Eleições francesas: um conto de dois destinos

Depois de cinco anos de presidência, da pandemia e da guerra da Ucrânia, Macron surge ainda como favorito nas sondagens, com cerca de 27% das intenções de votos na primeira volta e 53% na segunda. A reeleição dos presidentes franceses, porém, desde a crise financeira de 2008, não é um dado adquirido. Os dois últimos presidentes, Sarkozy e Hollande, não foram reeleitos. 

Já não é a clivagem clássica – entre a esquerda democrática do Partido Socialista, e a direita democrática dos Republicanos, a última das formas que foi tomando o partido dos herdeiros de De Gaulle – que atravessa a sociedade francesa. Os dois partidos correm o risco de desparecer: as suas candidatas, Anne Hidalgo e Valérie Pécresse, têm apenas 2% e 9 % de intenções de voto, respetivamente. 

A guerra da Ucrânia veio confirmar a clivagem entre uma França que acredita no seu destino europeu e uma França nacionalista – já patente quando o não prevaleceu no Tratado Constitucional, proposta de inspiração francesa. À invasão da Ucrânia por Putin opuseram-se Macron, o ecologista Jadot e a socialista Anne Hidalgo. A reação dos nacionalistas, de vários quadrantes, foi bem diferente. Marine Le Pen é a candidata de Putin e Órban, que financiaram as suas campanhas. Zemmour afirmava querer ser “o Putin francês”. Jean-Luc Mélenchon teve sempre uma posição ambígua sobre Putin, justificando a intervenção russa na Síria e a anexação da Crimeia e assacando a responsabilidade aos Estados Unidos. Os três candidatos partilham a oposição a tudo o que é supranacional, em particular a União Europeia, e assumem posições anti-Nato. O que os diferencia, e não é pouco,  é que Mélenchon recusa o etnonacionalismo e o conservadorismo. Marine Le Pen, a candidata da extrema-direita, aparece com 21% das intenções de votos na primeira volta, Zemmour tem cerca de 11% e Mélenchon cerca de 15%. As sondagens dão a Le Pen  cerca de 47% na segunda volta.

Na primeira volta, as intenções de voto nos partidos que defendem a União Europeia, de acordo com a última grande sondagem, são de 44%. Le Pen surge com uma nova camuflagem, com uma linguagem menos radical, seguindo, desde a expulsão do pai, uma estratégia de normalização do partido. Na campanha fala mais de poder de compra, a principal preocupação dos franceses, do que da sua agenda identitária e iliberal. O essencial do seu programa, no entanto, não se alterou, defendendo a revisão da constituição por referendo, nomeadamente para que o Conselho Constitucional não possa “examinar uma lei aprovada por referendo”. Continua a defender a teoria racista dita da “grande substituição” e por isso quer inscrever na Constituição a proibição de políticas que possam alterar “a composição e a identidade da França”. Basta ouvir Zemmour para sabermos o que Le Pen esconde.

Zemmour, como Putin, representa o estado supremo do nacionalismo, que rompe o consenso civilizacional francês do pós-Vichy. Defende Pétain, profere declarações racistas, evoca uma guerra civil entre os franceses “verdadeiros” e os milhões de muçulmanos de França, assume a defesa da sociedade patriarcal e da virilidade, que, segundo ele, “vai a par com a violência”. Zemmour, que foi jornalista do Figaro, consegue penetrar no campo da direita democrática, desviando votos para a extrema-direita que podem ir parar a Le Pen na segunda volta.

O apoio ao nacionalismo e a popularidade dos líderes da extrema-direita são sinais de que em França se confrontam, de forma radical, os dois grandes destinos da Europa. Um tem como horizonte uma Europa federal capaz de pesar na ordem do mundo, outro uma Europa fragmentada pelo iliberalismo, o etnonacionalismo, as identidades tristes. 

A presidência de Macron atestou a convicção no destino Europeu da França, e essa é a razão primeira para a defesa da sua reeleição. As suas propostas mais ambiciosas, mais federais, encontraram a oposição da Alemanha, mas com a pandemia conseguiu impor a Angela Merkel a necessidade do Programa de Reconstrução e Resiliência. Com a Guerra da Ucrânia, assumiu a liderança da resposta europeia de enorme firmeza no apoio ao povo ucraniano e de abertura para negociações diplomáticas, ao mesmo tempo que impulsionava um salto qualitativo na Europa da Defesa. 

O destino nacionalista, que assombra a França, não é fruto do acaso. Na sua base está a convicção de largos setores das classes populares, nomeadamente dos operários, de que nem o Estado francês, nem a União Europeia, os protege da globalização neoliberal. Nos primeiros anos do seu mandato, Macron, eleito com uma agenda de pendor social-liberal, nada fez que os convencesse do contrário, continuando a política económica dos seus antecessores . A igualdade é um credo fundador da democracia francesa, pelo que há uma intolerância às desigualdades. Com a pandemia, Macron assumiu que o Estado tem um papel essencial na economia, mas junto de uma parte dos eleitores o mal já estava feito. Marine Le Pen, ao contrário de Trump e Bolsonaro, verbera contra o neoliberalismo, e por isso a sua candidatura encontra apoio significativo nas classes populares. 

Não tenhamos dúvidas de que nas eleições franceses se joga não só o destino democrático da França, mas também da União Europeia e da paz no continente. A vitória de Marine Le Pen será o triunfo do iliberalismo e Putin poderá, com a sua cumplicidade, chantagear a Europa.  Se o destino europeu da França se confirmar, então haverá esperança na derrota de Putin, na contenção da ameaça autocrática e no renascimento democrático. 

versão ligeiramente revista do artigo do Público

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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