O mundo de hoje – Teresa de Sousa

Teresa de Sousa

As palavras têm consequências

Depois de férias, caro leitor, cara leitora, é sempre difícil recomeçar o trabalho. Duas semanas em que a nossa atenção está concentrada em coisas muito mais simples e agradáveis como os netos, a praia, as bolas de Berlim, com creme ou com sem creme, os gelados, um bom restaurante à beira-mar, afasta-nos das agruras do mundo e do intenso ruido mediático em que vivemos mergulhados quase todos os dias. Mesmos que os alertas no telemóvel não nos deixem cortar com a realidade, à hora do telejornal há sempre um neto ou uma neta a ver um filme ou uma série da Netflix que não vamos, naturalmente, interromper. Podemos sempre aproveitar para ler mais umas quantas páginas de um dos livros que levámos para férias. Recomendo-lhe vivamente aquele que conseguiu ler: “A Fome Vermelha”, da consagrada Anne Applebaum. Falarei dele mais tarde. Ajuda-nos a compreender esta guerra terrível da qual depende o nosso futuro, que nos é recordada todos os dias pelas bandeiras da Ucrânia nas fechadas dos edifícios públicos de qualquer pequena vila ou cidade algarvia, das que visitei. E há sempre o ruído de fundo de um debate político que parece cada vez mais extremado e há os incêndios que, desta vez, foram combatidos com eficácia e organização, mas que nos deixaram os rostos aflitos de tanta gente que perdeu parte dos seus haveres e do seu ganha-pão. A Europa, sobretudo a Sul, ardeu furiosamente este Verão de temperaturas extremas e de seca severa como há muito tempo não se via, alertando-nos para que já não nos resta muito tempo para inverter o aquecimento global.

Uma morte em Itália

E lá estou eu, de novo, a passar em revistas os males que nos afligem, enumerando meia dúzia de banalidades. Talvez por isso, porque nos habituamos demasiado depressa aos males que nos deviam indignar, houve uma foto que consegui fixar a minha atenção e que não me sai da cabeça. Uma rua de uma pequena cidade italiana. Um homem a espancar outro homem, estendido no chão. O primeiro é branco. O segundo é negro. O título das notícias diz-nos que era um imigrante nigeriano, vendedor ambulante. Foi morto em plena luz do dia, diante do olhar de algumas pessoas, que não fizeram um gesto em sua defesa, talvez imobilizadas pela brutalidade do que viam. Alika Ogorchukwu morreu. Diz a imprensa italiana que a Itália ficou em estado de choque com a agressão e com a indiferença. Que todas as forças políticas italianas condenaram este assassinato. Incluindo Giorgia Meloni, a líder dos “Irmão de Itália”, o partido de extrema-direita que está à frente em todas as sondagens para as eleições legislativas que se realizam a 25 de Setembro.

Dir-me-ão que não é caso único, nem sequer em Portugal. Mas há um significado profundo nesta morte brutal, sobre o qual nem sempre meditamos o suficiente: as palavras têm consequências. Quando os partidos de extrema-direita ou de direita populista e nacionalista elegem como bandeira o combate aos imigrantes, quando o seu discurso xenófobo inclui palavras que raiam o ódio racial ou social, prometendo a perseguição e a deportação, quando olham para eles como seres humanos de segunda categoria, desprezíveis, perigosos, desnecessários, as suas palavras têm consequências. Nos Estados Unidos, em Itália, em Portugal ou em França.

Quando os partidos de extrema-direita ou de direita populista e nacionalista elegem como bandeira o combate aos imigrantes, quando o seu discurso xenófobo inclui palavras que raiam o ódio racial ou social (…) as suas palavras têm consequências.

Quando André Ventura faz no Parlamento um discurso odioso contra os imigrantes, isso tem consequências. Não é apenas uma questão de liberdade de opinião, a que tem todo o direito. Não é apenas um discurso ao qual o melhor é nem sequer darmos importância para não lhe dar palco, “que é o que ele quer”. E, por amor de Deus, não pode ser visto como uma peça de um mero jogo político que, segundo os partidos da oposição, só serve para beneficiar o PS ou o Presidente da Assembleia da Repúblicas. As palavras têm consequências. As palavras de Ventura têm consequências. As palavras de Matteo Salvini, o líder da Liga, outro partido de direita extrema italiana que, nas últimas eleições, prometia ir “de rua em rua” e “de casa em casa”, à procura dos imigrantes ilegais para expulsá-los do país, têm consequências. Apontam o dedo aos “outros”, imigrantes de outras etnias e de outras culturas, sub-humanos, como a origem de todos os males, como uma ferida que é preciso extirpar. Apelam aos instintos mais primários dos que se sentem ressentidos com as suas vidas e as suas dificuldades. Desencadeiam o ódio e o ódio desencadeia a violência.

Quando André Ventura faz no Parlamento um discurso odioso contra os imigrantes, isso tem consequências. Não é apenas uma questão de liberdade de opinião, a que tem todo o direito.

As palavras contam

As democracias são a antítese da violência política ou social, são o regime do consenso, onde só há adversários, não há inimigos, onde prevalece – só pode prevalecer – aa ideia de humanidade comum e a universalidade dos direitos fundamentais de todos os seres humanos.

Alika Ogorchukwu, de 39 anos, tinha mulher e dois filhos. Estava a vender lenços de senhora numa artéria central da estância balneária de Civitanova Marche, na costa do Adriático. De acordo com a imprensa italiana, terá sido “insistente” na sua tentativa de vender a mercadoria ou conseguir “algum dinheiro de bolso”.  Era deficiente e usava uma bengala que serviu de arma ao agressor.

A região onde se situa a cidade é governada desde 2020 pelos “Irmãos de Itália” de Meloni. O que pode não querer dizer nada. O agressor era um jovem de 32 anos de Salerno, na Campânia. Já pediu desculpa e diz que não teve motivação racista, segundo o seu advogado.

O padre Vinicio Albanesi, que fundou uma associação para ajudar refugiados e deficientes, disse ao diário La Repubblica: “Vivemos numa região onde não há confiança, onde os negros são aceites apenas se ocuparam o mais humilde dos trabalhos. Estamos confrontados com uma cultura que despreza todos os que não são brancos e não são de cá. Onde, quando um padre negro diz missa, há pessoas que me vêm fazer queixa dele, porque pensam que a missa não é válida.”

Meloni, que pode muito bem vir a ser a próxima primeira-ministra do Governo de Roma e que foi decisiva para derrubar o governo de Mario Draghi, não esconde o que pensa: a Itália precisa de “repatriar os imigrantes para os respectivos países de origem e, depois, afundar os barcos que os resgatam no mar”. A coligação que negociou com a Liga de Matteo Salvini e a Força Itália de Berlusconi para concorrer às eleições, iniciou a campanha eleitoral com a difusão no Twitter de notícias sobre “crimes” e “violações” cometidos por “falsos refugiados” e “imigrantes ilegais”.  Os três líderes condenaram um acto de violência desnecessário.

Meloni não gosta de Putin e vê com bons olhos a NATO, mas não a União Europeia. Salvino e Berlusconi são dois “velhos amigos” do ditador russo que decidiu eliminar o maior número de ucranianos da face da terra e fazer desaparece o seu país. Em Budapeste, outro grande amigo de Putin, Viktor Orbán, acaba de anunciar, a propósito das leis de asilo e de imigração propostas pela Comissão, que os outros países europeus podem fazer o que quiserem, mas os húngaros não se vão “misturar” com outras raças. O nacionalismo étnico ganha cada vez mais adeptos na Europa.

As palavras expressam ideias

O que terão pensado aqueles que assistiram ao espancamento de Alika até à morte sem mexer um dedo? “Quatro minutos de horror”. Não sei. O Corriere de la Sera diz que não estava muita gente, que alguém gritou para que o agressor parasse e que outra pessoa preferiu filmar a agressão com o telemóvel.

Mas as palavras contam e as ideias são fundamentais. As democracias liberais têm de defender os seus valores com muito maior vigor, se querem defender-se, também, dos seus inimigos internos. A indiferença não é opção. A polarização política também não. É preciso combater os extremos que hoje tendem a dominar o debate político e as escolhas dos eleitores. E isso apenas é possível se os partidos moderados também pensarem todos os dias no significado das suas palavras e nas consequências do que dizem.

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