[Ciclo de Debates CD-IEEI] Segurança Humana: garantir a Paz e proteger os Direitos Humanos | 9 DEZ

09 dezembro [quinta-feira] * 18h30 * Centro Nacional de Cultura

Segurança Humana: garantir a Paz e proteger os Direitos Humanos

A paz internacional é a razão primeira que levou, no pós II Guerra Mundial, à fundação das Nações Unidas. As Nações Unidas têm como objetivo garantir que não voltaremos aos tempos das guerras interestatais, mas também proteger os cidadãos de graves violações dos direitos humanos, incluindo de genocídios como os do Ruanda, de Timor ou da Bósnia. Portugal tem contribuído para as missões de paz das Nações Unidas, longe das suas fronteiras, e esta deverá continuar a ser uma das suas prioridades estratégicas no futuro. O conceito de segurança humana, definido como a proteção dos indivíduos, dos seus direitos e das suas comunidades aparece como a orientação para a resolução dos conflitos.

Que lições tirar dos fracassos na Síria, no Afeganistão e da situação no Norte de Moçambique? Que cenários são os mais prováveis para o envolvimento de Portugal na resolução de conflitos? Como deve a estratégia portuguesa integrar o conceito de segurança humana e a norma da responsabilidade de proteger?

ORADORES CONVIDADOS

Ana Santos Pinto [Professora Universitária; Secretária de Estado da Defesa Nacional (2018-2019); Antiga Investigadora do IEEI]

Bruno Cardoso Reis [Professor Universitário; Subdiretor do Centro de Estudos Internacionais (ISCTE-IUL); Antigo Investigador do IEEI]

Fernando Jorge Cardoso [Professor Universitário; Coordenador de Estudos do IMVF; Antigo Investigador do IEEI]

MODERAÇÃO
Ana Gomes [Jurista e Política, Embaixadora de Portugal em Jacarta de 1999 a 2003]

Entrada livre, condicionada à lotação da sala.

CENTRO NACIONAL DE CULTURA | GALERIA FERNANDO PESSOA
Largo do Picadeiro, n.º 10, 1º . 1200-445 Lisboa
(porta do lado esquerdo da esplanada do Café No Chiado)
Mapa de localização | GPS: 38.709292,-9.14199

Duas Pandemias?

José Eduardo Agualusa e Mia Couto pela primeira vez juntos no mesmo livro –  Observador

No dia em que a Europa interditou os voos de e para Maputo, Moçambique tinha registado 5 novos casos de infeção, zero internamentos e zero mortes por COVID 19. Nos restantes países da África Austral a situação era semelhante. Em contrapartida, a maioria dos países europeus enfrentava uma dramática onda de novas infeções. 

Cientistas sul-africanos foram capazes de detetar e sequenciar uma nova variante do SARS Cov 2. No mesmo instante, divulgaram de forma transparente a sua descoberta. Ao invés de um aplauso, o país foi castigado. Junto com a África do Sul, os países vizinhos foram igualmente penalizados. Em vez de se oferecer para trabalhar juntos com os africanos, os governos europeus viraram costas e fecharam-se sobre os seus próprios assuntos.

Não se fecham fronteiras, fecham-se pessoas. Fecham-se economias, sociedades, caminhos para o progresso. A penalização que agora somos sujeitos vai agravar o terrível empobrecimento que os cidadãos destes países estão sendo sujeitos devido ao isolamento imposto pela pandemia.

Hospitalizações por Covid-19 atingem recorde em Moçambique | HealthNews

Mais uma vez, a ciência ficou refém da política. Uma vez mais, o medo toldou a razão.  Uma vez mais, o egoísmo prevaleceu. A falta de solidariedade já estava presente (e aceite com naturalidade) na chocante desigualdade na distribuição das vacinas. Enquanto, a Europa discute a quarta e quinta dose, a grande maioria dos africanos não beneficiou de uma simples dose. Países africanos, como o Botswana, que pagaram pelas vacinas verificaram, com espanto, que essas vacinas foram desviadas para as nações mais ricas.

O continente europeu que se proclama o berço da ciência esqueceu-se dos mais básicos princípios científicos. Sem se ter prova da origem geográfica desta variante e sem nenhuma prova da sua verdadeira gravidade, os governos europeus impuseram restrições imediatas na circulação de pessoas. Os governos fizeram o mais fácil e o menos eficaz: ergueram muros para criar uma falsa ilusão de proteção. Era previsível que novas variantes surgissem dentro e fora dos muros erguidos pela Europa. Só que não há dentro nem fora. Os vírus sofrem mutações sem distinção geográfica. Pode haver dois sentimentos de justiça. Mas não há duas pandemias.

Os países africanos foram uma vez mais discriminados. As implicações económicas e sociais destas recentes medidas são fáceis de imaginar. Mas a África Austral está longe, demasiado longe. Já não se trata apenas de falta de solidariedade. Trata-se de agir contra a ciência e contra a humanidade.

Mia Couto
José Eduardo Agualusa

Zemmour: o revanchismo do colonizador 

O discurso da extrema-direita tem sido filiado na retórica fascista, mas outra dimensão, menos explorada, é a do discurso civilizacional e racial do colonialismo. 

No discurso nacionalista identitário em França, como em Portugal, está presente o mesmo ressentimento contra os que conquistaram a liberdade em guerras que a potência colonial perdeu, o mesmo pulsar revanchista e a mesma recusa em reconhecer os crimes coloniais. Este ressentimento é explorado por líderes populistas, atribuindo todos os males dos seus países aos imigrantes – um discurso demagógico cujo eco se amplifica  em tempos de crise.

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Ciclo de Debates CD-IEEI | A Autonomia Europeia: Uma Prioridade para Portugal?

O Conceito Estratégico da Defesa Nacional, sob o tema “Que estratégia para Portugal?”.

A autonomia estratégica da União Europeia: uma prioridade para Portugal?

25 de novembro (quinta-feira) | 18h30 | Centro Nacional de Cultura

A Europa da Defesa foi pensada, a partir dos anos 90, como um projeto complementar da NATO e com o objetivo de contribuir para a paz internacional, no quadro das Nações Unidas, numa altura em que as tensões Leste-Oeste tinham perdido parte da sua acuidade e a ideia de uma casa comum europeia parecia realizável.

Os passos que foram dados assentavam na cooperação entre a França e o Reino Unido que se alargava a todos os Estados-membros. Hoje tais premissas estão em causa. A garantia americana no seio da NATO está enfraquecida, a Rússia de parceira passou a ser vista como um risco para a segurança e o Reino Unido já não é membro da União Europeia. Tudo isto numa altura em que se multiplicam os conflitos e as tensões nas fronteiras da União. É neste contexto que ganha corpo o debate sobre a autonomia estratégica e capacidade da União, na resposta, sozinha se necessário, aos desafios à sua segurança.

Qual deve ser a visão portuguesa da defesa europeia? Que lugar para o Reino Unido? Que relações com a Rússia? São algumas das questões que se levantam.

Oradores
Licínia Simão [Professora Universitária; Investigadora no CES; Assessora do Ministro da Defesa; Antiga Investigadora do IEEI]

Isabel Valente [Professora Universitária; Investigadora CEIS20- Universidade de Coimbra; Antiga Investigadora do IEEI]

Moderador
Álvaro Vasconcelos [antigo Diretor do IEEI]

O presente debate é o segundo no Ciclo de Debates CD-IEEI: Que Estratégia para Portugal?

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O voto “de jeito nenhum”.

Ainda a um ano das eleições presidenciais no Brasil surgem mais resultados que indicam a probabilidade elevada de Lula da Silva derrotar Bolsonaro e ser o futuro presidente do Brasil.

Sondagem realizada a 17 de setembro de 2021 pelo DataFolha

Numa pesquisa do PoderData, 36% dos eleitores escolhem Lula como a única opção de voto para as próximas eleições.  Apenas 28% dizem a mesma coisa em relação a Bolsonaro.

No que diz respeito ao potencial de voto, isto é, a soma dos eleitores que apontam Lula como o único candidato em que consideram que “podem votar”, a percentagem é de 58%, seguido de 38% do atual presidente. Quanto aos restantes candidatos, Ciro Gomes e João Doria têm 9%, Sérgio Moro 8%, Eduardo Leite 5% e Rodrigo Pacheco 2% – o que significa que nenhum deles alcança 10%.

Nas sondagens do Datafolha, Lula da Silva é o candidato com menor taxa de rejeição: 38% dos eleitores sondados não votariam “de forma alguma” no petista e 59% não o fariam em Jair Bolsonaro.

O Datafolha faz ainda uma comparação entre os diferentes resultados das últimas sondagens: Em julho, se a eleição se tivesse realizado no dia da sondagem, Lula obteria 46% do total de votos no 1º turno e Bolsonaro com 25%.  Em setembro há apenas uma diferença percentual de 2 valores, mantendo o candidato petista na liderança.


Fontes: Carta Expressa e Datafolha

[Debate] – A Frente Parlamentar de Esquerda Pode Ser Reconstruída?

O Forum Demos irá organizar no dia 15 de novembro (segunda-feira), pelas 20h:30, presencialmente na Cooperativa Árvore (Porto) um debate aberto sobre a temática, “A frente parlamentar de esquerda pode ser reconstruída?”

Este é o primeiro debate da iniciativa do Fórum Demos: O(s) Caminho(s) da Democracia Portuguesa.

Os Estados Unidos e a NATO: uma relação a revisitar

O Conceito Estratégico da Defesa Nacional, sob o tema “Que estratégia para Portugal?”

Ciclo de Debates sobre o Conceito Estratégico da Defesa Nacional

Que Estratégia para Portugal?

Neste momento de grandes transformações na ordem internacional, Portugal repensa as suas grandes opções estratégicas e o seu impacto na política de segurança e defesa, tornando-se premente olhar para as opções no passado. O Ciclo de Debates sobre o Conceito Estratégico da Defesa Nacional (CEDN), nascido do projeto de recuperação do acervo documental do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais (IEEI), tem como objetivo recuperar os debates em torno dos diferentes CEDN e do papel do IEEI nestes debates como contributo para a revisão do Conceito anunciada pelo governo, que deverá orientar a política de segurança e defesa nacional, com o intuito de atualizar e trazer para a contemporaneidade o debate sobre o CEDN, bem como os artigos do Centro de Documentação do IEEI disponibilizados no portal e-Cultura do Centro Nacional de Cultura e no Portal das Instituições de Memória da Defesa Nacional.

O Conceito Estratégico da Defesa Nacional, criado em 1985, sofreu, desde então, 3 revisões, nomeadamente em 1994, 2003 e 2013.
O CEDN de 1985, num mundo bipolar, em plena Guerra Fria e nas vésperas da adesão à comunidade europeia, refletia as preocupações dessa adesão.
A revisão de 1994 veicula uma relação de complementaridade entre as identidades de segurança e defesa europeia e aquelas da Aliança Atlântica, ao mesmo tempo que sublinha a vocação africana da política de defesa nacional.
A revisão de 20 de janeiro de 2003, influenciada pelo Conceito Estratégico de meio século da NATO (1999) e pela resposta de Bush ao 11 de setembro de 2001, nomeadamente, a chamada “guerra contra o terrorismo”.
A revisão do CEDN de 2013 definia as prioridades políticas e do Estado em matéria de segurança e defesa nacional no contexto da crise económico-financeira que atingiu Portugal. O Conceito salienta a necessidade de adaptar a estratégia à emergência de novas potências e aos desafios de natureza não militar como as mudanças climáticas e as pandemias e de contribuir para a paz internacional no quadro das Nações Unidas.

Este Ciclo de Debates faz parte do programa de recuperação do património do IEEI com apoio do Ministério da Defesa Nacional. É coorganizado pelo Centro Nacional de Cultura e Universidade Lusófona do Porto, e contará com quatro sessões, a ter lugar em Lisboa e no Porto.

As primeiras três sessões retomarão os grandes temas dos Conceitos Estratégicos anteriores, os Estados Unidos e a NATO, a União Europeia, as Nações Unidas e as missões de paz, de forma a integra-los nas grandes questões internacionais e de segurança da atualidade.

A sessão final será feita sobre o formato de uma audição cidadã com o Ministro da Defesa, Professor João Gomes Cravinho, na Universidade Lusófona do Porto. Esta audição contará não só com a participação da comunidade da universidade (docentes, investigadores e alunos), como também de organizações e associações da sociedade civil que se debruçam sobre este tema, para colocarem questões.

Primeiro Debate :: 11 de novembro (quinta-feira) | 18h30 | Centro Nacional de Cultura

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Sem Fronteiras – Teresa de Sousa

Um “bloco central” informal talvez não seja uma má ideia.

  1. Cabe aos partidos adaptar as suas agendas às necessidades do país e é este o principal critério que deve orientar o Presidente quando marcar a data das eleições antecipadas. Aliás, foi ele próprio que disse que as convocaria, se o cenário de chumbo do Orçamento se confirmasse, o mais depressa possível. O mais depressa possível não é, naturalmente, amanhã.  Temos o Natal.  E seria desejável haver uma campanha serena em que cada força política apresentasse os seus programas e as soluções que tem para garantir a governabilidade, numa paisagem política que está hoje muito mais fragmentada e volátil do que alguma vez esteve em democracia. Ou seja, a clarificação do PSD é um dado importante. 

Mas, ao decidir receber Paulo Rangel no dia em que o destino do país se decidia no Parlamento, Marcelo reduziu significativamente a sua margem de manobra. Percebe-se o dilema que enfrenta. De todas as vezes que um Presidente optou pela dissolução do Parlamento, o resultado das eleições provou o acerto da sua decisão, oferecendo ao país um quadro parlamentar diferente do anterior e em condições de encontrar uma solução governativa estável. Foi assim das sete vezes em que isso aconteceu (1979, 1983, 1985, 1987, 2001, 2004, 2011).  Desta vez, ou o PSD e a direita democrática conseguem um resultado eleitoral que lhes permita constituir um Governo com apoio parlamentar maioritário, ou o Presidente fica com um enorme problema nas mãos por ter recorrido à “bomba atómica”, penas prevista em caso de estar em causa o bom funcionamento da democracia, sem conseguir uma nova solução governativa. Entretanto, a forma como geriu este momento de crise, com iniciativas junto dos partidos muito pouco avisadas para quem tem como dever manter a distância institucional para ter total liberdade de acção (o caso da Madeira é mais grave do que o de Rangel), a forma como “impôs”, muito antes de tempo certo, o cenário da antecipação das eleições, a sua constante intervenção na esfera pública, criando um ruido desnecessário que apenas desorienta da opinião pública, corroeu bastante a imagem positiva que trazia do primeiro mandato. Paga agora um preço pelo estilo que resolveu introduzir no exercício de funções – bastante facilitado pela estabilidade política garantida pela “geringonça” e pela fidelidade do Governo de António Costa aos compromissos europeus. 

2. Acresce que a desculpa de que apenas quis, com a ameaça de eleições, pressionar o PCP e o Bloco a viabilizarem o Orçamento, revela uma coisa difícil de entender da parte de alguém que sempre “respirou” a política nacional: um desconhecimento da rigidez ideológica do PCP. O Partido Comunista não é igual aos outros partidos políticos das democracias ocidentais, mesmo que tenha adoptado uma posição mais realista, desde que os ventos da História condenaram o comunismo à extinção.  Continua, na sua essência, a ser um partido anti-sistema, anticapitalista, anti-imperialista, antieuropeia e anti-NATO. Deixou algumas dessas coisas de lado para poder ter um papel mais relevante na melhoria da vida das pessoas que diz defender. As sucessivas derrotas eleitorais tê-lo-ão levado à conclusão de que a sua sobrevivência depende de um governo de direita que lhe permita ocupar a rua de novo, devolver o PS à “direita” e retomar as suas velhas bandeiras políticas. Conseguiu sobreviver, ao contrário dos seus congéneres do Sul da Europa, porque manteve a rigidez ideológica, que, aliás, já lhe vinha do passado soviético. Os sindicatos ganharam a luta interna. Jerónimo perdeu. Enquanto houver administração pública e empresas públicas, pode paralisar sectores fundamentais – da CP, à Saúde, passando pelas escolas.  

O Bloco é outro caso. A sua relação com o PS é mais conturbada porque lhe está mais próximo. Talvez tenha ficado frustrado porque o PS, depois das eleições de 2019, não lhe ofereceu uma solução “à espanhola” em que pudesse ocupar uma ou outra pasta no Governo a partir de um acordo de legislatura. O partido-irmão “Podemos” faz parte do Governo de Pedro Sanchez. Costa deveria ter-lhes oferecido essa possibilidade? A resposta não é fácil. Seria preciso que o Bloco tivesse feito um caminho mais visível em direcção à normalidade das democracias liberais, incluindo abandonar a ideia de que é pró-europeu, mas de “outra Europa”.  Provavelmente, o primeiro-ministro sabia que um tal “programa” não era compatível nem com os compromissos europeus do país – inegociáveis -, nem com a moderação necessária em questões fundamentais para a economia como, por exemplo, a legislação laborar. 

O Bloco continua a ser um partido muito pouco transparente no seu funcionamento interno, o que não ajuda. Sabemos muito pouco do que se passa lá dentro, ao contrário do que acontece com a generalidade dos partidos das democracias. Acreditou até ao fim que o PCP viabilizava o Orçamento? Porque não se vê que as eleições lhe permitam recolher os votos suficientes para exigir mais ao PS, no caso de vir a ser, de novo, o parido mais votado. Ou acreditou que uma eventual derrota de Costa abriria mais depressa o caminho à ala esquerda socialista, encabeçada por Pedro Nuno Santos, estendendo a passadeira vermelha que os levaria ao poder? Esse risco existe, embora ténue. Diz a história do PS que sempre soube resistiram às tentações da sua ala esquerda. 

3. António Costa enfrenta as eleições, podendo apenas contar consigo próprio e com a sua capacidade para mobilizar o voto útil dos que querem um governo de centro-esquerda e dos que consideraram, à esquerda do PS, o comportamento do Bloco e do PCP irresponsável. Como admitiu no Parlamento, viu frustrada a sua ideia de pôr termo ao “muro” que desequilibrava a alternância democrática em desfavor do PS, ao excluir do “arco da governação” dois partidos à sua esquerda. Defendeu esta ideia muita antes de se concretizar. Acreditou, porventura, que os ventos da História teriam uma influência positiva no PCP e no Bloco, fazendo deles dois partidos capazes de conviver bem com o sistema demo-liberal. Enganou-se? Durante seis anos, a experiência resultou, deu estabilidade ao país, permitindo-lhe gerir o Governo sem nunca pôr em causa, no essencial, o programa socialista ou os compromissos europeus. A credibilidade que conseguiu junto dos parceiros europeus e dos mercados é indesmentível. Houve a pandemia, que suspendeu internamente atitudes mais radicais. Houve uma mudança histórica na Europa, quando, em Junho do ano passado, foram aprovados os novos mecanismos para enfrentar esta crise gigantesca, dando a mão às economias mais frágeis e mais vulneráveis às suas consequências económicas e sociais, entre os quais o PRR. Quando António Costa se preparava para colher os frutos do seu trabalho nas duas frentes –interna e europeia -, a corda rompeu-se. Ficou de novo tudo em aberto. O primeiro-ministro joga tudo nestas eleições. Continuará a ocupar o centro do palco? Marcelo gostaria de lhe ficar com o lugar. 

4. À direita, os problemas não são menores. O PSD tem de resolver a questão da sua liderança, mas tem também de esclarecer os eleitores até onde está disposto a ir para governar. Aceitar o apoio parlamentar do Chega? Rangel foi claro. Rio talvez tenha começado a perder a sua liderança quando patrocinou a solução encontrada nos Açores para tirar o PS do poder. O cordão sanitário em volta do Chega é um imperativo democrático. 

O PSD ficou deslumbrado com a vitória de Moedas em Lisboa, acreditando que tinha o poder ao alcance da mão. Não é bem assim. Até agora, ainda não conseguiu apresentar-se ao eleitorado com uma base programática mobilizadora, que não seja apenas diabolizar o Governo de Costa. Fará o que é preciso para voltar a atrair o centro? A dúvida é legítima. O Governo de Passos Coelho não foi assim há tanto tempo e os “passistas” rodeiam Rangel. Ora, Rangel e Rio não divergem em quase nada na sua concepção do que deve ser um partido de centro-esquerda. Rangel pode querer vestir um facto mais radical, convencido que é isso que a direita quer. Mas isso pode ter um preço, alienando parte do centro. 

5. Entretanto, com os sinais de crise que se começam a adensar sobre a retoma europeia, da qual a economia portuguesa depende para respirar, manter o país em compasso de espera, sem Orçamento e sem solução clara de governo, não é propriamente uma ajuda. Talvez por isso – e só por isso – seja qual for o partido vencedor, um “bloco central” informal pode vir a ser determinante para o nosso futuro. Hoje, na Europa, a fragmentação política e a ascensão dos extremismos têm recomendado coligações entre forças moderadas. Portugal não pode ser uma excepção. Era uma oportunidade para Marcelo, porque querer tirar partido de crises sucessivas de ingovernabilidade é pura ilusão. 

Artigo do Público

Debate Fórum Demos: O(s) Caminho(s) da Democracia Portuguesa

A catástrofe se move pelas ondas – Ensaio Palavra-Imagem com Mahmud Darwich e Abdulrahman Katanani

Cassiana Der Haroutiounian

Neste mês de novembro, o Entretempos se dedicará ao Oriente Médio. Os Ensaios serão tomados pelas literaturas do mundo árabe, a partir de escritores traduzidos e publicados pela incrível Editora Tabla, da qual sou fã. Ela tem como foco a publicação de livros referentes às culturas de Oriente Médio e Norte da África e seus ecos no Ocidente. Com o objetivo de ressaltar os pontos de contato, percorrendo e construindo pontes culturais, a Tabla deseja apresentar e representar essas culturas de forma autêntica e longe de estereótipos. Numa parceria alinhada, será um mês com obras de arte palestinas, libanesas e sírias permeadas pelas palavras de tais territórios. Que alegria anunciar esse encontro!

Junto com a Tabla, vem o Geraldo Adriano Campos, Coordenador do Centro Internacional de Estudos Árabes e Islâmicos da Universidade Federal de Sergipe, que apresentará todos os domingos um dos autores escolhidos, além de me dar uma mão essencial para navegar entre os nomes da arte contemporânea daquela região. É um longo caminho a percorrer, mas também é um convite para mergulhar nesse universo ainda mal explorado em terras brasileiras que tanto tem de Oriente Médio, ainda que pouco conhecido.

“Onda” (2016). Abdul Rahman Katanani

A catástrofe se move pelas ondas

Geraldo Adriano Campos

“O matador mata, o combatente combate e o pássaro gorjeia. Quanto a mim, encerro a busca por linguagem figurativa. Paro completamente minha procura por interpretação, pois a essência da guerra é degradar os símbolos e levar as relações humanas, o espaço, o tempo e os elementos de volta a um estado primordial”.

Com essas palavras, o poeta palestino Mahmud Darwich expõe as tensões do escritor nos escombros da guerra. Além da devastação material, dos corpos despedaçados, da cidade em ruínas, Darwich nos lembra que a guerra degrada os símbolos. O que resta ao poeta? O que pode a linguagem, face à eloquência das bombas?

 “Memória para o esquecimento” apareceu inicialmente como texto em 1986 e acaba de ser lançado no Brasil pela Editora Tabla, com tradução do árabe ao português da Profa. Safa Jubran. É o relato dos acontecimentos de um dia em agosto de 1982, durante o cerco israelense a Beirute. Objetivava-se, com o forte bombardeio, impor mais um capítulo de exílio aos palestinos, cujas lideranças encontravam-se no Líbano naquele momento. Um exílio que não cessa de ser renovado desde a limpeza étnica de 1948 e a expulsão de cerca de 800.000 palestinos de suas terras, na Nakba (catástrofe).

Aos herdeiros do desterro a experiência do estado de sítio não é estranha.

Por isso, no mergulho do poeta no estado primordial em busca de uma linguagem, adquirem força gestos triviais como a preparação de um café, convidando-nos a refletir sobre a peculiaridade da produção estética palestina.

Em uma entrevista ao poeta libanês Abbas Beydoun, em 1995, Darwich dizia que os poetas palestinos se encontravam em um “lugar híbrido, em um ponto médio entre o histórico e o mítico”. Seu lirismo transitaria, assim, entre “o alcance da voz de um mito consumado, definitivo e consagrado” e a “estética do cotidiano”. Na obra de Darwich, a ressonância épica é transposta à esfera do prosaico, como possibilidade de afirmação da vida diante da iminência do fim.

Vivenciar o exílio imposto por Israel desde 1948 é também a experiência do “cerco dentro do cerco”, condição compartilhada pelos palestinos que habitam a paradoxal temporalidade do provisório-permanente nos campos de refugiados no Líbano, como o artista Abdulrahman Katanani, nascido em Sabra, após seus avós terem sido expulsos pelos sionistas da Palestina. Katanani nasceu nove meses após o massacre de setembro de 1982, mesmo ano em que transcorrem os acontecimentos descritos por Darwich em “Memória para o esquecimento”. No massacre, os campos de Sabra e Chatila também estavam cercados pelos israelenses, o que permitiu que as milícias falangistas libanesas perpetrassem uma das maiores atrocidades do século XX. “Para que as pessoas não acordassem com o som dos tiros, parte do massacre foi realizado com machadinhas, inclusive de crianças e mulheres grávidas”, contava-me um sobrevivente, em uma conversa em Chatila, em 2016.

Uma onda do mar. Eu a reconheço e a sigo com apreensão. Vejo-a se cansar antes de alcançar Haifa ou Alandalus. Ela se cansa e então descansa nas margens da ilha de Chipre. Uma onda do mar. Ela não será eu. E eu, eu não serei uma onda do mar.”

O narrador do livro “Memória para o esquecimento” nos alerta nesse trecho que a catástrofe se espalha com o mar, espaço simbólico em que se fundem esperança e ameaça, atingindo outros portos e cruzando-se com memórias alheias. Se no livro de Darwich “o mar se transforma em terra firme e se aproxima”, na escultura “Onda” (2016) de Katanani, o mar se materializa em arame farpado. Uma imensa onda prestes a engolir-nos. Uma onda coesa a recostar sua intimidante parede, dobrando-se em uma espuma irregular de pontas de arame farpado. Suspensa no momento em que antecede a quebra, a iminência do acontecimento é reforçada pela antecipação da ferida anunciada pelo material que rasga a carne. Com seu irmão, Katanani produziu em Sabra uma máquina de tecer grandes chapas de arame farpado e desenvolveu técnicas para trabalhar com esse material. Não se trata de matéria qualquer. Se a ruína é expressão material emblemática da modernidade, o arame farpado também o é.

O filme “O mar à frente” (2021), do jovem diretor libanês Ely Dagher (atualmente em exibição na Mostra Internacional de Cinema) também oferece a imagem do mar como ameaça. A obra conta a história de Jana, uma libanesa que retorna a Beirute, após um período na Europa. Em uma atmosfera profundamente melancólica, nos deparamos com uma geração que não consegue enxergar possibilidades no trágico contexto do Líbano contemporâneo. Na ausência de horizontes, persiste a espera pela grande onda, a derradeira. Jana procura o mar da varanda do apartamento de seus pais, como quem busca qualquer resquício de um futuro viável. “A grande onda está chegando”, diz Adam, seu namorado, em certo momento. Os personagens falam sobre a provável vinda de um tsunami, que nunca chega.

O mar de Darwich, de Katanani e de Dagher é o da iminência. Do momento definitivo, que tudo engolirá. Há também uma esperança, que exigirá que nos tornemos os donos do tempo, como sugere Darwich: “Haverá tempo para enterrarmos os mortos. Haverá tempo para as armas. E haverá tempo para que o tempo passe conforme desejamos, para que este heroísmo possa continuar, porque, agora, nós somos os donos do tempo…” .

O poeta palestino nos oferece, de tal modo, uma metáfora potente para nosso mundo, que extrapola as questões singulares do Oriente Médio. Em Darwich encontramos uma força que pode nos salvar da onda derradeira.

Texto pode ser consultado na integra em: Entretempos – Artes Visuais diluídas em diferentes suportos, no Brasil e pelo Mundo