O Nacionalismo é a Guerra

 

Em A guerra de Troia não terá lugar, Cassandra pressagia a Andrómaca que a guerra, com a sua barbárie, vai regressar. Em 1935, dois anos depois de Hitler se ter proclamado Führer, Jean Giraudoux escreveu a peça como um manifesto pacifista. Foi também em 1935 que Mussolini, perante a impotência da Sociedade das Nações e das democracias, invadiu a Etiópia. É a Sociedade das Nações que veio  à memória quando António Guterres afirmou que não existe nenhum envolvimento das Nações Unidas na procura de uma solução para a crise da Ucrânia.

François Mitterrand, no seu discurso de despedida, no Parlamento Europeu, afirmou: “o nacionalismo é a guerra”. Como não pensar neste nefasto presságio quando vemos as imagens de milhares de tanques nas fronteiras da Rússia com a Ucrânia? Quando o discurso nacionalista justifica de novo a guerra e enaltece as suas virtudes? Quando vemos em países democráticos, incluindo em Portugal, políticos nacionalistas a apregoarem de novo a superioridade da ‘raça branca’?

Para os europeus ocidentais, a ideia de uma guerra em solo europeu é do domínio do impensável. Muitos entregam a Biden o destino da paz na Europa – tão levianamente que na campanha eleitoral portuguesa a crise da Ucrânia não merece sequer uma nota de rodapé.

Muitos entregam a Biden o destino da paz na Europa – tão levianamente que na campanha eleitoral portuguesa a crise da Ucrânia não merece sequer uma nota de rodapé.

Com o fim da União Soviética, a utopia da paz democrática de Kant pareceu realizável na Europa do Atlântico aos Urais. O espaço de paz na democracia e prosperidade foi-se alargando para Leste. Em 2007, 11 países que tinham feito parte do império soviético já faziam parte da União Europeia. O Ocidente, vencedor da Guerra Fria, não era portador só de ideais democráticos, mas também de um modelo económico ultraliberal que foi não só socialmente devastador na Rússia, como propulsionou a alternativa nacionalista de uma oligarquia sedenta de poder e de riqueza.O regresso do nacionalismo e da autocracia à Rússia adiou por muitos anos o projeto da Casa Comum de Gorbachev. 

Afirmou-se, na Rússia, um contraprojeto, em linha com o legado trágico da História europeia. Um projeto que elogia o nacionalismo, o iliberalismo político e as guerra, ao serviço de um desígnio de reconstrução imperial. Putin consolidou o poder com a guerra de destruição na Tchetchénia; em 2008 invadiu a Geórgia, e em 2014 anexou a Crimeia e apoiou militarmente o separatismo no leste da Ucrânia, em Donbass. A guerra da Ucrânia já fez 13 000 mortos.. Na Ucrânia, as marchas da extrema-direita, fascista, sem representação parlamentar, alimentaram a narrativa de Putin da necessidade de intervir para proteger a minoria russa supostamente ameaçada. 

Afirmou-se, na Rússia, um contraprojeto, em linha com o legado trágico da europeia. Um projeto que elogia o nacionalismo, o iliberalismo político e as guerra, ao serviço de um desígnio de reconstrução imperia

A Europa Ocidental, democrática e antinacionalista, passou a ser vista como uma ameaça. O alargamento da União Europeia para as fronteiras da Rússia acarreta o perigo do exemplo, o perigo de contágio com poder para abalar autocracias. Em 2020 as manifestações democráticas na Bielorrússia contra a grande farsa eleitoral mostraram a Putin que o contágio estava longe de ter desaparecido. O que Putin teme, mais do que tudo, é o sucesso da democracia na Ucrânia, nação ligada à Rússia, por profundos laços históricos, culturais e humanos. E para impedir tal sucesso pretende ter direito de ingerência na sua política e para isso ameaça em alargar a guerra a todo o território da Ucrânia..  

Nada disso, porém, significa que as perceções de segurança da Rússia não devam ser tomadas em consideração na procura de uma solução pacífica para o conflito da Ucrânia.

No lugar do projeto da unidade democrática da Europa, tendo a UE como centro, nada foi construído. A Rússia não tinha lugar na União, os acordos com a NATO não lhe davam a voz que o seu poder militar exigia. As organizações pan-europeias de que a Rússia faz parte – Conselho da Europa e OSCE –, não têm capacidade para estruturar a ordem europeia. Em paralelo, o alargamento da NATO que tem acompanhado a democratização a Leste alimenta o nacionalismo e o militarismo na grande nação russa, particularmente quando se abriu incautamente a possibilidade da entrada da Ucrânia na Aliança Atlântica.

A brutal pressão militar da Rússia na fronteira da Ucrânia, a continuação da guerra na região separatista do Donbass e a hipótese de uma intervenção militar russa devem ser levadas a sério. Uma nova violação das fronteiras da Ucrânia pode desencadear uma escalada de consequências imprevisíveis. 

Trata-se hoje de tentar construir a paz possível para que Cassandra não tenha razão, para que o bom senso, e o sentido de humanidade prevaleçam e a guerra da Ucrânia não tenha lugar- É preciso pensar a hipótese de guerra para garantir a Paz.

A União Europeia, marginalizada das negociações pela Rússia, deve retomar o lugar que é o seu, pesando nas decisões da Nato e combinando uma iniciativa diplomática no quadro das Nações Unidas e propor uma nova ordem europeia, como Macron anunciou no Parlamento Europeu. Ao mesmo tempo que precisa de tornar claro a Putin o preço a pagar por uma intervenção militar, para o que a Alemanha tem de declarar que se a fronteira da Ucrânia for violada, o gasoduto Nord Stream II não entrará em funcionamento.

A União Europeia, marginalizada das negociações pela Rússia, deve retomar o lugar que é o seu, pesando nas decisões da Nato e combinando uma iniciativa diplomática no quadro das Nações Unidas e propor uma nova ordem europeia, como Macron anunciou no Parlamento Europeu.

A União Europeia deve integrar medidas de dissuasão da guerra com uma perspetiva de longo prazo para o renascimento do projeto da casa comum europeia de Gorbatchov. A integração progressiva da Ucrânia na Europa democrática é a melhor garantia para a paz, o que, para já, implica o apoio ao desenvolvimento económico da Ucrânia acompanhado da exigência de aprofundamento do Estado de direito e de garantias de proteção dos direitos da minoria russa (17% da população). 

 O nacionalismo autocrático é, como sabemos, uma ameaça à democracia em muitos países membros da Nato – incluindo nos Estados Unidos. Ao se oporem às ambições imperiais de Putin, europeus e norte americanos estão também a defender as suas democracias. Putin, como Trump, apoia a extrema-direita europeia como o mostra o financiamento da campanha de Le Pen. Tudo o que sabemos da política de  Putin faz com que seja  incompreensível que  políticos que se dizem  de esquerda justifiquem  a ingerência russa na Ucrânia. Quem foi contra a guerra do Iraque tem, necessariamente, de ser contra a da Ucrânia

Dizer não ao nacionalismo e à extrema-direita, também em Portugal, é lutar pela paz.

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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