Análise – Teresa de Sousa

Teresa de Sousa

Sem “sangue, suor e lágrimas”, apenas mentiras e escândalos

1.Boris Johnson tinha apenas uma convicção na vida: entrar pela célebre porta do nº 10 de Downing Street. Como e para fazer o quê nunca foi, certamente, uma grande preocupação. Convicções, para além desta, não se lhe conhecem muitas. A não ser o sonho megalómano e impossível de ser o “Churchill do seculo XXI”. Apenas alguns exemplos. Foi pró-europeu e fanaticamente antieuropeu, na sua carreira de jornalista sediado em Bruxelas. O Telegragh demitiu-o por suspeitar que inventava citações. Foi contra a saída do Reino Unido da União Europeia, quando integrava o gabinete de David Cameron, no referendo de 2016, e ferozmente a favor do “Brexit” quando percebeu que seria o melhor cartão de embarque para a liderança dos Conservadores e uma aposta eleitoral ganhadora. Hoje já não seria. Prometeu um futuro radioso para a “Global Britain”, que nunca conseguiu concretizar, esbarrando com negociações difíceis e prolongadas com os principais parceiros económicos do seu país. Durante o seu relativamente curto mandato de primeiro-ministro, utilizou o “acordo de saída” negociado com a União Europeia como mera arma de política interna, ao sabor das conveniências do momento. Quando Belfast e Dublin estão disponíveis para respeitar o “protocolo irlandês” que ele próprio negociou com Bruxelas, transformou-o em mais uma arma de arremesso, para desviar as atenções dos enormes problemas que o seu país enfrenta, não tendo qualquer problema em pôr em causa um tratado internacional.

As peripécias que lhe retiraram qualquer credibilidade ou honorabilidade no exercício do cargo, desde as festas em Downing Street em plena pandemia, até ao último escândalo com o vice-líder da bancada conservadora, de comportamento pessoal altamente condenável, são apenas as manifestações anedóticas, ainda que significativas, da irresponsabilidade política com que, no geral, exerceu o cargo.

A rebeldia de metade do seu governo, que o levou à demissão, também não é apenas uma manifestação, ainda que tardia, de honorabilidade. As sondagens apontam para a queda acentuada do Partido Conservador nas preferências dos eleitores. Em 2019, Boris tinham sido uma máquina eleitoral extremamente eficaz, conseguindo uma maioria parlamentar esmagadora. Deixou de ser. A economia do país está pelas ruas da amargura, com a inflação a tocar os 9 por cento – a mais elevada entre as grandes economias ocidentais. O custo de vida afecta duramente uma percentagem cada vez maior de famílias. As consequências do “Brexit”, que foram pouco sentidas de início, começam a reflectir-se na balança externa e no crescimento económico. A contestação social aumenta, anunciando, como refere a imprensa britânica, um “Verão do Descontentamento”.  Dir-se-á que esta crise, que resulta da pandemia e, sobretudo, da guerra, é comum a todas economias europeias. É verdade, mas os indicadores britânicos são mais alarmantes, numa grande economia que, em tempo de crise, se comportava geralmente melhor do que as suas congéneres europeias.

As consequências do “Brexit”, que foram pouco sentidas de início, começam a reflectir-se na balança externa e no crescimento económico. A contestação social aumenta, anunciando, como refere a imprensa britânica, um “Verão do Descontentamento”. 

Finalmente, outra explicação talvez relevante para a precipitação do seu fim pode estar na tranquilidade que o regresso do Labour ao seu lugar de partido do centro-esquerda moderado dá hoje às elites económicas e à maioria dos eleitores.  Jeremy Corbyn era a alternância impossível.  Keir Starmer é a alternância normal.

2.Duas coisas Boris Johnson fez bem. A primeira foi o seu apoio à Ucrânia, político, diplomático e militar, que nunca padeceu de qualquer hesitação e que excedeu o das principais capitais europeias. Londres tornou-se uma referência mundial no apoio a Kiev, incluindo na informação credível sobre o campo de batalhas e a análise militar do conflito. A segunda foi ter apostado na chamada política de “levelling up”, que disse ser o centro do seu programa eleitoral, para reduzir os acentuados desequilíbrios de desenvolvimento e de riqueza entre as várias regiões do país. Com particular incidência económica para a chamada “Red Wall”, que inclui as zonas industriais no Norte da Inglaterra, onde as condições de vida são mais árduas e a economia menos apta para tirar proveito da globalização. Falta avaliar os resultados, para além da intenção, mas a má notícia é que a primeira região a recuperar para os níveis da pré-pandemia foi Londres.

2.Falta encontrar uma perspectiva mais ampla, europeia, para a figura de Boris e para o tipo de liderança que encarnou. Não será um erro ou uma precipitação classificá-la de populista, mesmo que seja preciso distingui-la de uma maioria de líderes populistas europeus. Johnson não é um conservador no sentido dos valores, não é um líder xenófobo, como são os líderes da direita radical europeia, embora tenha aproveitado o sentimento anti-imigrantes para ganhar eleições e vender o “Brexit”. Mais importante ainda, o exercício do seu mandato esteve sempre limitado pela solidez da democracia britânica, que tem no centro o poder do Parlamento, com um sistema eleitoral que elege deputados independentes da vontade dos líderes (ao contrário do sistema português, por exemplo) e apenas dependentes dos eleitores de cada círculo uninominal. E que assenta em instituições sólidas, agências de fiscalização autónomas, incluindo um aparelho de Estado competente e razoavelmente independente, um poder judicial eficaz e uma velha tradição de respeito pela lei e pelos costumes.

Não será um erro ou uma precipitação classificá-la de populista, mesmo que seja preciso distingui-la de uma maioria de líderes populistas europeus. Johnson não é um conservador no sentido dos valores, não é um líder xenófobo, como são os líderes da direita radical

3.Resta a questão de quem lhe vai suceder. Porque a sua saída de cena também significa o regresso do Partido Conservador às suas divisões clássicas entre tendências – mais ou menos conservadoras, mais ou menos neoliberais, mais ou menos amigas da cooperação com a União Europeia, mais ou menos adeptas do velho nacionalismo inglês.

Para a União Europeia, mergulhada numa tremenda crise, nada seria mais importante do que o regresso do Reino Unido ao seu papel de potência europeia fundamental. A guerra levou a uma evidente aproximação de posições na resposta à agressão de Putin à Ucrânia. Para o Reino Unido, a cooperação com o lado de cá da Mancha é certamente lado mais relevante do sonho de uma “Global Britain”.

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