O difícil diálogo com a China sobre a Ucrânia por José António Gusmão

José António Gusmão

A comunicação social insiste quase diariamente em clamar por uma posição ativa da China em relação à guerra na Ucrânia. Parece-me, no entanto, haver algum desconhecimento da realidade, o que não será bem uma surpresa. A China e a Rússia têm uma cooperação militar sólida e que em nada se alterou com a invasão da Ucrânia pela Rússia.

Emmanuel Macron , Xi Jinping e Olaf Scholz discutem a crise da Ucrânia através de ligação vídeo na terça-feira. Foto: Xinhua


A Rússia é o maior fornecedor de equipamento militar da China, a China fornece à Rússia tecnologia militar e IA, com algumas limitações naturalmente. Ambas participam com regularidade em exercícios militares no terreno e navais conjuntos e a China procura sempre incluir a Rússia em todas as suas iniciativas de política externa, nomeadamente na zona da Ásia, sendo a principal a Organização de Cooperação de Shanghai ou Pacto de Shanghai, um acordo de cooperação militar, troca de informações de segurança e económica e da qual fazem parte a China, a Rússia outros seis países da Ásia incluindo o Paquistão e a India, mas que entre observadores e parceiros de diálogo inclui em 2022 países do Médio Oriente, da Europa (Bielorrússia) e de quase toda a Ásia, muitos países da antiga União Soviética mas também o Irão. Mas ao mesmo tempo, nas relações com a Europa, China e Rússia têm visões e caminhos não só independentes como diferentes.

Para compreendermos a visão e a política de Xi não podemos olhar para o mapa do mundo com a Europa e o Atlântico no centro, mas tendo a China como centro do mundo.

E nesse mapa a Rússia ocupa um lugar que Xi entende ser já subalterno em relação ao novo império do meio, como aliás ficou patente na viagem de Putin a Beijing no início de Fevereiro. Vale a pena recordar o lugar que Xi reservou à Rússia na última parada militar realizada em Beijing, na qual desfilaram também forças militarizadas dos países “amigos”. Em termos coreográficos a direção chinesa pretendeu reeditar os desfiles na Praça Vermelha nos tempos de Stalin, só que agora com posições invertidas.

Ora, se Xi de facto pensa assim e sendo a Rússia a principal ameaça para a Europa no momento histórico em que estamos a enfrentar uma invasão e uma agressão à Ucrânia e, portanto, à Europa, parece-me de que de pouco valem apelos para que a China faça o que não fará. Não vai deixar de fazer negócios lucrativos com a Rússia, tanto de armas como do resto. Não vai deixar de aproveitar o momento para substituir em parte um vazio deixado pelo ocidente em proveito da oligarquia chinesa. E vai continuar a clamar que as sanções são contraproducentes e que não podem afetar os interesses da China, como foi dito pelo MNE da RPC.

Mas a China sabe que, por causa da resposta da Ucrânia e da reação da União Europeia, algumas coisas lhe estão a correr mal. Tem receio de que a sua posição na Europa saia enfraquecida, tanto do ponto de vista das relações diplomáticas como do ponto de vista dos investimentos e dos negócios das suas empresas com a mesma. E tem também alguns receios internos, que se virão acrescentar aos problemas já existentes. Não haverá manifestações contra a guerra da Ucrânia, pois o mais longe que se vai são algumas palavras na internet, que só quem conhece a língua chinesa e o gosto de utilizar provérbios poderá entender como alusões vagas à guerra na Ucrânia, que aliás na China também não é considerada uma guerra. O problema estará muito mais nas consequências que o disparar incontrolado dos preços das matérias primas e dos produtos alimentares de que a China é tão dependente possa causar, nomeadamente qualquer instabilidade social ou insatisfação. Há outros casos tanto na Ásia como noutros pontos do mundo em que a China não pretende ver os seus interesses beliscados por causa da aventura agressiva de Putin, sendo o caso do Ártico um pequeno exemplo entre muitos. Mas isso será naturalmente quase impossível neste e noutros casos.

Coloca-se a questão se seria possível avançar nesta altura para a ratificação do acordo de investimento entre a União Europeia e a China.

Desde os tempos da revolução cultural nos anos sessenta do século passado, quando a França, outros países europeus e finalmente a União Europeia estabeleceram relações e acordos com a R. P. da China que se considerava que a política externa da China em relação à Europa e, posteriormente, aos interesses dos investimentos europeus naquele país eram um exemplo de estabilidade e independentes das lutas pelo poder na China. As raízes históricas desta visão têm muito a ver com a enorme capacidade que Zhou Enlai teve, quando Mao Zedong ainda estava na sua caverna nas montanhas de Yennan, em criar um grupo e uma escola diplomática afastada das purgas de Yennan antes de 1949, tendo defendido essa independência mesmo com dificuldade durante a revolução cultural até à passagem do poder para Deng Xiaoping. É já com a subida ao poder de Xi, e de forma segura, que os “lobos guerreiros” tomam conta da diplomacia chinesa e a adaptam à nova ideologia de Xi com um discurso de grande animosidade em relação à União Europeia e preferindo o relacionamento bilateral com os seus membros, privilegiando  países como a Hungria de Viktor Orban e com países europeus que ainda não fazem parte da União Europeia.

As  sanções impostas pela China a parlamentares europeus e a organizações de direitos humanos e de entidades que se têm manifestado pelos direitos humanos em Xinjiang, tornaram, para já pelo menos, impossível a ratificação do acordo no parlamento europeu. Julgo que nenhum dos anteriores líderes da R.P. da China teria reagido desta forma, como aliás Deng Xiaoping, prudente como sempre, não reagiu às sanções na altura do massacre na Praça de Tienanmen, conseguindo que passado algum tempo as relações retomassem o caminho pragmático do “business as usual”.

De acordo com fontes muito próximas do Conselho Europeu, o acordo UE-China  não terá estado em cima da mesa na reunião entre Macron, Scholz e Xi. O que é claro é que depois dessa reunião a China se tem multiplicado nas duas últimas semanas em contactos ao mais alto nível ,com a participação direta de Xi em muitos casos, com presidentes, primeiros-ministros e ministros dos negócios estrangeiros de países da Ásia, África e América Latina. Dá-se enorme relevo à “justa e correta posição” dos países que na Assembleia Geral da ONU se abstiveram na votação de condenação da agressão russa à Ucrânia 1) baseada nos seguintes pontos:

– “Apoio às negociações de paz, que dizem apenas respeito às duas partes em conflito”, rejeitando qualquer participação de terceiros, incluída a UE.

– “Controlar a crise humanitária”, embora a China nunca refira baixas dos dois lados ou civis mortos, tendo realçado apenas a troca de prisioneiros.

– “Evitar um impacto negativo  na economia global e denunciar os danos que as sanções provocam, nomeadamente por trazerem mais dificuldades aos países menos desenvolvidos”.

Segundo esta narrativa Xi Jinping seria o grande dirigente mundial de um movimento que pretende dar “uma oportunidade à paz”, do qual fariam parte países do Médio Oriente que tradicionalmente estão ligados ao Ocidente. A China lideraria assim um amplo grupo de países que “querem a paz em vez da guerra, mas que não tomam partido”, em contraste com os países europeus que a imprensa chinesa acusa de serem dirigidos pelos EUA, e que querem “obrigar os outros a tomar partido neste confronto”.

A China nada fará que prejudique a Rússia ou o seu relacionamento, a não ser claro está, que os seus próprios interesses sejam colocados em causa pelo desenrolar da agressão na Ucrânia. Para já tenta não ser alvo de danos colaterais e ao mesmo tempo reforçar a sua posição nas zonas que considera de influência direta sua, ou seja a Ásia, África e a América Latina.

Claro que não ignora que do ponto de vista do desenvolvimento económico uma normalidade no relacionamento com a Europa e também os EUA são muito importantes, mas joga com o tempo pensando que as razões do lucro e das vantagens do investimento estrangeiro na China serão determinantes nas decisões da União Europeia, mesmo que isso lhe custe a não ratificação do acordo durante algum tempo.

Nesta altura teme um abrandamento do investimento estrangeiro. Já se notava aliás antes do início da invasão algum incómodo e alguns alertas, bem como algum desinvestimento. Isso não era ainda uma consequência da atual situação de guerra e de instabilidade, mas dos constrangimentos resultantes da política chinesa em relação à pandemia e sobretudo porque algumas grandes empresas começaram a dar sinais de alerta de que serem sócios do PCC agora já não era a mesma coisa do que há cinco ou dez anos atrás. São cada vez mais frequentes as interferências do estado chinês nas empresas de investimento estrangeiro na China, que algumas classificam de perseguição injusta e favorável às empresas estatais. Há mais censura nomeadamente nas campanhas de publicidade em que qualquer pequena “falha” é objeto de proibição, como aconteceu com a Mercedes que escolheu uma modelo chinesa com os olhos demasiado rasgados para o gosto dos censores de Xi e são mais frequentes as exigências de provas de lealdade e de pedidos públicos de desculpas e graves reprimendas, no caso das empresas não alinharem a nível mundial pela política de propaganda em relação ao caso do Xingjiang ou de Taiwan. Fechar os olhos à repressão, às perseguições, aos prisioneiros políticos que ninguém sabe onde estão, parece já não ser suficiente. Não surpreende que estejam a surgir esta semana tantos artigos nos meios de comunicação social tanto da China, como da Hong Kong normalizada à força, que defendem que nada é mais seguro e vantajoso do que o investimento estrangeiro na China.

A China não terá tarefa fácil. A opinião pública no Ocidente já não está a seu favor. Ao contrário do que acontecia nos tempos da guerra fria, depois da contenda ideológica entre a RPC e a URSS, a China perdeu o estatuto de grande país misterioso também ameaçado, que merecia a simpatia dos democratas europeus. Nota-se uma evidente frustração e um enorme desencanto entre os políticos de todos grupos parlamentares democráticos europeus. Há muita hesitação e até uma tendência para seguir a política dos EUA nesta matéria tanto mais que a China tem facilitado o esforço de guerra russo. Isso é demonstrado pelo facto de uma empresa de Shenzhen, a megacidade ao lado Hong Kong, ser a fornecedora em drones da Rússia para reconhecimento territorial. Ao pedido da Ucrânia para desativarem os referidos drones, foi alegada  a impossibilidade de faltar a compromissos comerciais assumidos com a Rússia, ou seja com o agressor.

Será esta a altura para dar alguma coisa a Xi Jinping de que ele realmente goste? Para tal são necessários políticos europeus de grande visão e envergadura. Na reunião entre Xi Jinping, Macron e Scholz, o primeiro pressionou os europeus para serem mais ativos e para que se envolvam mais no diálogo com a Rússia. Penso que Macron faria bem em pressionar o dirigente de uma superpotência mundial, a RPC, para que exerça a sua posição incontestável de “grande líder” para influenciar (pressionar se quiserem) Putin na via da moderação bélica, do diálogo, das negociações sérias e do cessar-fogo e do respeito das fronteiras e dos princípios que Xi Jinping não se cansa de apregoar quando fala de política externa. Acenando ao mesmo tempo com a necessidade e importância de manter boas relações diplomáticas, diálogo e sobretudo vantajosas trocas económicas entre a Europa e a China a um nível elevado em prol da estabilidade da economia mundial. Ou seja, tentando convencer Xi Jinping que tem uma missão histórica a executar em prol da paz mundial. Xi parece não querer seguir este caminho e aposta no confronto com os EUA, colocando a União Europeia como uma entidade que, independentemente de outras considerações, segue a política dos EUA.

E claro que Xi Jinping poderá sempre responder à boa maneira chinesa que quem colocou o sino no pescoço do tigre siberiano é que tem agora que o tirar de lá, mas todos os esforços para apoiar a resistência da Ucrânia e trazer a China para uma posição mais próxima dos esforços pela paz e da posição que lhe cabe como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, são sempre positivos.

1)  Países que se abstiveram no voto contra a agressão da Rússia à Ucrânia: África do Sul, Angola, Argélia, Arménia, Bangladesh, Bolívia, Burundi, China, Congo, Cuba, El Salvador, Guiné Equatorial, India, Irão, Iraque, Cazaquistão, Quirguistão, Laos, Madagáscar, Mali, Mongólia, Moçambique, Namíbia, Nicarágua, Paquistão, Senegal, Sri Lanka, Sudão, Sudão do Sul, Tajaquistão, Tanzania, Uganda, Vietnam, Zimbabwe

2)  Ausentes da votação por motivos não esclarecidos: Azerbeijão, Burkina Faso, Camarões, Essuatina (antiga Suazilândia), Etiópia, Guiné, Guiné-Bissau, Marrocos, Togo, Turquemenistão, Uzbequistão, Venezuela

3)  A Venezuela, a Papua Nova-Guiné, Vanuatu e Antígua e Barbados não votaram por estarem impedidos de votar por estarem na lista negra de devedores de António Guterres

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