2021: sinais de futuros alternativos num mundo interconectado

 

O exercício que procurei fazer foi o de olhar para os eventos de 2021 de forma a tentar identificar sinais de futuros alternativos. Que vivíamos num mundo interconectado tínhamos tido a confirmação trágica em 2020 com a pandemia ,que continuou a dominar o mundo em 2021. A questão importante era em 2021 tentar compreender que sinais tínhamos de outras tendências que moldam o nosso futuro.

Será que tivemos sinais de que o refluxo democrático chegou ao fim? As mudanças que estamos a assistir na ordem internacional vão no sentido de um reforço do multilateralismo capaz de enfrentar os grandes desafios que se colocam à humanidade como as pandemias e a urgência climática? A União Europeia será capaz de superar a crise existencial com que se confronta desde a crise financeira de 2008 e assumir uma posição compatível com os seus valores na questão migratória derrotando o nacional-populismo ?

Democracia: sinais contraditórios  

As tendências mostram que os sinais são contraditórios no que diz respeito ao estado da democracia no Mundo e à União Europeia e que as perspetivas de um multilateralismo eficaz, porque inclusivo, parecem cada vez mais improváveis.

A 20 de Janeiro foi a tomada de posse de Biden e com ela veio um vento de esperança de que o refluxo democrático começava a ser revertido. 

Os sinais sobre o estado da democracia no Mundo foram sendo contraditórios durante todo o ano. Nos Estados Unidos, logo a 6 de Janeiro, o assalto ao Capitólio mostrou até onde estão dispostos a ir Trump e os seus partidários, e, nos meses seguintes, os Republicanos aprovaram nos Estados em que têm maioria, legislação  para dificultar o voto das minorias, nomeadamente para diminuir o peso do voto por  correspondência, impedir ou dificultar  as urnas fora do dia eleitoral, ao mesmo tempo que aprovavam legislação para colocar homens da sua  confiança na fiscalização eleitoral. A Cimeira para a Democracia no final do ano refletiu as preocupações da administração Biden com o estado da democracia americana.

A 25 de Julho, um Golpe de Estado na Tunísia levado a cabo pelo Presidente Saïed, reverteu as conquistas democráticas das revoluções árabes de 2011 no único país onde subsistiam. O mais perturbador é que este acontecimento não mereceu, até agora, resposta condigna da União Europeia, nem dos Estados Unidos. 

A 19 de Dezembro,eleição de Gabriel Boiric, no Chile, um sinal de uma nova vaga democrática na América Latina. Gabriel Borić derrotou um candidato da extrema-direita nas eleições presidenciais. No Brasil, a vitória de Lula – como parecem indicar as sondagens – poderá confirmar esta tendência.

União Europeia: resposta solidária à pandemia, mas recusa da hospitalidade

A 19 de Fevereiro de 2021 a entrada em vigor do Programa de Recuperação e Resiliência disponibiliza 723,8 mil milhões de euros, 338,8 mil milhões de euros dos quais sob a forma de subvenções, para enfrentar as consequências sociais da pandemia. A União Europeia tirou as lições da sua resposta à crise financeira de 2008, que pôs em causa o futuro da União.

A mesma tendência para uma resposta solidária se constatou na compra conjunta de vacinas e na sua distribuição equitativa pelos Estados membros.O sucesso da vacinação da população portuguesa é um exemplo da solidariedade europeia.

O resultado das eleições na Alemanha e a formação de um governo de coligação pelo SPD, que facilitaram a aproximação franco alemã, poderão ser um garante de que a União Europeia poderá dar passos no sentido da recuperação da confiança dos cidadãos.

A União Europeia continuou, no entanto, em 2021 a ser minada pela extrema -direita anti-imigrantes e a ser incapaz de assumir uma política compatível com os seus valores fundadores.

A  25 de NovembroMediterrâneo, 75 migrantes perdem a vida na costa da Líbia, data simbólica da recusa de hospitalidade que gangrena as sociedades europeias. A OIM anuncia que desde 2014 mais de 24 mil pessoas morreram a atravessar o Mediterrâneo, na tentativa de fugir à fome e à guerra.

Em 2021 a recusa da Humanidade dos emigrantes e refugiados, resposta cobarde à demagogia anti-imigrantes do nacional-populismo, foi clara em todas as fronteiras dos Estados membros da União Europeia, da Grécia à Polónia, do Canal da Mancha a Ceuta, uma traição profunda dos valores fundadores da União. 

Ordem  mundial: a emergência da bipolaridade

A 18 de Março, teve lugar um encontro no Alaska das delegações americana e chinesa, com abertura pelo secretário de Estado Blinken, denunciando perante os jornalistas os crimes contra os Direitos Humanos cometidos pela China e com o Chefe da delegação chinesa a responder nos mesmos termos, também em público. 

A data marca talvez a inevitabilidade de uma nova bipolaridade, na medida que Biden assumiu a política anti-chinesa de Trump, nova bipolaridade que enfraquece o multilateralismo e limita as condições para uma resposta eficaz, que teria de ser conjunta, aos grandes problemas da Humanidade. Exemplo desta consequência evidenciaram-se na Cop 26 em Glasgow e evidenciam-se com a inexistência de uma campanha vacinal mundial, por causa das patentes e da falta de competência da OMS para universalizar o combate à Pandemia.

As fraquezas da ordem multilateral ficaram também claras nas condições da retirada americana do Afeganistão e sobretudo na concentração de tropas russas na fronteira da Ucrânia, uma chantagem de ameaça de invasão a que já não assistíamos na Europa desde a II Guerra Mundial.  

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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