A Europa não pode viver sem o gás russo e outros mitos – Teresa de Sousa

Aparentemente, os líderes europeus decidiram guardar sanções “ainda mais duras” para uma nova fase da guerra. Entre elas, pode estar o embargo às importações de gás e petróleo russo. Mas qual fase? A destruição de Kiev?


Teresa de Sousa

1. Jorg Himmelreich, professor da ESCP Business School, em Berlim, publicou há dois dias no site da DW um artigo de opinião com um título claro como a água: “A Europa está a financiar a guerra de Putin na Ucrânia.” O autor desmonta, peça a peça, muitos dos argumentos que nos habituámos a ouvir para justificar o facto de a União Europeia não decretar o embargo às importações de gás e de petróleo russo. Os Estados Unidos já o fizeram. Toda a gente argumentou que são muito menos dependentes do que a Europa, que só importam da Rússia 10% das suas necessidades de petróleo, dando quase a entender que assim é fácil ser duro com Putin. Não é bem assim.

É verdade que os Estados Unidos são muito menos dependentes — são o primeiro produtor mundial, seguidos da Arábia Saudita. Joe Biden arrisca muito, porque a sua decisão acentua a escalada dos preços nas bombas. Não é uma medida popular. Enfrenta eleições dificílimas já em Novembro, nas quais arrisca a sua presidência no que diz respeito à agenda interna. Conta com um Partido Republicano que o odeia mais do que ao próprio Putin. Quando anunciou o embargo, o Presidente americano teve a decência de dizer que está plenamente consciente de que “os nossos aliados e parceiros podem não estar na posição de se juntarem a nós”. Estava com certeza a pensar na Alemanha, que importa da Rússia cerca de 55% do gás e 40% do petróleo que consome.

“O rendimento gerado pelo petróleo e pelo gás é o que mantém cheio o cofre de guerra de Putin”, diz o professor alemão. Representa 30 a 40% do orçamento russo. As companhias estatais arrecadam cerca de 165 mil milhões de euros por ano só na venda de petróleo. Com a subida do preço do barril, são mais de 500 milhões por dia. Quanto ao gás, que é mais barato, as exportações valeram 62 mil milhões de dólares em 2021. A guerra na Ucrânia está a custar a Putin à volta de mil milhões de dólares por dia. Seria fácil, diz o economista de Berlim, decretar um embargo à importação de petróleo, até porque o mercado está globalizado e o petróleo russo apenas representa 5% da procura mundial.

Uma lista de reputados economistas e investigadores da Academia das Ciências alemã considera que o embargo é possível – quer no petróleo quer no gás. Há meses que os EUA e outros fornecedores estão a exportar gás liquefeito para a Europa. “Se os alemães estivessem dispostos a reduzir os seus sistemas de aquecimento em dois graus, conseguiríamos uma redução significativa no consumo de gás sem morrermos de frio.” O ministro da Economia e do Clima, o “verde” Robert Habeck, já disse que não tem nenhuma reserva “ideológica” ao prolongamento da vida das três centrais nucleares que deviam ser fechadas agora. Fazer alguns sacrifícios por um povo que está a defender a nossa liberdade e de cuja vitória — ou derrota — dependerá o futuro da Europa não é pedir demasiado a ninguém.

2. A cimeira informal de Versalhes foi, sem dúvida, mais uma demonstração da solidariedade europeia para com a Ucrânia. Ninguém tem dúvidas sobre isso. Mas também não restaram grandes dúvidas de que os líderes europeus não foram tão longe quanto poderiam ou deveriam ter ido. Porque há divisões internas. Porque os seus líderes, alguns pelo menos, parecem não ter ainda compreendido que a União Europeia de antes da guerra acabou. Que a vida de paz e de prosperidade a que nos habituámos e para a qual a União foi criada ficou lá atrás. Vai-se afastando cada vez mais a cada cidade ucraniana destruída.

Fazer alguns sacrifícios por um povo que está a defender a nossa liberdade e de cuja vitória — ou derrota — dependerá o futuro da Europa, não é pedir demasiado a ninguém.

Aparentemente, os líderes europeus decidiram guardar sanções “ainda mais duras” para uma nova fase da guerra. Entre elas, pode estar o embargo às importações de gás e petróleo russo. Mas qual fase? A destruição de Kiev? Quantas mais cidades as tropas invasoras têm de destruir, quantos mais civis têm de morrer, quanto mais milhões de refugiados têm de passar as fronteiras? Estão à espera da derrota do exército russo? É uma possibilidade que já esteve muito mais longe. Mas, para isso, seria preciso fechar já a torneira que permite financiá-lo.

A cimeira decidiu duplicar o financiamento da compra de armamento para a resistência, duplicando os 500 milhões de euros já disponibilizados. A ironia está em que a Rússia recebe por dia cerca de 500 milhões de dólares da venda da sua energia aos europeus. Uma jornalista americana perguntou a Emmanuel Macron e a Ursula von der Leyen se tencionavam incluir o Banco Gazprom na lista de bancos russos que ficaram sem acesso ao SWIFT. A resposta fez pensar que também fica para mais tarde. Os ucranianos precisam de toda a nossa ajuda agora.

Convém não encurralar Putin? É um bom argumento. O Presidente francês tem desempenhado um papel fundamental — que alguns criticam injustamente —, ao manter um canal aberto com o Kremlin. Não é uma iniciativa individual, pelo contrário — é articulada com os seus parceiros europeus e norte-americanos. Até agora, esbarrou com a absoluta intransigência de Putin. Só lhe serve a capitulação da Ucrânia. Se o conseguir, vai aumentar as suas ameaças à União Europeia e à NATO. Disso já quase ninguém tem dúvidas. Até conseguir a rendição de Kiev, nenhuma negociação ou cedência fará calar as armas. A única alternativa está nas mãos dos ucranianos e da sua capacidade de resistência perante um exército cuja força era afinal um mito. Têm de ser ajudados de todas as formas possíveis pelas democracias em nome das quais estão a lutar e a morrer. Não é uma figura de retórica. Mas a Europa hesita. No embargo às importações ou num gesto político visionário, garantindo à Ucrânia uma via de acesso rápida à União Europeia.

3. Desiludam-se os que ainda pensam que esta guerra foi desencadeada por causa da NATO. Deparamo-nos todos os dias com uma barragem de argumentos, geralmente apresentados a coberto de grandes raciocínios estratégicos e geopolíticos, para justificar o direito da Rússia de se defender do cerco da Aliança Atlântica, que, imponderadamente, teria levado demasiado longe as suas fronteiras.

Não vou contar de novo toda a história do fim da Guerra Fria nem do processo de alargamento da NATO. Que foi feito lentamente, primeiro através das “Parcerias para a Paz” e, mais importante ainda, em permanente articulação com Moscovo. Em 1997, Boris Ieltsin foi a Paris assinar o “Acto Fundador” sobre “relações mútuas, cooperação e segurança”, que incluía a criação de um Conselho NATO-Rússia, que se manteve em funcionamento até recentemente e onde todas as questões de segurança foram debatidas.

Há, no entanto, outro argumento que passa despercebido neste turbilhão de debates e de informações. Antes da II Guerra, os pequenos países da Europa serviram quase sempre de “moeda de troca” ou de “peões”, como quiserem, nos jogos de poder entre impérios e entre grandes potências. Tu ficas com a Polónia, eu fico com a Hungria. Sem qualquer consideração pelos seus povos. Hitler desencadeou a II Guerra, não por se sentir ameaçado, mas porque tinha um projecto imperial de ocupação da Europa, assente na ideologia da superioridade da raça alemã. As democracias começaram por lhe conceder a Checoslováquia e fecharam os olhos à anexação da Áustria.

Depois da guerra, a paz na Europa ocidental foi construída a partir da negação da “balança de poderes” segundo a qual os grandes Estados tinham direitos sobre os pequenos. É este o princípio fundador da Comunidade Europeia — a igualdade entre os Estados. O lado oriental ficou sob domínio soviético. A Carta das Nações Unidas estabeleceu as novas regras da ordem internacional, consagrando o princípio da soberania das nações, da inviolabilidade das suas fronteiras e do respeito pelos direitos humanos.

Com o fim da Guerra Fria — que a URSS perdeu —, estes princípios estenderam-se à metade leste do continente. Cada país, dos Bálticos à Roménia, passando pela Polónia, escolheu livremente a que alianças queria pertencer.

Houve referendos e uma longa e difícil preparação interna para poderem entrar na União e na NATO. Queriam liberdade e prosperidade, mas também queriam segurança. Lutaram por isso. Sacrificaram-se por isso.

A Ucrânia teve um percurso mais instável, mas Putin sabe tão bem como nós que o assunto ficou arrumado na cimeira de Bucareste, em 2008. Talvez injustamente. Aqueles que esgrimem com o alargamento da NATO para justificar a invasão, o que estão a dizer é exactamente o mesmo que Putin: que é legítimo subordinar os pequenos países ao jogo de forças entre as grandes potências. Hoje, a Ucrânia, e ontem, os países de leste, deviam ter aceitado um estatuto de “soberania limitada” aos interesses da Rússia. Eis o que defendem os nossos doutos estrategos. O mundo viveria feliz. Desde que os povos fossem silenciados.

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