11 de setembro: A Tentação Fatal- Em Memória de Jorge Sampaio*

Mapa do Grande Médio Oriente

O 11 de Setembro não foi apenas um crime contra a humanidade, sinal da emergência do extremismo identitário, mas transformou-se num conceito, como afirmaram Derrida e Habermas no mais interessante livro sobre o tema. Um conceito que refletia a enorme inquietude e medo que a monstruosidade do crime criara. Vivido em direto, como num espelho, criou o efeito de terror mundial que era o objetivo de Bin Laden.
A 11 de setembro de 2001 estava em São Paulo. Debatíamos o projeto de um acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul. Era a esperança de uma nova ordem internacional, de um novo multilateralismo, capaz de humanizar e regular a globalização económica, cujos atores fundamentais seriam os espaços supranacionais.
Assisti, com Celso Lafer, então Ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil, à queda da segunda torre. Erámos todos americanos, como diria um célebre editorial do Le Monde.
Já então, porém, eram enormes as dúvidas sobre a atuação de George W. Bush. A hegemonia suave de Clinton tinha sido substituída pelo unilateralismo da única superpotência. Celso Lafer lembrou na ocasião a lição de Hannah Arendt de que a violência não cria poder. Ela destrói o poder como capacidade de agir conjunto. Como escrevi então, desejávamos que fosse a América mundo “de Manhattan, plural e aberta” a emergir na resposta, mas temia-se o pior.

O que mudou o mundo?
Num artigo para o Público de 19 de setembro de 2001, defendi que “o que pode vir a mudar o mundo é a natureza da resposta”. O que deixou o mundo sem ordem foi a tentação de utilizar a comoção internacional para impor uma impossível paz imperial, no contexto de hegemonia americana pós-Guerra Fria.
Bush fez de Bin Laden uma superpotência e “da guerra contra o terrorismo” uma ameaça à paz e à democracia. A cabeça de Bin Laden foi posta a prémio, Guantánamo tornou-se no exemplo da violação dos direitos humanos e os caçadores de prémios venderam os seus inimigos. O efeito de terror foi tragicamente amplificado.

Bush pôs o poder americano ao serviço da agenda dos neoconservadores, da tragédia anunciada de democratização pela força do grande Médio Oriente, de Marraquexe ao Bangladesh.
Como em todos os projetos imperiais, a missão civilizadora era a justificação ideológica para o projeto de dominação e conquista no Médio Oriente. No mundo pós-Guerra Fria, diziam os neoconservadores, os Estados Unidos eram uma hiperpotência, livre para usar a superioridade militar ao serviço dos seus interesses.
A invasão do Afeganistão foi justificada com a legitima necessidade de impedir a Al Qaeda de usar esse território. Esse, no entanto, não era o objetivo principal, como ficou bem patente na reunião de Bush com os seus principais conselheiros, logo a seguir ao 11 de setembro. Rumsfeld e Wolfowitz defenderam que a resposta devia ser a ocupação do Iraque, apesar de Saddam Hussein ser um inimigo de Bin Laden, e foram Colin Powell e Condoleezza Rice que convenceram Bush que não teria apoio internacional para tal. Bush adiou a invasão do Iraque e invadiu o Afeganistão. A ocupação militar do país, é bom lembrar-nos hoje, passou a fazer parte da estratégia de mudança de regime pela força do mundo islâmico.

As consequências
Vinte anos depois, o balanço da guerra contra o terror é trágico: mais de um milhão de civis mortos, só no Iraque e no Afeganistão, milhões de refugiados, a Al Qaeda continua ativa, no Iraque invadido surgiu o Daesh.
Nestes 20 anos, as democracias entraram em refluxo. Escudadas na guerra contra o terror, na ameaça supostamente existencial, a segurança, ao arrepio do Estado de direito, ganhou um lugar central no discurso político.
Banalizou-se a teoria do choque das civilizações de Huntington, da visão maniqueísta de que os conflitos do futuro seriam entre o Ocidente cristão e os muçulmanos. Visão que escondia as graves desigualdades sociais criadas pela hegemonia do pensamento único neoliberal.
Este foi o terreno favorável para a extrema-direita e o racismo: os muçulmanos eram apontados como a ameaça, numa perigosa amalgama entre islão, islamismo e extremismo. Salvini, já ele, num jornal do seu partido, La Padania, titulava então “um milhão de imigrantes, quantos terroristas?”.

As ditaduras apropriaram-se da guerra contra o terror, argumento perfeito para reprimir as oposições, agora rotuladas de terroristas – basta recordar a Tchetchénia ou olhar para o Egito.
A democracia pagou um elevado preço pela guerra contra o terrorismo.

A alternativa
Os americanos poderiam ter aprofundado a via, de Bush pai e de Clinton, de
construção de uma ordem internacional assente num multilateralismo eficaz. Foi essa nova ordem internacional que permitiu a reunificação alemã e a integração de quase toda a Europa.
A ela se deve também a vasta coligação internacional, legitimada pela ONU, que impediu a anexação do Koweit. Os acordos de Oslo criaram a esperança da criação de um Estado palestino.
Depois da impotência perante os massacres do Ruanda e de Timor, foi possível pôr termo à limpeza étnica na Bósnia e no Kosovo.
A substituição da responsabilidade de proteger pela mudança de regime tornou o consenso internacional para intervenções humanitárias extremamente difícil. A intervenção na Líbia demonstrou tragicamente que o projeto de mudança de regime dos neoconservadores tinha sobrevivido a Bush. Os sírios sofreram as consequências.
O Conselho de Segurança da ONU poderia ter criado um tribunal especial para julgar os crimes contra a humanidade da Al Qaeda. No combate ao terrorismo deveria ter sido privilegiada a ação dos serviços de segurança – como diria Obama mais tarde, não se faz guerra a uma tática.
No Médio Oriente, o apoio às ditaduras, que alimentava o radicalismo antiocidental, poderia ter sido substituído pelo apoio a forças democráticas. Tudo deveria ter sido feito para desconstruir a perceção dos muçulmanos como os novos bárbaros.

Em suma, do crime contra a humanidade, na mais cosmopolita das cidades, poderia ter emergido a convicção de que éramos uma só humanidade, o que continua a ser um imperativo político, social e ético. Estar à altura desse imperativo é responsabilidade dos cidadãos e particularmente dos políticos – foi o que fez o Presidente Jorge Sampaio quando se opôs à guerra do Iraque e fez do reconhecimento de que os “outros” somos nós, todos refugiados, a sua última grande causa.

*Versão revista do artigo do Público de 11 de Setembro de 2021

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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