O Futuro da Europa: o Impulso Nórdico

A aprovação, por 67% dos votos, da participação da Dinamarca na Defesa Europeia ajuda a colocar sob uma perspetiva europeísta, e não   dapenas  atlantista, o pedido de adesão da Suécia e da Finlândia à Nato. As alterações das posições dos países nórdicos sobre os imperativos da defesa colectiva, com a invasão da Ucrânia, mostram que é possível, em plena guerra, refletir sobre o futuro da União. Considero que tal é necessário e que não enfraquece a resistência ucraniana perante a criminosa agressão imperialista de que é vítima. Aliás, foi em 1940 que Churchill convocou os seus ministros para discutir o pós-guerra e foi nos maquis da resistência que se imaginou a integração europeia.

O pedido de adesão é uma decisão democrática e soberana da Finlândia e da Suécia. Para a Finlândia, trata-se de sacudir uma imposição da União Soviética que data do fim da Segunda Guerra Mundial. Já a neutralidade sueca (que data de 1808) não era fruto de uma limitação da sua soberania, mas, bem pelo contrário, uma opção singular, desde as guerras napoleónicas, no mundo marcado pelas guerras civis intereuropeias.

Para a Dinamarca, o fim da derrogação que fazia dela, ainda que membro da Nato, o único país da UE que não participava na Europa da Defesa, significa romper com um eurocepticismo semelhante ao britânico, que enfraquecia a sua voz na Europa e enfraquecia a União Europeia.

O que é significativo é a quase unanimidade que sustenta estas decisões.  Na Finlândia, só 8 deputados votaram contra o pedido de adesão à NATO e o partido da esquerda radical dividiu-se sobre a questão. Claramente, estes países não se revêem nas teorias geopolíticas das zonas de influência e espaços vitais que nos anos 30 do século XX, alimentaram o imperialismo nazi. É a convicção dos seus cidadãos de que a sua segurança está ameaçada que os leva a procurar na NATO as garantias de segurança que a União Europeia ainda não é capaz de dar.

Os dinamarqueses consideram que a política de defesa europeia já não é apenas um projeto eternamente adiado, mas um imperativo de realização provável. 

A visão nórdica da política internacional

Os países nórdicos da UE, onde incluo também a Irlanda, têm uma visão própria da política internacional. Foi na Finlândia que, quando era diretor do Instituto de Estudos de Segurança da UE, encontrei mais apoio para o diálogo com as correntes moderadas do islamismo político e maior oposição ao golpe militar no Egito. Aliás, os dois países pagam a hospitalidade com que recebem os refugiados curdos sírios com as ameaças de Erdogan de vetar a sua adesão à NATO.

Os países nórdicos são potências miliares, com um longo historial nas missões de paz das Nações Unidas, orientados por um conceito de segurança humana, que integra os direitos humanos e a igualdade de género enquanto uma componente essencial da ação militar.

Desvalorizar a visão finlandesa e sueca da segurança internacional e europeia, rotular os dois países como meros peões dos Estados Unidos, porque pretendem aderir à NATO, só pode ser fruto da arrogância da ignorância.  Apenas comparável aos que menosprezam o património cultural da Finlândia, país de grandes escritores, arquitetos e artistas, que tem os seus Lusíadas com o poema épico Kalevala.

A velha e a nova Europa: uma divisão que persiste

A Finlândia e a Suécia estão mais perto daquilo que Donald Rumsfeld classificou, durante a invasão do Iraque, de “velha Europa”, ou seja, da França e da Alemanha, dada a sua oposição à guerra de Bush no Iraque (o que não foi o caso da Dinamarca), e mais próximas do projeto de construção de  uma voz comum da União Europeia no quadro da Aliança Atlântica.

Tal significa construir uma capacidade de defesa coletiva europeia que não fique dependente das contingências de uma política americana cada vez mais imprevisível- o fantasma de Trump continua a pairar sobre os europeus.

Significa também construir uma visão  da ordem internacional e das condições em que é legitimo usar a força. No fundo, uma política de segurança e defesa coerente com valores da União Europeia:  a deslegitimação da política de potência e a afirmação de uma ordem multilateral eficaz, porque inclusiva.

Os países nórdicos guiam a sua ação internacional por esses valores, que são também os da Ata Final de Helsínquia, assinada pelo Ocidente e pela União Soviética em 1973, que afirmou a inviolabilidade das fronteiras e o respeito pelos direitos humanos e as liberdades fundamentais – tudo aquilo que Putin, que quer reconstruir o império colonial dos Czares, põe em causa.

Os países nórdicos podem ter um papel importante na construção de uma Europa aberta. Sabem que muitos russos lutam contra a guerra e a tirania, pela paz e liberdade, nomeadamente, no quadro do Grupo de Moscovo dos Acordos de Helsínquia. São nações onde, apesar da influência da extrema-direita não ser despicienda, vinga uma visão multiculturalista da Europa, ao contrário das correntes etnonacionalistas e iliberais dominantes na Hungria e na Polónia. A diferença entre estes dois países está em que Orbán, ao contrário dos líderes polacos do PIS, continua a ver em Putin um irmão ideológico. 

É necessário desde já pensar nas relações com a Rússia no pós-guerra, tendo consciência que enquanto Putin estiver no poder, continuará a ser uma ameaça à segurança europeia. Em paralelo, é preciso definir uma visão democrático e laica, em que muitos russos se possam rever, reafirmando que os russos são europeus, na grande tradição humanista e pacifista de Tolstoi, para quem “a sabedoria dispensa a violência”

É imperioso que vença a alternativa à visão etnonacionalista religiosa de Putin, o que implica que a soberania da Ucrânia e o direito à vida e à liberdade dos seus cidadãos sejam protegidos, como condição para que se possa construir um futuro de paz democrática na Europa do pós-guerra. É o que esperam da União Europeia os ucranianos e os democratas russos.

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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