Na crise da direita democrática cresce a extrema-direita

Pela primeira vez tivemos duas mulheres poderosas numa campanha eleitoral e isso deve ser saudado

O resultado das eleições presidenciais em Portugal é um alerta para os desafios que a democracia portuguesa enfrenta.

O candidato da extrema-direita ter obtido 11,9% dos votos é inquietante, tanto mais que ele não esconde ao que vem, como no seu discurso triunfalista, ufanista, prepotente , feito de ódio e rancor contra a República democrática. Ao ouvi-lo, na noite eleitoral, pareceu-me que treina a ouvir Mussolini.

O problema não são, para já, o resultado das  presidenciais. Foi reeleito, por larga maioria de votos ( 60%), Marcelo Rebelo de Sousa, um Presidente democrático, com preocupações sociais e defensor da integração europeia, apesar de conservador em questões que eu considero essenciais e pouco atento às questões dos direitos humanos e do racismo, em Portugal e no Mundo. Fez bem Marcelo ao sublinhar na noite eleitoral que é necessário concentrar todos os nossos esforços no combate à pandemia.

O desafio está no que nos dizem os resultados das presidenciais sobre a crise do centro-direita e da direita democrática em Portugal. Uma sondagem à boca das urnas para as legislativas o PS obteria 35% dos votos, Bloco 8%, CDU  6% , PAN 2%, Livre 1%,  PSD 23%,  CDS  2%, IL 7% e  Chega 9%. É tão ridículo o PS reclamar os votos do Marcelo como o PSD .

A crise da direita e do centro direita é um problema grave para a democracia portuguesa, porque a alternativa a partidos fundadores da democracia portuguesa como o PSD e o CDS é a extrema-direita e o IL- um partido da extrema neo-liberal.O CDS, um dos partidos fundadores da democracia liberal portuguesa, está a desaparecer o que é uma muito má notícia. O PSD foi inaudível nesta campanha.

O PSD tem de afirmar que nunca governará com o Chega para mostrar que o voto na extrema-direita, pode ser um voto de protesto, mas é um voto perdido.

Rui Rio, é cada vez mais uma enorme deceção, deixando, sem o desmentir, Ventura afirmar que sem o Chega não haverá Governo . O PSD tem de afirmar que nunca governará com o Chega para mostrar que o voto na extrema-direita, pode ser um voto de protesto, mas é um voto perdido. Contrariamente, Rio congratula-se com os votos do Chega no Alentejo!

A declaração de Carlos César de que o crescimento do Chega não é um problema para a democracia, mas antes para o PSD, é irresponsável e sinal de uma tentação pérfida de enfraquecer a direita democrática com a extrema-direita. Foi, em França, a opção de François Miterrand com os resultados que se conhecem: o PS  quase desapareceu e a Frente Nacional é o maior partido da oposição.

A ausência do PS destas eleições foi grave porque facilitou o crescimento da extrema-direita, nomeadamente, nas regiões do interior e contribuiu para a ideia de santa aliança dos partidos do sistema que tem sido o terreno fértil para o crescimento da extrema-direita. Valha Ana Gomes ter assumido a sua responsabilidade política. A Ana Gomes devem, os democratas, um ‘obrigado’, por não ter permitido que o Chega se afirmasse como a alternativa a Marcelo e por ter sido a única que fez campanha defendendo a integração europeia.

Marisa Matias foi prejudicada pelo voto útil em Ana Gomes, mas foi uma das vozes fortes desta campanha contra a extrema-direita. Pela primeira vez tivemos duas mulheres poderosas numa campanha eleitoral e isso deve ser saudado. Não me parece que o Bloco de Esquerda seja penalizado por essa votação, como a sondagem mostra.

A esquerda continua a ser majoritária em Portugal, mas, com o enfraquecimento do centro-direita, corremos o risco de nos encaminharmos para uma bipolarização esquerda, extrema-direita que como se viu no Brasil é um risco sério para a democracia.

A conclusão que se pode tirar destas eleições é que Portugal, não foi, nem é, exceção à existência da extrema-direita e que para impedir a sua progressão a chave está na resolução dos problemas sociais que afligem a nossa classe média, mas também na capacidade do PSD para recusar todo tipo de alianças que banalizem as ideias reacionárias, como o racismo e o machismo, da extrema-direita.

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

2 opiniões sobre “Na crise da direita democrática cresce a extrema-direita”

  1. Bem lembrado o episódio Miterrand e a extrema direita; Rio (ou outro qq) dará a mão ao Chega, cujo coração bate nas entranhas do PSD; a estratégia e acção de defesa da democracia é responsabilidade da esquerda, toda. Irrenunciável.

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  2. ..prezados …os rotulos ..direita, .extema – direita são ‘ ..non sense ..’ KKKK..só um lado segue um padrão preconcebido….o mundo mudou ..não existe mais esquerda, comunista, socialismo e assemelhados…agora é a NOM versus civilização judaico-cristã …

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