Ucrânia: A Hora da Europa

A primeira vítima da guerra é a verdade. Sabemos isso desde há muito e a guerra de informação à volta do conflito na Ucrânia não é exceção.

A informação americana deixou de ser credível para muitos, sobretudo depois da guerra do Iraque e da desinformação sobre o programa nuclear e sobre as armas químicas, que bem sabiam, não existiam. Por arrasto, a informação dos governos europeus, mesmo os que se opuseram à guerra do Iraque, tornou-se também menos credível.  

Por outro lado, Putin, especialista em desinformação e mestre na utilização das redes sociais, conta com muitos que, por antiamericanismo, estão prontos a vê-lo como um arauto da paz e da ordem internacional, ou seja, a aceitar, sem questionar os seus objetivos e a sua narrativa. Reflexo desta realidade são afirmações como a de que os americanos querem envolver-nos numa guerra contra a Rússia. Afirmação absurda:  já que os americanos sabem que a Rússia não é o Iraque e que tal guerra levaria a um confronto termonuclear e à destruição da vida no hemisfério Norte. Putin sabe que a Nato nunca virá em defesa da Ucrânia, que não é membro da Aliança.

Uma das consequência da desinformação em torno desta crise é que o movimento pacifista na Europa ainda não acordou  para esta grave  ameaça à paz e não está nas ruas a  fazer  pressão sobre Putin, como no passado fez sobre Bush durante a guerra no Iraque. Afinal, é a paz na Europa que está em causa.

Comecemos pelo que sabemos da estratégia de Putin: concentração de forças militares significativas na fronteira e chantagem de guerra, acompanhada de exigências que implicam uma revisão da ordem europeia, nomeadamente o fim do alargamento da NATO para leste.

 Ora, Putin sabe que nunca terá uma garantia legal de não alargamento da Nato. O seu objectivo é forçar o Governo da Ucrânia, através da ameaça de guerra, a ceder em três questões: na aspiração a ser membro da Nato; no reconhecimento de que a Crimeia é parte da Rússia; e na aceitação da independência da região separatista de Donbass. O seu objetivo é ainda mais ambicioso: uma mudança de regime em Kiev, o que poderá acontecer se o Governo de Zelensky capitular às exigências do Kremelin. Neste caso, o Presidente ucraniano poderá ter de se demitir, o caos instalar-se na Ucrânia, criando a possibilidade de se vier a instalar um governo pró-russo. Aliás, a pressão militar já está a enfraquecer, seriamente, o governo ucraniano, dado o seu impacto económico e o isolamento aéreo do país.

As consequências da capitulação da Ucrânia poderiam ser devastadoras para a Europa de leste, fragilizando as suas democracias e a sua integração na Europa democrática. Putin também sabe isso. Se o conseguisse, reverteria as conquistas democráticas e de integração do pós-guerra fria.

A estratégia americana para contrariar os objetivos de Putin é menos clara. Procura dissuadir uma possível invasão militar, ameaçando a Rússia com pesadas sanções, acompanhadas por um reforço limitado da capacidade militar da Ucrânia. Mas Biden também declarou, desde o início da crise, que nenhum soldado americano morreria pela Ucrânia.

Os Estados Unidos aceitam reabrir as negociações sobre a redução de mísseis de médio alcance e sobre o controle de manobras militares no leste da Europa, mesmo que rejeitem pôr fim à chamada política de portas abertas da Nato ou ao estacionamento de forças militares nos países do antigo Pacto de Varsóvia, hoje membros da Aliança, como as Repúblicas Bálticas.

Mais difícil de perceber é a razão dos constantes alertas da Casa Branca de que a Rússia pode invadir a qualquer momento, reforçados pela retirada de pessoal diplomático. Tal estratégia facilita o objetivo russo de máxima pressão e de causar danos graves à economia da Ucrânia.

A Europa tem procurado desenvolver uma estratégia liderada pelo Presidente francês em coordenação com o chanceler alemão. A estratégia europeia acompanha a americana na denúncia da pressão militar russa e na ameaça que representa para a paz, mas tem uma nuance importante, e nisso se diferencia da americana: aceita o redesenhar da ordem europeia, o que pode incluir garantias de que a Nato não se alargará mais para Leste.  Os europeus procuram também uma saída pacífica para o conflito no Donbass, com base nos acordos de Minsk, assinados pelos ucranianos no final da intervenção militar russa de 2014. Ao fazê-lo, a Europa está a dizer aos ucranianos que Donbass será de facto uma região quase independente – como a Abkasia, na Geórgia, depois da intervenção russa de 2008 – e que não há solução militar para garantir a unidade da Ucrânia, mas apenas uma solução política, que implica que o poder de atracão da Ucrânia seja maior do que o da Rússia. Desse poder de atracão faz parte a perspetiva de integração económica na União Europeia e, a prazo, a integração plena.

Se a Ucrânia se mantiver unida face  à pressão militar pode ser que a diplomacia europeia seja bem sucedida. Putin poderá retirar as tropas dizendo que as suas preocupações sobre a ordem europeia foram atendidas e tendo conseguido que o oleoduto Nord Stream II já não poderá ser posto em causa.

A unidade da Ucrânia na democracia e na prosperidade e a convivência pacífica entre as suas componentes ocidental e russófila, deve ser vista, não só como a melhor solução para a crise, mas como um factor essencial do projecto de unidade democrática da Europa toda – do Atlântico aos Urais.

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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