A Ucrânia tem lugar na União Europeia

Como não nos sentirmos hoje ucranianos? Como não sentir o horror que estão a sentir? Creio que para nós, portugueses, que nos cruzamos diariamente com muitos ucranianos que cá vivem, deve ser um sentimento quase imediato.
Os 44 milhões de ucranianos devem estar hoje no centro dos nossos pensamentos e no centro da ação da comunidade internacional.

Será que é preciso dizê-lo? Os ucranianos são seres humanos que aspiram, como nós, à liberdade, a uma vida boa e feliz, que têm um direito inato ao respeito pelos seus direitos humanos.
À semelhança de outros grandes criminosos da História, Putin, antes de transformar a vida dos ucranianos num inferno, começou por desumanizá-los. Disse que eles não tinham direito a sentirem-se como cidadãos de um país que amam, que eram uma criação artificial do bolchevismo, que, sem Lenine, nunca teriam existido.

A desumanização do outro, como tão bem escreveu Primo Levi, é a condição necessária para lhes negar o direito à vida. É um traço de todos os déspotas, dos que acreditam na superioridade da sua raça, cultura ou etnia. Os ucranianos que não falam russo, que não se reveem na Rússia eterna de Ivan ‘O Terrível’, no império colonial dos czares, na Rússia de antes da Revolução de Outubro, não têm direito a ter direitos. Podem sofrer e morrer, porque devem pagar por quererem ser cidadãos dum país que não devia existir.

Os cínicos de todos os quadrantes também se esquecem dos ucranianos: os que se dedicam a meros cálculos geopolíticos e que continuam a raciocinar como se ainda vivêssemos na Guerra-Fria, reduzindo os ucranianos a meros peões de um jogo global; os que vão atrás da propaganda do Kremlin e que acreditam que cada ucraniano é um fascista, porque na Ucrânia, como em todos os países europeus, existe uma força de extrema- direita minoritária (2,15% dos votos na últimas eleições); bem como os que, por antiamericanismo, são incapazes de ser solidários com os ucranianos – o que me leva a pensar que estiveram com os iraquianos apenas porque estes estavam a ser atacados pelo imperialismo americano.

Durante muitos anos deixou-se Putin agir impunemente. O momento-chave terá sido talvez o bombardeamento pela aviação russa das cidades sírias e as centenas de milhares de mortes que provocaram. Poderá também ter  sido a invasão da Geórgia em 2008 ou da Ucrânia em 2014. Violações sucessivas do direito internacional sem consequências sérias para Putin.

A questão que se coloca hoje é como ir em defesa dos ucranianos. Sabemos que seria um suicídio o envio de tropas para defender a Ucrânia, o que Putin relembrou a Macron e demonstrou ao mundo com os exercícios nucleares realizados antes da invasão, pondo em prática o princípio da dissuasão nuclear – contra uma intervenção militar ocidental em defesa da Ucrânia, a garantia de uma destruição mútua.

Nontira Kigle

Mesmo assim, há muitas formas de sermos solidários com a Ucrânia. A iniciativa mais eficaz seria a União Europeia declarar que a Ucrânia tem o destino europeu assegurado, oferecendo-lhe já a perspetiva de adesão.

Mesmo assim, há muitas formas de sermos solidários com a Ucrânia. A iniciativa mais eficaz seria a União Europeia declarar que a Ucrânia tem o destino europeu assegurado, oferecendo-lhe já a perspetiva de adesão. Se o fizer, dá aos ucranianos, que se encontram desesperados, uma perspetiva de um futuro melhor. Os líderes europeus podem de novo não ter a coragem de ir tão longe, mas não ficarão para a História. Não serão perdoados pelos ucranianos que, distantes das considerações estratégicas dos gabinetes, se sentirão mais uma vez sozinhos no seu combate.  É bom lembrar que foi a opção da Ucrânia pela Europa e a democracia em 2014  que  desencadeou a agressão russa O exemplo ucraniano era uma ameaça existencial para Putin .

A iniciativa mínima é assegurar a ajuda  humanitária e militar para que resistam. Concomitantemente, como propôs o economista francês Thomas Piketty, é preciso congelar os bens dos oligarcas que sustentam o esforço de guerra e a ditadura russa.
A II Guerra Mundial começou, é bom lembrá-lo, com a ocupação dos sudetas pela Alemanha nazi, região  da Checoslováquia, alegando que a sua população falava alemão. Hitler já tinha anexado  a Áustria e depois, como sabemos, invadiu a Polónia e desencadeou a II Guerra Mundial. Putin, até agora, seguiu o mesmo plano, e, tendo já anexado a Bielorrússia, prepara-se para ocupar a Ucrânia e impor um governo fantoche em Kiev.

Não parece provável que o Presidente russo prossiga a sua guerra de conquista em direção às Repúblicas Bálticas, que são as mais vulneráveis.  A NATO tem lembrado que as Repúblicas Bálticas são membros da Aliança e, como tal, estão protegidas pelo mesmo sistema de destruição mútua assegurada que nos deve proteger de uma nova guerra mundial. Porém, para que a dissuasão funcione, é preciso que os Estados Unidos e seus aliados deem continuidade ao reforço da sua presença militar nos países do Leste europeu, mais vulneráveis a um ataque russo.

Se Putin triunfar na Ucrânia é difícil prever o que fará a seguir. A independência da Geórgia, pelo menos, está em risco.

A Paz é ainda possível, desde que se consiga impedir que a guerra de Putin triunfe na Ucrânia. A afirmação do destino na União Europeia seria o estimulo  necessário aos ucranianos . É nosso dever fazê-lo.

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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