2021: um ano para voltar a respirar

Em Portugal, do negacionismo racista e colonial, emergiu  um influente, inesperado para muitos, movimento cívico, que deu voz a uma comunidade afro-portuguesa, que deixou de ser invisível e tem presença na Assembleia da República. 

Se 2020 foi o ano da Pandemia que englobou a Humanidade na mesma tragédia, foi também o ano em que começámos a vencer o vírus da desumanidade, do ódio pelo outro, da intolerância, e da indiferença perante a desigualdade que infiltrou as democracias e alimenta os autocratas.

Respondendo ao “não posso respirar” de George Floyd, assassinado pela América do ódio racial, incentivado por Presidente neo-fascista, milhões, no mundo inteiro, gritaram a sua indignação. Em Portugal, do negacionismo racista e colonial, emergiu  um influente, inesperado para muitos, movimento cívico, que deu voz a uma comunidade afro-portuguesa, que deixou de ser invisível e tem presença na Assembleia da República. 

A dimensão das manifestações de protesto contra a violência racial na sequência do assassinato de Bruno Condé mostrou que em Portugal, em plena pandemia, também a sociedade civil se vai autonomizando da hegemonia dos partidos políticos e quebrando o consenso cúmplice com a narrativa de um Portugal não racista e para sempre livre do perigo da extrema-direita. Por outro lado, o assassinato de  Ihor Homenyuk, um imigrante Ucraniano, por agentes do SEF, confirma a urgência do combate pelos direitos humanos em Portugal.

Apesar da pandemia ou por causa dela, a força dos movimentos cívicos faz de 2020 o ano em que o refluxo democrático começou a ser revertido. 

Foi a persistência da mobilização contra Trump, da marcha das mulheres ao movimento do Black Lives Matter, na indignação com o seu desprezo pelos direitos humanos, que permitiu a eleição de Biden e Harris. No Chile, grandes manifestações populares forçaram a revisão da constituição herdada da ditadura de Pinochet. No mundo Árabe a revolta voltou a ocupar ruas e praças, com o Hirak, lembrando que as aspirações democráticas de 2011, apesar da violência e da guerra, continuam a ser as da maioria da população. A mesma aspiração à liberdade soprou, enfrentando uma repressão brutal, em Hong Kong e na Belorussia. Já no fim do ano, na Argentina, a sociedade civil foi determinante na despenalização da interrupção voluntária da gravidez.

Nos últimos anos, partidos da direita democráticos, por esta Europa fora, mostraram-se prontos a facilitar a chegada ao poder da extrema-direita , como aconteceu em Portugal, em 2020 nos Açores, com a formação de um governo liderado pelo PSD com apoio do Chega. 

Lá onde partidos democráticos se mostraram timoratos, calculistas, prontos, por ambição do poder, a fazer alianças com a extrema-direita, quem afirma com força os valores da nossa Humanidade Comum, são os movimentos sociais e cívicos. Desde logo, na mobilização em defesa do imperativo ético da hospitalidade, dos direitos dos migrantes e dos refugiados. Na contestação das desigualdades sociais ou de género e na força do movimento ecologista, impulsionados por uma juventude  que recusa  o caminho do apocalipse ambiental.

 A influência dos países não se mede apenas pela dimensão do seu PIB, ou das suas forças armadas, o soft power, o poder de atracção de um dado Estado é, numa sociedade de cidadãos interconectados, uma componente essencial do poder. Ora, o soft power depende em larga medida da vitalidade da sociedade civil de um dado Estado, da capacidade do seu sistema de governo em integrar as suas reivindicações, essencial para aparecer aos olhos do Mundo como comprometido com o bem comum. O opróbrio mundial dos Estados Unidos  é a herança dos anos Trump que, para nosso alívio, chegam ao fim.

Os balanços catastróficos de 2020 tendem a fazer dele, neste século, o ano zero da nossa Humanidade. Seria uma negação da esperança não ver que no meio da catástrofe emergiram as forças que podem reverter o refluxo democrático e construir um Mundo melhor. 

Não houve nacionalismo, nem America first, que protegesse os americanos do vírus. Ao mesmo tempo, a globalização neoliberal, com a pandemia e a consciência aguda da desigualdade que cria, deixou de ser uma política viável. Um outro futuro é possível, em que uma sociedade civil conectada, portadora dos valores da Humanidade comum, seja capaz de controlar a globalização económica e garantir a segunda globalização, de que fala Edgar Morin, capaz de proteger a vida na Terra. 

Apesar da imprevisibilidade e apesar da tragédia da pandemia, paradoxalmente, termino 2020 mais otimista do que terminei 2019, quando a vaga populista vaticinava destruir tudo por que tínhamos lutado, antes e depois de 25 de Abril de 1974. Hoje penso que em 2021, com o fim do Governo Trump, com a vacinação em massa – esperemos de forma universal – as condições são favoráveis a um renascimento democrático. Para isso é necessário garantir que o fundo de recuperação da União Europeia será um instrumento para combater a desigualdade social e o aquecimento global. Mais, para vencer os desvios a esse propósitos, é necessário  que as vozes, que exigem uma sociedade mais justa, mais hospitaleira e ecológica, não se calem e se unam aos que pela Europa fora partilham os mesmos ideais. Em 2021, é necessário construir alternativas sólidas, como a que derrotou Trump, a Bolsonaro, Orban, Salvini, Le Pen ou Modi e impedir, em Portugal, a aliança entre a direita democrática e a extrema-direita. Estes são os meus votos democráticos para o novo ano. 

Este artigo é uma versão ligeiramente revista do artigo publicado em Sem Fronteiras : http://aep61-74.org/

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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