“O momento Biden Harris: que oportunidades?” por Pedro Dallari

A eleição de Joe Biden representa, indiscutivelmente, um alento para o multilateralismo no plano internacional. Vão nesse sentido as manifestações do candidato do Partido Democrata, produzidas ainda no curso da campanha, de que pretende retomar as relações dos EUA com a Organização Mundial de Saúde (OMS), bem como reinserir o país no Acordo de Paris, em reforço ao combate ao aquecimento global.


No entanto, o desafio que se coloca para Biden, nesse âmbito, é o de contribuir para a renovação do multilateralismo, com a geração de mudanças significativas nas diretrizes do processo de globalização. O resultado eleitoral nos EUA, com Trump, mesmo derrotado, auferindo votação expressiva, e a força política relevante de movimentos que, em diversos países, compartilham a posição anti-globalista do atual presidente norte-americano revelam que largas parcelas da população mundial se veem excluídas dos benefícios propiciados pela integração econômica internacional.


A retomada da ainda indispensável liderança dos EUA nos fóruns e ações voltados à condução da agenda global, que a vitória de Joe Biden sinaliza, deverá, assim, estar sintonizada com a prioridade para o enfrentamento da desigualdade social, em todos os seus aspectos (econômico, racial, nacional etc.). Da mesma forma que fez a União Europeia ao aprovar em meados deste ano o programa Next Generation, que, baseado na mobilização de recursos financeiros de grande monta, confere ênfase ao combate ao desemprego. Caso contrário, haverá a manutenção e mesmo a acentuação do quadro de forte instabilidade social que caracteriza o mundo contemporâneo.


Vindo a se materializar, essa nova perspectiva para as relações internacionais – e a expectativa de que possa produzir resultados positivos em curto espaço de tempo, com avanços importantes no âmbito da cooperação multilateral –, tende a ter impacto positivo no Brasil. Neste cenário, como em outros lugares do mundo, haverá o enfraquecimento de fatores materiais e retóricos que ajudaram a impulsionar as posições retrógradas e isolacionistas patrocinadas por Bolsonaro e seu governo. Mas, para isso, é preciso que as organizações políticas brasileiras de vocação democrática se reconectem com a sociedade, restaurando sua credibilidade por meio da reafirmação de valores éticos e do oferecimento de propostas de gestão viáveis e que sejam compatíveis com as mudanças de que o mundo urgentemente necessita.

Pedro Dallari, Professor Titular de Direito Internacional do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo.

Veja a intervenção de Pedro Dallari no debate sobre as eleições americanas promovido pelo Forum Demos:

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