“Putin pretende desestabilizar e mudar o regime na Ucrânia” – Álvaro Vasconcelos

Entrevista a Álvaro Vasconcelos pela RFI (22 de Fevereiro de 2022)
[fonte]

Depois de semanas de infrutíferas tentativas de diálogo sobre a crise ucraniana, o Presidente russo reconheceu oficialmente ontem à noite a independência das províncias separatistas pró-russas do leste ucraniano de Donetsk e de Lugansk e ordenou que as tropas russas garantam a segurança desses territórios, Moscovo esclarecendo contudo hoje que as suas tropas só deveriam entrar nesses territórios em caso de “ameaça”.

Esta decisão representa uma violação flagrante das fronteiras da Ucrânia, denunciou a ONU, enquanto chovem promessas de retaliações, nomeadamente por parte dos Estados Unidos que anunciaram sanções para as entidades que fizerem negócios com as províncias separatistas. A Grã-Bretanha anunciou sanções contra três oligarcas considerados próximos do Kremlin e cinco bancos russos. No mesmo sentido, a União Europeia também pretende adoptar novas medidas contra Moscovo nomeadamente a nível financeiro. Por seu lado, a Alemanha que tem sido país europeu mais próximo economicamente da Rússia, já anunciou a sua intenção de suspender o arranque do funcionamento do gasoduto Nord Stream II que devia marcar o aumento do fornecimento de gás russo à Alemanha.

Para Álvaro Vasconcelos, antigo director do Instituto de Estudos de Segurança da União​ Europeia, a Rússia parece para já ser avessa a qualquer solução diplomática e o seu objectivo é desestabilizar a Ucrânia de modo a lá instalar um regime que lhe seja mais favorável.

RFI: A seu ver, o pretende Vladimir Putin com a decisão de reconhecer a independência das províncias separatistas pró-russas do leste ucraniano de Donetsk e de Lugansk ?

Álvaro Vasconcelos: Pretende desestabilizar a Ucrânia, mudar o regime na Ucrânia, pôr no poder na Ucrânia um líder político que seja pró-russo. Mas eu creio que esta estratégia do Putin, que aparentemente está a ser vitoriosa, ou seja que o Putin tem feito o que quer porque ninguém quer fazer uma guerra nuclear por causa da Ucrânia e muito menos por causa das repúblicas separatistas, nesse contexto, Putin tem um objectivo muito mais vasto que é a desestabilização da Ucrânia. Essa desestabilização pode-se dar criando o caos no interior da Ucrânia, pode-se dar provocando incidentes graves nas fronteiras entres essas repúblicas separatistas e o resto da Ucrânia para justificar uma nova intervenção militar russa um pouco mais no interior do território ucraniano. Agora, tudo depende evidentemente de como é que o governo ucraniano será capaz de responder a esta pressão e que nível de unidade a Ucrânia demonstrará. Possivelmente, isto une os ucranianos e não os divide. Possivelmente isto significa o fim da influência a longo prazo da Rússia na Ucrânia.

RFI: Acha que ainda há a possibilidade uma solução diplomática ou agora só será militar?

Álvaro Vasconcelos: Já se viu que a comunidade internacional, em particular a União Europeia, o Presidente francês, o Chanceler alemão, tudo fizeram para encontrar uma solução diplomática e fizeram várias propostas a Putin que iam no sentido de reconhecer que a Rússia tem preocupações de segurança com o alargamento da NATO à Ucrânia e que essas preocupações de segurança deviam ser tomadas em consideração. Mas Putin, pelos vistos, não quer uma solução diplomática porque o seu objectivo vai muito para além da questão da expansão da NATO à Ucrânia. O seu objectivo -volto a repetir- é pressionar a Ucrânia, desestabilizar a Ucrânia, provocar o caos, idealmente uma guerra civil no país e tentar pôr um homem da sua confiança no poder em Kiev.

RFI: Entre as sanções que têm estado a ser encaradas relativamente à Rússia, figura o fim desse famoso gasoduto, Nord Stream II, entre a Rússia e a Alemanha. Julga que este é um argumento que pode convencer Putin a recuar?

Álvaro Vasconcelos: Foi um argumento que foi utilizado nessas negociações. Se Putin tivesse aceitado o que lhe estava a ser proposto -penso que era uma limitada finlandização da Ucrânia, ou seja o país não aderia à NATO apesar de continuar a ter essa perspectiva a muito longo prazo, as repúblicas separatistas do Donbass ganhariam maior autonomia e, de certa forma, reconhecer-se-ia que a Crimeia foi integrada na Rússia – a troco disso, ele teria assegurado o Nord Stream II. Se ele tivesse aceitado estas propostas que foram levadas pelo Presidente francês, não haveria condições para a coligação alemã de pôr em causa o Nord Stream II. Creio que este projecto está verdadeiramente posto em causa, ainda não definitivamente porque há sempre uma vontade de negociar com Putin. Se ele se contentar com a ocupação de apenas uma pequena parte do território ucraniano, haverá um suspiro de alívio na Europa ocidental, haverá um suspiro de alívio na Alemanha e, possivelmente, considerarão que há condições políticas para manter as relações económicas e financeiras com a Rússia nomeadamente o início do funcionamento do Nord Stream II.

RFI: Quais são as cartas que Putin tem na manga? Biden disse há dias que ele tinha meios de isolar economicamente a Rússia. Que possíveis aliados e que possíveis cartas Putin tem a jogar nisto?

Álvaro Vasconcelos: De facto, o grande aliado de Putin – e aí acho que grande parte da responsabilidade é americana- é a China. (Washington) tornou a China o ‘grande inimigo’, mas não declarou que era o ‘inimigo estratégico’ e isso, evidentemente, aproximou a China da Rússia. A ideia americana era de que a Rússia era um anão e de que o grande adversário era a China. Ora já vimos que a capacidade desestabilizadora, o potencial do poderio militar russo aliado ao nacionalismo extremo de Putin é hoje muito mais grave para a segurança internacional do que a política chinesa que é um problema de longo prazo. É de facto esta coligação, essa aliança tácita entre a Rússia e a China que é o grande trunfo de Putin.

RFI: Paralelamente, acha plausível a possibilidade de haver um conflito generalizado que envolva nomeadamente a Europa, que os países ocidentais tenham que se envolver num conflito armado?

Álvaro Vasconcelos: Não me parece porque entramos no domínio da dissuasão nuclear. é a dissuasão nuclear que permite a Putin invadir impunemente o leste da Ucrânia, aliás antes de iniciar essa manobra, antes do reconhecimento e da intervenção militar no leste da Ucrânia, Putin fez exercícios nucleares para lembrar que era uma potência nuclear e qualquer ameaça à Rússia, qualquer tentativa de travar o avanço por meios militares levaria a uma guerra nuclear. Ele utilizou os instrumentos da dissuasão nuclear para impedir qualquer resposta militar ocidental à sua intervenção na Ucrânia. Aliás, na sua conferência de imprensa, o Presidente Macron relembrou que a Rússia é uma potência nuclear, é uma ameaça dissuasora. Mas a mesma ameaça dissuasora existe do lado ocidental. Os países que são membros da NATO estão protegidos pelo chapéu-de-chuva nuclear americano e, nesse sentido, não há possibilidade um conflito militar entre a Rússia e a Europa ocidental e os Estados Unidos, embora a gente saiba que a história demonstra que erros de cálculo acontecem sempre e a gente sabe como é que as guerras começam, mas nunca sabemos como acabam.

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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