Que “Le Chant des Partisans” triunfe!… por Leonardo Costa

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George Bernard Shaw

“O patriotismo é, fundamentalmente, a convicção de que um determinado país é o melhor do mundo porque a pessoa nasceu nele (…)”

George Bernard Shaw

Em França, Mácron e Le Pen passaram à segunda volta das eleições presidenciais, com, respetivamente, 27,84% e 23,15% dos votos na primeira volta.  À esquerda, Mélenchon surpreendeu com a votação expressiva que obteve na primera volta (21,95% dos votos). A segunda volta terá lugar no domingo, dia 24 de Abril. A distância entre os dois candidatos mais votados na primeira volta – Mácron e Le Pen – foi estreita. Mélenchon apela aos seus eleitores para não votarem Le Pen na segunda volta. Todavia, não chega não votar em Le Pen. É preciso votar em Mácron!… A abstenção à esquerda, a verificar-se, contribuiria para eleger Le Pen.

Não chega não votar em Le Pen. É preciso votar em Mácron!…

O patriotismo de Le Pen e da extrema-direita em geral é do tipo que Bernard Shaw refere. Mais do que nacionalista, é racista. Se a França cair nas mãos de Le Pen passa para o lado da Rússia de Putin, como já é o caso da Hungria de Viktor Orbán. Acontece que a França não é a Hungria. No momento, é a única potencial nuclear da União Europeia (UE). O Reino Unido, a outra potencial nuclear, já não está na UE. A fragilidade em que a UE se encontra é assim enorme.

Mais do que entre esquerda e direita, ou entre jacobinos e girondinos, culturalmente falando, o confronto nesta segunda volta das presidenciais francesas é entre De Gaulle e Pétain. É entre a resistência francesa e o colaboracionismo, entre a França Livre e a França de Vichy.

Culturalmente falando, o confronto na segunda volta das presidenciais francesas é entre De Gaulle e Pétain. (…). Entre a França Livre e a França de Vichy.

E se, culturalmente, o confronto é o acima, politicamente, Mácron, a partir do centro, tem de apelar a um eleitorado que vai da esquerda à direita do espectro político francês. Para o efeito, tem de ter uma ideia de bem comum apelativa que:

  1. Meta o neoliberalismo na gaveta. O neoliberalismo não é novo, não é liberal e é o grande responsável pela ascensão da extrema-direita em todo mundo, pela destruição das classes médias e pela crescente desigualdade, também nos países mais ricos da OCDE;
  2. Traga as preocupações e os problemas do cidadão comum para o centro do debate político;
  3. Ressuscite, em novos moldes, ideias redistributivas da social democracia e da democracia cristã europeias (que o neoliberalismo colocou de lado nos últimos 40 anos), como possiveis soluções para as referidas preocupações e problemas;
  4. Reforce o seu posicionamento como Presidente de todos os franceses e não de apenas alguns grupos étnicos e/ou de rendimento.

Politicamente, Mácron, a partir do centro, tem de apelar a um eleitorado que vai da esquerda à direita do espectro político francês. Para o efeito, tem de ter uma ideia de bem comum apelativa (…).

Aquando da crise das dívidas soberanas da área do euro, quando Sarkozy fingia que mandava na UE com Merkel (na altura nas mãos do Schäuble), a caricatura que transparecia era que o euro estava a ser gerido por uma espécie de aliança Nazi-Vichy. Mas o que está em causa, agora, não é uma mera caricatura. É muito mais grave. Mélenchon tem de fazer como fez o Partido Comunista Português nas eleições presidenciais de 1986, quando apoiou ativamente Mário Soares na segunda volta.(ver aqui) Mélenchon tem de apelar ao voto em Mácron!…

Note-se que, nas eleições presidenciais portuguesas de 1986, Freitas do Amaral não era propriamente Le Pen. Freitas do Amaral sempre foi um democrata. Um democrata cristão. Mais à direita, quando o país estava mais à esquerda, e mais à esquerda, quando o país estava mais à direita, mas um democrata. A presidência da Assembleia da Nações Unidas é capaz de ter sido um ponto de viragem do seu percurso cívico, no sentido de o tornar uma pessoa mais à esquerda!….

Mélenchon tem de apelar ao voto em Mácron!…

A seguir à eleição de Mácron, cá estaremos todos, para afirmar os projetos de cada um, num contexto democrático. Caso contrário, não sei bem onde alguns de nós podem ir parar, tendo em conta a experiência histórica. Creio que é possível a extensão da guerra que Putin, o tartufo russo, está a levar a cabo na Ucrânia a todo o continente europeu. Putin representa a extrema-direita russa. Le Pen, Salvini, Orbán, Abascal e Ventura são figuras de uma extrema-direita europeia cujas organizações têm recebido financiamento, direto e indireto, da Rússia de Putin. Esta última contribuiu também para a eleição de Trump em 2016. E Bolsanaro terá as suas razões para fazer parte do coro de admiradores do regime putinesco.

Le Pen, Salvini,  Orbán e Ventura são figuras de uma extrema-direita europeia cujas organizações têm recebido financiamento, direto e indireto, da Rússia de Putin.

A Europa e o Mundo esperam que a França Livre se alie para derrotar, uma vez mais, a França de Vichy. Que “Le Chant des Partisans” triunfe!… 

(ver e ouvir a versão de Yves Montand e a versão com fotos).

Leonardo Costa

Docente e investigador da Universidade Católica Portuguesa Porto

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