agenda social e continuaram a defender os interesses dos pobres e a combater a trágica herança da escravatura. 

Os governos de Lula foram uma experiência singular de social-democracia na América Latina, com políticas sociais capazes de tirarem milhões da miséria, garantir o crescimento económico, e ao mesmo tempo acalmar os mercados internacionais, uma política que nada tem a ver com a de governos populistas como os de Perón, Chávez ou Maduro. 

O centro e a direita democrática, como em países europeus, foi canibalizado pela extrema-direita. Simone Tebet, apoiada pelo PSDB e pelo PMDB, partidos que dominaram, com o PT, a política brasileira e ocuparam a presidência desde o fim da ditadura, obteve 4,16% dos votos. Os partidos que a apoiavam perderam muita da legitimidade que alcançaram com a democratização do Brasil, ao embarcarem na campanha de destruição do PT, ajudando, em 2018, a eleição de Bolsonaro. O mesmo aconteceu a Ciro Gomes, do PDT, que obteve 3% dos votos. A fraqueza do centro-direita é um dos graves problemas da democracia brasileira. 

Depois de 4 anos de governo que confirmaram Bolsonaro como neofascista, não apoiar Lula já não é só uma falta política grave, é uma falta ética. 

O que resta dos partidos do centro e da direita democrática, no Brasil, são coligações de personalidades, algumas delas prontas a vender a sua dignidade. Por isso o MDB e o PSDB declaram a sua neutralidade, o que permitiu ao governador de São Paulo (PSDB)negociar com Bolsonaro o apoio que lhe dá.

 Depois de 4 anos de governo que confirmaram Bolsonaro como neofascista, não apoiar Lula já não é só uma falta política grave, é uma falta ética. 

Fernando Henrique Cardoso, fundador do PSDB, ao contrário do que fez em 2018, declarou inequivocamente o seu voto em Lula, em defesa do Estado de Direito democrático. O mesmo fez Simone Tebet, que se afirma como uma alternativa para o futuro, no campo do centro-direita, ao declarar a participação na campanha de Lula. 

A tomada de posição em favor de Lula de muitas personalidades políticas, económicas e religiosas, mostra uma crescente consciência em sectores da elite brasileira de que Bolsonaro está a destruir o legado da democracia brasileira. Que o Estado de Direito, nomeadamente a independência do Supremo Tribunal, está ameaçado. Que mais quatro anos de extrema-direita no poder representam um risco existencial para as liberdades e para o lugar do Brasil no Mundo.

 A vitória contra Bolsonaro, como mostram as eleições francesas, impõe uma aliança entre a esquerda e o centro-direita (apesar da sua fraqueza atual). No Brasil, os movimentos sociais, como foram na derrota de Trump , são vitais também para travar o projeto autocrático. 

Para vencer Bolsonaro, Lula terá que unir todas as forças do campo democrático, sem ceder na agenda da inclusão social, da ecologia e da defesa dos direitos humanos. Ao mesmo tempo, terá que combater as campanhas de fake news de Bolsonaro que o acusam, por exemplo, de tencionar fechar as igrejas e perseguir os padres, apesar de ser católico praticante. O Supremo Tribunal Eleitoral tem procurado conter a onda de mentiras, mas a desinformação irá ser cada vez mais monstruosa.  

Essas campanhas de fake news encontram apoio na extrema-direita internacional que tem manifestado o seu apoio a Bolsonaro, como fez Trump. O Senado norte-americano, pelo contrário, numa resolução sem precedentes, declarou que romperia relações com o Brasil se o resultado das eleições não fosse respeitado. 

Nos BRICS, hoje dominados por dirigentes autocráticos, a voz de um Brasil democrático é essencial. 

O combate é difícil, mas o mais provável é que Lula vença – uma vitória da democracia contra a autocracia, no Brasil e no mundo. 

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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