Porque é que Putin pode ser derrotado na Ucrânia – Álvaro Vasconcelos

FOTOGALERIA: manifestações anti-Putin multiplicam-se pela Europa, enquanto  na Rússia os manifestantes antiguerra são avisados de possíveis  “consequências negativas” - Expresso
Manifestantes contra a guerra em S.Petersburgo

No início da invasão, o sentimento generalizado era o de que a Ucrânia seria uma presa fácil. Porém, passados 6 dias, constatamos que não o é. Nasce a convicção de que Putin pode ser derrotado na Ucrânia.

O que é que foi subestimado e o que é que fomos descobrindo?

 Em parte, a surpresa deve-se ao esquecimento de uma lição da História do século XX: um exército invasor, por muito poderoso que seja, encontra sempre muita dificuldade na ocupação de um país. Foi o que aconteceu com os Estados Unidos no Iraque e a União Soviética no Afeganistão. A única invasão bem-sucedida de que me lembro nos pós II Guerra Mundial foi a invasão da minúscula Granada.

Talvez levados pela propaganda do Kremlin – sobre a falta de união entre a população ucraniana, que viveria numa situação de guerra civil –, muitos pensaram que se dividiria entre pró-russos e pró-ocidentais e que as dificuldades da democracia ucraniana a tornariam frágil perante um invasor. Ao contrário do que Putin afirmou, a Ucrânia não é uma invenção de Lenin e dos Bolcheviques, é uma Nação. A unidade dos ucranianos, a sua vontade de resistir ao invasor, tem sido um factor decisivo nestes primeiros dias de guerra.

O Presidente Zelensky, a sua coragem, mas também sentido político, os seus apelos ao povo russo, tem sido outro factor extremamente importante para dificultar o sucesso de Putin. Pensava que encontraria um líder frágil e temeroso como dizia a propaganda russa. Dizem-me que teve um enorme impacto o seu discurso no Conselho Europeu e ficará para a história a sua reposta à proposta de evacuação: “Preciso de munições, não de uma boleia”. Se as circunstâncias fazem os grandes homens, aqui está um exemplo.

Sou levado a crer que, como acontece muitas vezes com os autocratas, Putin acreditou na sua própria propaganda.

Por outro lado, para esta situação também contribui o facto de o exército russo estar a combater num país irmão. Muitos daqueles soldados, tantos deles jovens, talvez não vejam razão alguma para morrer. À semelhança do que aconteceu em Praga em 68, chegam relatos de soldados que dizem que não sabiam para onde iam. Entre combatentes que lutam por uma causa que consideram justa e os que vêm para impor a opressão existe uma diferença fundamental: a convicção de que o sacrífico da vida faz sentido.  

Se a resistência continuar, os soldados russos morrerão numa proporção inaceitável para a opinião pública russa, as suas mães irão protestar contra a guerra, como o fizeram no Afeganistão. As manifestações para a paz na Rússia já enfraquecem Putin e destabilizam os soldados.

Putin pode censurar a informação, mas esta é uma guerra na era das redes sociais e tudo se acaba por se saber. É também por isto que os ucranianos, a começar pelo seu Presidente, fazem apelos em russo – porque sabem que chegarão aos seus irmãos históricos do outro lado. A interconecção pelas redes sociais entre ucranianos e russos, mas também com cidadãos de todo o mundo, é um fator desta guerra, tal como são as redes de cooperação que hoje envolvem cidadãos de todo o mundo e ucranianos e russos em todos os domínios do saber e da actividade social, e que que despertam a consciência de todos para os crimes de Putin e para o futuro sombrio que ele representa. Não foi em vão que a Ucrânia e a Rússia foram sociedades abertas ao mundo nestes últimos 30 anos.

A resistência dos ucranianos, bem como a atitude do seu Presidente, estão a empolgar a opinião pública internacional e a levar a manifestações pela paz de centenas de milhares de pessoas. O azul e o amarelo enchem as redes sociais e muitos são os que exigem aos seus governos mais apoio à Ucrânia. Não é por acaso que amigos de Putin, como Viktor Orbán, hoje exigem medidas duras.   Perante estes apelos e perante a gravidade da situação, os governos estão a responder com pesadas sanções económicas, mas também com ajuda militar cada vez mais significativa. 

Putin enfrenta uma ameaça existencial à sobrevivência do seu regime, com um fracasso da sua invasão da Ucrânia. Uma Ucrânia que saia consolidada da guerra como nação democrática e com a integração na União Europeia assegurada, será um poderoso incentivo para os russos que aspiram ao mesmo destino.  Tem feito muito bem o governo ucraniano em não confundir os russos com Putin e o regime oligárquico que o apoia.

Putin declarou que colocava as armas nucleares em estado de alerta elevada. É a declaração mais bárbara desde que Hiroxima foi destruída. Os americanos foram derrotados no Vietnam e os soviéticos no Afeganistão sem recorrer à chantagem nuclear. Tenta com ela intimidar o Ocidente, mas também os ucranianos. Do arsenal nuclear russo fazem parte armas nucleares táticas que, utilizadas na Ucrânia, não criariam uma situação de destruição mútua assegurada. Tenho a convicção que os ucranianos não se vão deixar intimidar.  

 Se se sentir derrotado, Putin poderá aplicar na Ucrânia a estratégia com que arrasou Grozni e Alepo e bombardeará maciçamente as cidades, fazendo centenas de milhares de mortos. Todavia, esta escalada apresenta um enorme risco: aumentaria a oposição à guerra na Rússia e aumentaria a pressão no Ocidente para uma intervenção militar em defesa da Ucrânia. Intervenção que aconteceria se Putin usasse armas nucleares.  

Tudo isto me leva a crer que Putin pode ser derrotado na Ucrânia. Assim o povo ucraniano e o seu exército resistam mais uma semana, talvez menos. A eles ficaremos então, sem sombra de dúvida, a dever a paz na Europa.

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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