Liberdade. Mais, mais . Não menos, por Alexandra Lucas Coelho*

RG Rui Gaudencio – 14 Novembro 2016 – PORTUGAL, Lisboa

A quem quiser ler mas antes de mais às minhas irmãs portuguesas.
 Que o gesto de uma não diminua outra. Que um gesto nunca diminua, amplie. A história de todas nós – todas, filhas, alunas, trabalhadoras, amantes, mães, irmãs – é uma história da violência. Abuso, intrusão, obstrução, encurralamento nas gavetas, nas campas do Portugal dos Pequenitos.
O moralismo bafiento, mesquinho e autoritário deste país é a sua grande obscenidade. Não lhe basta ser bafiento e mesquinho, quer impor-se. Todas nós estamos vivas à nossa custa. Não desistimos todos os dias, apesar de tudo. Todas tivemos de aprender a ser mais fortes: que o abusador, próximo ou desconhecido, o patriarca, o patrão, em casa ou no mundo. Mais fortes do que quem quis decidir por nós a nossa vida. Mais fortes do que o trabalho que perdemos, os amores, o conforto, o sono, a saúde, a paz de espírito, os constantes insultos velados ou explícitos, tanto mais explícitos quanto mais levantámos a cabeça. Todas. As lindas por serem lindas, as feias por serem feias, as gordas, as magras, as activas, as passivas, as rápidas, as lentas, as que falam, as que calam, as que têm filhos, as que não têm filhos. Todas vivas à sua custa, apesar de tudo. Todas temos muitas histórias que podemos contar, se quisermos, quando quisermos, como quisermos, quando isso for libertação, potência, não mais fonte de abuso. Ninguém, nenhum homem, nenhum arrivista de meia tigela sentado numa coluna de jornal, nem nenhuma mulher de dedo espetado tem o direito de dizer a outra mulher o que ela deve dizer sobre o sofrimento, de a encurralar, de lhe tirar espaço e potência, o seu próprio momento, quando essa mulher, todas, têm uma vida de luta, de alguma forma. E só elas sabem o que dizem, como se solidarizam, de que forma, porquê. Noção, esse bem tão escasso. Respeito. O pudor tem onde melhor se aplicar que nas mamas e nas pilas, deixem-nas sossegadas. Pudor é pensar na liberdade e potência de cada um.
 Eu quero que bem se foda esse dedo espetado de Salazar. No que à nossa vida toca, nossa intimidade, nosso corpo, temos o direito de falar aqui ou noutro espaço. De falar agora ou quando for o momento. De falar ou de não falar. De foder ou de não foder. De sermos castas ou putas. De sermos hetero, bi, homo, transgénero, sem género. De não sermos escravas de nada ou de sermos escravas do que entendermos. Temos direito a tudo o que só nos diz respeito, minhas irmãs. Liberdade para o que bem nos der na telha, onde, quando e como. Mais, mais. Não menos.

*Jornalista e escritora portuguesa

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