Neutralidade Envergonhada

Dias antes da viagem do presidente Bolsonaro à Rússia (16 de fevereiro), o Palácio do Planalto vetou a emissão de um alerta para que os brasileiros que vivessem na Ucrânia deixassem o país e evitassem viajar para o Leste da Europa. Segundo as informações da colunista Malu Gaspar d’O Globo, no Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores do Brasil) a atitude foi vista como uma forma de evitar reações negativas russas nas vésperas da visita oficial de Bolsonaro a Moscovo. A visita, por seu turno, foi considerava como sendo de alto risco pela diplomacia brasileira devido ao impacto negativo que poderia ter noutros projetos do governo, nomeadamente a aproximação à NATO: um acordo de troca de informações sigilosas entre o Brasil e a NATO sobre temas de interesse mútuo. Segundo a BBC, Bolsonaro não é muito conhecido na Rússia e consideram que terá sérias dificuldades para se reeleger. Esta visita ficou ainda marcada pela polémica participação de Carlos Bolsonaro, filho do Presidente e vereador no Rio de Janeiro, cuja presença ainda não foi justificada.

A visita de Bolsonaro, num momento nas vésperas da invasão da Ucrânia, foi vista como uma manifestação de solidariedade com a política de guerra de Putin pela opinião pública ocidental e como tal condenada.

A invasão russa da Ucrânia começou no dia 24 de fevereiro. Bolsonaro só encontraria como justificação para a sua visita a garantia de fornecimento de fertilizantes – que o Brasil importa sobretudo da Rússia – no dia 27.

Apesar da guerra ter já causado centenas de mortes de civis ucranianos, originado uma das maiores crises humanitárias do século na Europa – a ONU deu conta de mais de 2,5 milhões de refugiados nos países vizinhos – e de a Rússia ter quebrado várias leis internacionais e de Direitos Humanos desde o começo da invasão, Bolsonaro afirmou que o povo Ucraniano ao eleger Zelensky “Confiou a um comediante o destino de uma nação” e que utilizar o termo “massacre” era “um exagero”. Num claro apoio a Putin, declarou que defendia a decisão da Rússia de reconhecer as regiões separatistas no leste da Ucrânia, Lugansk e de Donetsk, como independentes.

Na segunda-feira (28), Anatoliy Tkach, encarregado de negócios da embaixada ucraniana no Brasil, afirmou  “Acho que o Presidente do Brasil está mal informado” e “talvez seria interessante ele conversar com o Presidente ucraniano para ter uma visão mais objetiva.”  Bolsonaro respondeu que “não tem o que conversar” com Zelensky. Apesar das posições de Bolsonaro, o Brasil votou a favor da resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas que condenou a Rússia pela invasão. Essa posição da diplomacia brasileira foi vista, por vários observadores, como uma rutura do Ministério das Relações Exteriores do Brasil com a posição do Presidente.

Entretanto, Bolsonaro partilhou um vídeo no dia 1 de março onde diz lamentar a invasão russa à Ucrânia:

“A gente lamenta o que está ocorrendo na Ucrânia e lamenta a invasão. Assim como nós fizemos em setembro de 2021, por visto humanitário, nós permitimos que afegãos viessem ao Brasil. São cristãos, mulheres, crianças. Eu conversei com Carlos França [ministro das Relações Externas], ele disse que já ia tomar as providências [em relação ao visto humanitário aos cidadãos da Ucrânia]”.

A abertura do Brasil aos vistos humanitários é considerada por Tkach um gesto hospitaleiro, mas insuficiente.

Segundo o Lauro Jardim, colunista d’ O Globo, o presidente brasileiro enviou um texto através das mensagens do Whatsapp intitulado “A Única Verdade”, onde afirma “Os mesmos que desejam que o presidente brasileiro tome uma posição firme no conflito Rússia x Ucrânia, são aqueles que desejam tomar de nós a Amazônia”.

Numa visita ao México, o candidato à presidência do Brasil e antigo presidente, Lula da Silva, fez um apelo pela paz e pela resolução diplomática do conflito, “O mundo precisa de paz, de amor, de compreensão. As pessoas querem apenas viver dignamente e por isso fazemos o apelo: governantes baixem as armas, sentem na mesa de negociação e encontrem uma solução. Basta de Guerra. Queremos Paz, Liberdade e Respeito!”. 

Relembrou ainda do seu primeiro mandato presidencial em 2002 quando Bush atacou o Iraque, na qual o posicionamento do governo brasileiro só admitia o uso de força militar após o esgotamento das negociações diplomáticas e que caberia ao Conselho de Segurança da ONU adotar a solução adequada.

A guerra na Ucrânia é já considerada pela Folha de S.Paulo como um assunto incontornável na corrida presidencial no Brasil.

As posições do atual Presidente do Brasil e as ambiguidades da esquerda brasileira sobre a guerra da Ucrânia têm sido criticadas por vários analistas, como Pedro Dallari, Diretor do Instituto de Relações Internacionais da USP, como “uma atitude inaceitável tendo em consideração a escalada de violência cada vez maior no conflito.”

Autor: Cláudia Coelho

Licenciada em Estudos Europeus, Lusófonos e Relações Internacionais pela Universidade Lusófona do Porto e mestre em História, Relações Internacionais e Cooperação pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Colaboradora no Fórum Demos.

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