“O momento Biden Harris: que oportunidades?” por Susana Peralta

“O podcast diário “Today in Focus” do britânico The Guardian, na passada quinta-feira dia 19 de novembro, partiu do mote “How will Joe Biden reset US relations with the world?”. O podcast começava com uma recordação do discurso de Joe Biden na 55ª Conferência de Segurança de Munique, organizada em fevereiro de 2019. Logo nos primeiros segundos, depois de cumprimentar a anfitriã Angela Merkel, Biden diz o seguinte: “Deixem-me dizer isto logo no início, para não haver mal entendidos. Eu apoio fortemente a NATO. Acredito que é a aliança militar mais significativa na história mundial. É a base a partir da qual temos conseguido manter paz e estabilidade nos últimos 70 anos. É o coração da nossa segurança coletiva.” Biden continua dizendo que acredita na importância de oferecer um apoio forte à União Europeia, acrescentando que a UE “é mais do que uma união económica; é crítica para a segurança e estabilidade”. Neste discurso, Biden reconhece que estamos num ponto de inflexão da estabilidade internacional e critica abertamente a posição recente do seu país, avisando que a liderança americana só é possível tendo os seus aliados a seu lado. E deixa uma promessa: “We will be back.” A tradução livre é minha, mas o discurso está disponível integralmente no YouTube, para quem quiser ouvir na primeira pessoa o presidente eleito. (https://www.youtube.com/watch?v=Ab470h3X8I8)
No mundo globalizado em que vivemos, os grandes desafios só podem ser enfrentados numa lógica multilateral: a emergência climática, a defesa da democracia liberal, a saúde pública, a desigualdade galopante, a necessidade de regular os paraísos fiscais, verdadeiros sifões por onde se esvaem recursos críticos para as economias e onde se lava dinheiro sujo. A mudança de atitude do “America first” de Trump para o “We will be back” de Biden é um lufada de ar fresco para a UE.
Mas é importante sermos realistas. Joe Biden e a vice-presidente eleita Kama Harris governarão um país divido, onde Trump obteve mais de 47% do voto popular. O controlo do Senado será decisivo nas escolhas mais críticas que a presidência Biden / Harris terá de fazer. No curto prazo, vai ser necessário que o Senado confirme as escolhas da presidência para a administração. Estamos a falar dos lugares mais importantes na equipa da presidência: os Secretários de Estado, do Tesouro, da Defesa, do Interior, bem como o Procurador Geral. O controlo do Senado está dependente das eleições na Georgia, em janeiro. A confirmar-se uma maioria republicana, será a primeira vez desde a presidência de George Bush em1989 que um presidente eleito começa o mandato sem controlar o Senado. Mesmo depois de atravessada esta batalha inicial, para a qual alguns senadores republicanos já fizeram saber que não darão carta branca à equipa Biden / Harris, haverá decisões nas quais o Senado será fundamental.
Na frente da emergência climática, Biden tem o objetivo de atingir a neutralidade carbónica em 2050, com um investimento de 1,7 biliões de dólares que também ajudaria a economia a recuperar da crise pandémica – aqui o Senado será fundamental e será uma batalha política difícil. Biden já prometeu que os EUA voltariam ao Acordo de Paris em fevereiro. Também anunciou que vai reverter a saída dos EUA da Organização Mundial de Saúde. Estas duas decisões não necessitam do Senado. Se a futura administração Biden aumentar o financiamento desta organização multilateral e ajudar a repensar a gestão global de crises pandémicas – agora que sabemos o que elas doem – é uma ótima notícia para a UE. Também poderá ajudar a equilibrar os pratos da balança entre a China, o grande doador atual da OMS, e as democracias liberais, que devem ter uma palavra a dizer nesta organização tão importante. A UE ganha um aliado para fazer frente a líderes autoritários que foram ganhando protagonismo na era Trump – com Putin à cabeça. Mas não tenhamos ilusões: sem uma política externa concertada e consequente da parte do bloco europeu, o aliado americano não poderá fazer milagres.
Finalmente, para a UE e não só, a chegada de Kamala Harris à Casa Branca é um momento inspirador. É a primeira vez que uma mulher entra numa equipa presidencial. Um sinal de esperança de que, mesmo depois de quatro anos de uma presidência fraturante, há lugar para a diversidade étnica e de género numa das instituições mais poderosas do mundo. Neste 2020 tão devastador a vários níveis, é reconfortante perceber que a política ainda serve para estas pequenas-grandes conquistas.”
Susana Peralta, Professora de Economia na Nova SBE

Como tirar partido do momento Biden/Harris e a UE como player neste novo contexto do mercado internacional:

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