Quem vota no Chega?!, por Rui Calado*

Tal como milhares de outras pessoas, integrei as mesas das últimas eleições presidenciais, algo que faço recorrentemente ao longo das últimas duas décadas. Um dos momentos mais esperados é, sem sombra de dúvidas, a contagem dos votos. É fascinante porque, pode-se finalmente começar a extravasar sentimentos relativamente aos resultados. E, simultaneamente, um momento angustiante, porque começamos a perceber o ódio, descontentamento ou frustração que vem à tona através dos chamados votos nulos. Com frases cheias de imaginação, mas que demonstram todo esse recalcamento e que me muitas vezes me dou pensar: “estas pessoas deslocam-se até aqui para fazer isto?!”.


Desta vez, na minha secção de voto não existiu “desabafos” nos votos nulos. Parece-me que, esse facto deve-se, em grande medida, à canalização deste tipo de descontentamento para a candidatura da direita radical. É verdade que, tanto Vitorino Silva, agora, como em 2016, como José Manuel Coelho, em 2011, já tinham recebido mais de 150 mil votos do chamado voto protesto. O candidato André Ventura acrescenta a “credibilidade” dada pela sua capacidade oratória e imagem, a visibilidade mediática durante vários anos em programas televisivos de debate futebolístico, legitimação dada por sectores da chamada “direita democrática” e uma estrutura partidária financiada por um milionário com passado obscuro. Porém, seria manifestamente improvável e até redutor que este tipo de descontentamento justificasse, por si só, os quase 500 mil votos no candidato da extrema-direita.


O apoio às ideias de André Ventura cresceu em todo país: desde o interior abandonado e ostracizado, passando por sectores de classe média, que sentem que estagnaram nas últimas décadas, e terminando em zonas de poder de compra mais elevado, sedentos de uma política fiscal ultraliberal. O interior do
país, não apenas no Alentejo onde André Ventura teve resultados acima dos 15%, são zonas remetidas ao abandono pelo Estado Português. Estas populações têm-se confrontado com o encerramento de serviços públicos, por sucessivos governos, como os correios, os tribunais e escolas. Se somarmos a falta de
expetativa de futuro, designadamente do direito ao trabalho condigno, temos o espaço ideal para o discurso populista e, aparentemente, antissistema, proliferar.

A falta de perspetiva de futuro, ou mesmo o medo, não são exclusivos do interior. No litoral, em distritos como Lisboa, Setúbal, Faro, Leiria e Santarém, a candidatura do Chega conseguiu resultados relevantes oscilando entre 12.5% (Leiria) e os 16.69% (Faro), demonstrando adesão de vários sectores da população, que vão das classes mais populares até à classe média, com uma retórica de voto de protesto. Junto das elites, o programa político-económico de cariz ultraliberal, propositadamente escondido da maioria da opinião pública, com propostas como a privatização de sectores da saúde, da segurança social, da educação e da tributação única sobre o rendimento, de apenas 10%, são fatores determinantes para o apoio desta classe ao Chega. Os bons resultados obtidos em freguesias como Cascais e Estoril (Concelho de Cascais) com mais de 18% dos votos (quando nas legislativas o CDS já tinha conseguido quase 10%) ou em Belém com quase 15%, (onde o CDS logrou mais 11%) são o espelho desta adesão de sectores da direita tradicional ao Chega.

Nas freguesias mais abastadas do Porto, onde a direita tem alguma relevância, esta transferência de votos não se verificou. Em grande medida pelo facto de um candidato liberal, que ficou em segundo lugar de algumas destas freguesias, ser portuense e existir uma resistência efetiva à figura do André Ventura.


Desta amálgama, sociologicamente e geograficamente heterogénea, soma-se a emergência de sentimentos estruturantes da sociedade portuguesa como o machismo, misoginia, racismo, xenofobia, homofobia que se refletem nas mais diferentes vertentes como nos manuais escolares, na marcação do espaço público, narrativas hegemónicas sobre a História de Portugal, no número de feminicídios, entre outros. E que têm, o quanto antes, de serem amplamente discutidos e enfrentados por toda nossa sociedade.


O combate à extrema-direita tem de ser realizado através da radicalização da democracia, ou seja, lutando contra as desigualdades sociais e económicas e aprofundando a participação democrática. Vivemos momentos perigosos, mas, simultaneamente, desafiantes.


*Doutorando em História e investigador no CEIS 20.

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