“O momento Biden Harris: que oportunidades?” por Pedro Dallari

A eleição de Joe Biden representa, indiscutivelmente, um alento para o multilateralismo no plano internacional. Vão nesse sentido as manifestações do candidato do Partido Democrata, produzidas ainda no curso da campanha, de que pretende retomar as relações dos EUA com a Organização Mundial de Saúde (OMS), bem como reinserir o país no Acordo de Paris, em reforço ao combate ao aquecimento global.


No entanto, o desafio que se coloca para Biden, nesse âmbito, é o de contribuir para a renovação do multilateralismo, com a geração de mudanças significativas nas diretrizes do processo de globalização. O resultado eleitoral nos EUA, com Trump, mesmo derrotado, auferindo votação expressiva, e a força política relevante de movimentos que, em diversos países, compartilham a posição anti-globalista do atual presidente norte-americano revelam que largas parcelas da população mundial se veem excluídas dos benefícios propiciados pela integração econômica internacional.


A retomada da ainda indispensável liderança dos EUA nos fóruns e ações voltados à condução da agenda global, que a vitória de Joe Biden sinaliza, deverá, assim, estar sintonizada com a prioridade para o enfrentamento da desigualdade social, em todos os seus aspectos (econômico, racial, nacional etc.). Da mesma forma que fez a União Europeia ao aprovar em meados deste ano o programa Next Generation, que, baseado na mobilização de recursos financeiros de grande monta, confere ênfase ao combate ao desemprego. Caso contrário, haverá a manutenção e mesmo a acentuação do quadro de forte instabilidade social que caracteriza o mundo contemporâneo.


Vindo a se materializar, essa nova perspectiva para as relações internacionais – e a expectativa de que possa produzir resultados positivos em curto espaço de tempo, com avanços importantes no âmbito da cooperação multilateral –, tende a ter impacto positivo no Brasil. Neste cenário, como em outros lugares do mundo, haverá o enfraquecimento de fatores materiais e retóricos que ajudaram a impulsionar as posições retrógradas e isolacionistas patrocinadas por Bolsonaro e seu governo. Mas, para isso, é preciso que as organizações políticas brasileiras de vocação democrática se reconectem com a sociedade, restaurando sua credibilidade por meio da reafirmação de valores éticos e do oferecimento de propostas de gestão viáveis e que sejam compatíveis com as mudanças de que o mundo urgentemente necessita.

Pedro Dallari, Professor Titular de Direito Internacional do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo.

Veja a intervenção de Pedro Dallari no debate sobre as eleições americanas promovido pelo Forum Demos:

“O momento Biden Harris: que oportunidades?” por Maria Hermínia Tavares de Almeida

O Brasil e a presidência de BidenFosse outro o governo brasileiro, a eleição de Joe Biden seria uma oportunidade de ouro para ampliar a presença internacional de nosso país.

O compromisso forte do democrata recém-eleito com a sustentabilidade, expresso na prometida volta ao Acordo de Paris e em seu avançado programa de recuperação econômica, certamente aumentará a importância e a efetividade dos diversos regimes internacionais criados para evitar a catástrofe ambiental que nos espreita.

País de renda média e escassos recursos de poder duro, o Brasil tem trunfos importantes que o qualificam para estar entre as nações que decidirão o futuro do planeta. De um lado, o país ostenta matriz energética menos dependente de combustíveis fosseis do que os Estados Unidos, a União Europeia ou a China: 82,6% de sua energia elétrica provem de fontes renováveis – hidrelétrica, eólica, solar e outras. Apenas a Noruega nos supera na utilização de fontes renováveis de produção deenergia elétrica.

De outra parte e mais importante, está em nossas fronteiras — e sob nossa responsabilidade — a maior parte da vasta floresta amazônica, cuja preservação é essencial à mitigação da mudança climática, à manutenção do sistema de águas doces na América do Sul, à defesa da biodiversidade planetária e da riqueza do patrimônio cultural da humanidade para a qual contribuem as populações originárias que ali habitam.

Assim o reforço das instituições multilaterais voltadas à sustentabilidade, com o retorno dos Estados Unidos, beneficiaria o protagonismo internacional do Brasil. Além do mais, o apoio externo, na forma de investimentos ou cooperação científica e técnica, poderia ser de grande valia para conter a predação ilegal da floresta e seus recursos por madeireiros, garimpeiros e a fatia mais atrasada do agronegócio da soja e do gado. Ele seria também crucial para o desenvolvimento da bioeconomia na região amazônica e para impulsionar o país na direção de se tornar senão uma potência verde, pelo menos uma nação com grande projeção nesta frente.

Mas, o presidente da República é Jair Bolsonaro que destruiu a política ambiental brasileira, protege os desmatadores ilegais e pôs a pique a respeitável política externa brasileira, fazendo do país um pária internacional. Até 2022, o melhor que pode acontecer é que alguma pressão diplomática americana e europeia ajude as forças democráticas do país a conter estrago maior.

Maria Hermínia Tavares de Almeida, Cientista política.

Veja a intervenção no debate promovido pelo Forum Demos:

“O momento Biden Harris: que oportunidades?” por Susana Peralta

“O podcast diário “Today in Focus” do britânico The Guardian, na passada quinta-feira dia 19 de novembro, partiu do mote “How will Joe Biden reset US relations with the world?”. O podcast começava com uma recordação do discurso de Joe Biden na 55ª Conferência de Segurança de Munique, organizada em fevereiro de 2019. Logo nos primeiros segundos, depois de cumprimentar a anfitriã Angela Merkel, Biden diz o seguinte: “Deixem-me dizer isto logo no início, para não haver mal entendidos. Eu apoio fortemente a NATO. Acredito que é a aliança militar mais significativa na história mundial. É a base a partir da qual temos conseguido manter paz e estabilidade nos últimos 70 anos. É o coração da nossa segurança coletiva.” Biden continua dizendo que acredita na importância de oferecer um apoio forte à União Europeia, acrescentando que a UE “é mais do que uma união económica; é crítica para a segurança e estabilidade”. Neste discurso, Biden reconhece que estamos num ponto de inflexão da estabilidade internacional e critica abertamente a posição recente do seu país, avisando que a liderança americana só é possível tendo os seus aliados a seu lado. E deixa uma promessa: “We will be back.” A tradução livre é minha, mas o discurso está disponível integralmente no YouTube, para quem quiser ouvir na primeira pessoa o presidente eleito. (https://www.youtube.com/watch?v=Ab470h3X8I8)
No mundo globalizado em que vivemos, os grandes desafios só podem ser enfrentados numa lógica multilateral: a emergência climática, a defesa da democracia liberal, a saúde pública, a desigualdade galopante, a necessidade de regular os paraísos fiscais, verdadeiros sifões por onde se esvaem recursos críticos para as economias e onde se lava dinheiro sujo. A mudança de atitude do “America first” de Trump para o “We will be back” de Biden é um lufada de ar fresco para a UE.
Mas é importante sermos realistas. Joe Biden e a vice-presidente eleita Kama Harris governarão um país divido, onde Trump obteve mais de 47% do voto popular. O controlo do Senado será decisivo nas escolhas mais críticas que a presidência Biden / Harris terá de fazer. No curto prazo, vai ser necessário que o Senado confirme as escolhas da presidência para a administração. Estamos a falar dos lugares mais importantes na equipa da presidência: os Secretários de Estado, do Tesouro, da Defesa, do Interior, bem como o Procurador Geral. O controlo do Senado está dependente das eleições na Georgia, em janeiro. A confirmar-se uma maioria republicana, será a primeira vez desde a presidência de George Bush em1989 que um presidente eleito começa o mandato sem controlar o Senado. Mesmo depois de atravessada esta batalha inicial, para a qual alguns senadores republicanos já fizeram saber que não darão carta branca à equipa Biden / Harris, haverá decisões nas quais o Senado será fundamental.
Na frente da emergência climática, Biden tem o objetivo de atingir a neutralidade carbónica em 2050, com um investimento de 1,7 biliões de dólares que também ajudaria a economia a recuperar da crise pandémica – aqui o Senado será fundamental e será uma batalha política difícil. Biden já prometeu que os EUA voltariam ao Acordo de Paris em fevereiro. Também anunciou que vai reverter a saída dos EUA da Organização Mundial de Saúde. Estas duas decisões não necessitam do Senado. Se a futura administração Biden aumentar o financiamento desta organização multilateral e ajudar a repensar a gestão global de crises pandémicas – agora que sabemos o que elas doem – é uma ótima notícia para a UE. Também poderá ajudar a equilibrar os pratos da balança entre a China, o grande doador atual da OMS, e as democracias liberais, que devem ter uma palavra a dizer nesta organização tão importante. A UE ganha um aliado para fazer frente a líderes autoritários que foram ganhando protagonismo na era Trump – com Putin à cabeça. Mas não tenhamos ilusões: sem uma política externa concertada e consequente da parte do bloco europeu, o aliado americano não poderá fazer milagres.
Finalmente, para a UE e não só, a chegada de Kamala Harris à Casa Branca é um momento inspirador. É a primeira vez que uma mulher entra numa equipa presidencial. Um sinal de esperança de que, mesmo depois de quatro anos de uma presidência fraturante, há lugar para a diversidade étnica e de género numa das instituições mais poderosas do mundo. Neste 2020 tão devastador a vários níveis, é reconfortante perceber que a política ainda serve para estas pequenas-grandes conquistas.”
Susana Peralta, Professora de Economia na Nova SBE

Como tirar partido do momento Biden/Harris e a UE como player neste novo contexto do mercado internacional:

“O momento Biden Harris: que oportunidades?” por Renato Janine Ribeiro

“Falando a partir do Brasil, é inevitável priorizar o enfraquecimento das lideranças de extrema-direita no mundo – entre elas, Jair Bolsonaro – decorrente da derrota de Trump e de sua substituição por um político com larga experiência na construção de pontes, lá onde os extremistas fomentam guerras. Um primeiro efeito da vitória de Joe Biden será certamente uma exigência internacional mais forte no que diz respeito à preservação do meio ambiente, o que, na América do Sul, significa essencialmente a Amazônia, da qual o Brasil detém a maior parte. É possível ou mesmo provável que essa preocupação inclua também a exigência de respeito aos indígenas daquela região, que estão sofrendo com o atual governo brasileiro.
Nos outros pontos da agenda política, penso que Biden poderá, como alguns líderes europeus, valer mais como exemplo do que como influência. Não penso que atue efetivamente para proteger direitos sociais e menos ainda trabalhistas (sendo que estes últimos praticamente não existem nos Estados Unidos), áreas em que a ação deletéria do governo Bolsonaro se faz sentir com vigor.
Mas, no caso urgente da pandemia, Bolsonaro perdeu seu grande aliado na luta contra a ciência e a vida. Ficará mais difícil para o presidente brasileiro continuar pregando contra a vacina e as formas de cuidado que protejam as pessoas, sobretudo as mais vulneráveis.
Nas relações exteriores, a profética frase do chanceler brasileiro há poucas semanas – gabando-se de que o Brasil sob direção dele e de Bolsonaro estava-se tornando “um pária” entre as nações – tem tudo para se realizar. Contudo, não penso que o soft power conquistado nos governos Lula esteja morto e enterrado. Penso que, se e quando o Brasil voltar a ter um governo democrático, este poderá fazer valer os ativos desenvolvidos na profícua gestão de Celso Amorim nas relações exteriores. Não será fácil, mas o período áureo da projeção brasileira no mundo não será facilmente esquecido.”

“O momento Biden Harris: que oportunidades?” por Gonçalo Coutinho Marcelo

“Pergunta Álvaro Vasconcelos de que forma pode o “momento Biden” ser aproveitado na Europa e em Portugal, que sinal é que ele nos envia. Para ser sincero, tenho algumas dúvidas sobre quão progressista será este “momento” ou sobre quais as reais hipóteses de sucesso da agenda Biden no seio de uma América profundamente dividida e possivelmente bloqueada no Senado. Contudo, pelo menos uma coisa o “momento Biden” significa, que é a derrota do “momento Trump” (ainda que não necessariamente, e infelizmente, do Trumpismo) e isso tem de ser celebrado. Penso que o sinal é claro: o populismo de direita pode e deve ser travado. E é claro que isso deve ser feito antes que cheguem ao poder e, com isso, vão paulatinamente destruindo os princípios do estado de direito. Sendo assim, e por mais improvável que este voto possa ser, parece-me que uma forma adequada de a Presidência portuguesa da União Europeia aproveitar este “momento” seria o de continuar a pugnar, e de forma mais veemente do que no passado, para que os Estados-membros não possam colocar em causa os princípios do Estado de direito. A condicionalidade da atribuição dos fundos Europeus ao respeito por estes princípios é talvez um começo mas, como sempre, a fórmula de compromisso a que se chegou é demasiado edulcorada. Ora, respeitar a democracia e o estado de direito, e restaurar alguma possível pretensão de legitimidade moral que a UE possa ter, passa por não admitir no seu seio quem paulatinamente os destrói. Hoje isso acontece a Leste, amanhã, quem sabe onde poderá acontecer. Mas se Trump já passou, também os outros passarão.”

“O momento Biden Harris: que oportunidades?” por Francisco Seixas da Costa

“Só o tempo nos dará bem a noção do tempo, e dos estragos feitos nesse tempo, que estes quatro anos de Donald Trump fizeram perder ao mundo. No que toca à Europa, de cuja unidade no pós-2ª Guerra Mundial os Estados Unidos foram o grande promotor, a América de Trump revelou-se um aliado hostil, agravando o relacionamento com os parceiros e favorecendo mesmo alguns fatores desagregadores, como o Brexit. A meu ver, a grande distância, contudo, a mais gravosa atitude de Trump foi a sua oposição ao Acordo de Paris, um passo vital para a sobrevivência da humanidade, que o presidente americano tornou refém de interesses económicos de curto prazo. A reversão dessa insensatez foi já anunciada por Joe Biden. Esperam-se também da nova administração, ainda na área muitilateral, gestos concretos para recuperar o caos que os EUA induziram na funcionalidade da Organização Mundial de Comércio, bem como na revitalização e credibilização da Organização Mundial de Saúde. E um regresso à Unesco. No plano bilateral, veremos se a sintonia que os democratas têm com os republicamos na questão da China se expressa ou não num discurso diferente. O possível regresso dos EUA ao acordo gizado pela administração Obama, com aliados europeus, para conter as ambições nucleares do Irão é outra das questões a observar. Do mesmo modo, como se comportará a nova América quanto a outros “avanços” entretanto ocorridos no cenário do Médio Oriente. A embaixada dos EUA volta a Tel-Aviv? E as relações com a Rússia? Depois das “cumplicidades” de Trump com Putin, que fará Biden? E a Coreia do Norte? E a Venezuela? E Cuba? E Guantanamo? A prometida “Cimeira das Democracias” pode fazer perigar a inclusividade da ordem internacional, tutelada pelas Nações Unidas, introduzindo uma nova clivagem à escala global? Até ver, António Guterres tem razões para dormir descansado – e razões para crer que o poderá continuar a fazer em Nova Iorque no próximo quinquénio.”

A intervenção de Francisco Seixas da Costa:

A hora da Democracia Inclusiva

 

“Proteger a nossa democracia exige luta, exige sacrifício.” John Lewis 

No seu discurso de vitória, a poderosa vice-presidente eleita Kamala Harris começou por citar o ativista dos direitos cívicos John Lewis e lembrou as mulheres que “tanto lutaram e se sacrificaram por igualdade, liberdade e justiça para todos (…)”, em síntese, por uma democracia inclusiva.

A luta para defender a democracia começou no dia seguinte à tomada de posse de Trump, na extraordinária Marcha das Mulheres. Este poderoso movimento cívico manteve-se mobilizado nos 4 anos que se seguiram, lutando não só pelos seus direitos, mas pela inclusão de todos, incluindo os migrantes, na sociedade do “bem-estar” — “construam pontes, não muros”, era a palavra de ordem. 

Trump foi derrotado pela força da sociedade civil americana, dos movimentos sociais — desde a Marcha das Mulheres ao Black Lives Matter —, pela mobilização de milhares de ativistas, pelo empenho dos media de referência na defesa da verdade, dos cientistas na luta contra o obscurantismo e pela resistência dos servidores públicos.

A unidade do centro e da esquerda à volta da candidatura Biden é um exemplo para países, como o Brasil, onde a extrema-direita está ainda no poder, ou, como tem acontecido na Europa, onde tenta influenciar o poder, tornando indispensáveis os seus votos para uma direita pronta ao compromisso (veja-se o que se passou nos Açores).

A unidade do centro e da esquerda à volta da candidatura Biden é um exemplo para países, como o Brasil, onde a extrema-direita está ainda no poder, ou, como tem acontecido na Europa, onde tenta influenciar o poder, tornando indispensáveis os seus votos para uma direita pronta ao compromisso (veja-se o que se passou nos Açores).

A esquerda sozinha não teria vencido estas eleições, como também não teria o centro. O programa progressista de Biden/Harris de corte com a política reacionária e neoliberal de Trump, para enfrentar a desigualdade económica, cultural e geográfica – como dobrar o salário mínimo/hora de 7 para 15 dólares e atingir a neutralidade carbónica em 2050, como a UE – foi sufragado por mais de  75 milhões de eleitores. A pandemia e a recessão estão a agravar gravemente  as desigualdade.

Os Estados Unidos são um país injusto, um dos mais desiguais da OCDE, onde 10% da população detém 70% da riqueza. A desigualdade é um dos principais factores que explicam o sucesso em 2016 do discurso populista de Trump. Combater a desigualdade, agravada pela pandemia, é essencial para vencer as fracturas que ameaçam a democracia americana. A aliança entre centristas e progressistas, garante de um programa de inclusão democrática e de aplicação do pacto ecológico, é essencial para o sucesso do governo Biden.

Para aprovar o seu plano económico verde de reconstrução no valor de 2 triliões de dólares, Biden precisará também do apoio do Senado. O que só estará assegurado se os  democratas ganharem os dois lugares  que falta eleger na Geórgia.

Trump foi derrotado pela força da sociedade civil americana, dos movimentos sociais — desde a Marcha das Mulheres ao Black Lives Matter —, pela mobilização de milhares de ativistas, pelo empenho dos media de referência na defesa da verdade, dos cientistas na luta contra o obscurantismo e pela resistência dos servidores públicos.

Os cínicos de profissão e os antiamericanos por tradição procuram minimizar a vitória de Biden/Harris com a convicção de que os Estados Unidos estão condenados ao neoliberalismo de Reagan e ao imperialismo armado de Bush . Porém, existe outra hipótese, a de que os desafios façam o homem e que Biden, perante a gravidade da crise, fique para a História como um novo Roosevelt, de quem diz inspirar-se.

O sucesso da nova administração será o estímulo necessário para reverter o processo de autocratização, a “força do exemplo” que Salazar temia (e que explica o seu antiamericanismo), quando, nos anos 30, o New Deal de Roosevelt transformou a América na democracia que “deu certo” ao encontrar a resposta inclusiva para a maior depressão económica do século xx.

Ao fazerem do combate ao racismo uma prioridade, ao proporem um modelo multicultural assente numa laicidade tolerante, estarão também a apontar o caminho para vencer as correntes identitárias que fazem do elogia da supremacia civilizacional um instrumento de  conquista do poder. 

Biden anunciou uma cimeira das democracias, propósito que causa inquietude às ditaduras e aos líderes da extrema-direita e aos que temem que a cimeira seja um instrumento para uma nova bipolaridade 

Aceitar que os Estados Unidos já não são uma potência hegemónica não é fácil para muitos, incluindo no Partido Democrata, mas da mesma maneira que o America First de Trump fracassou, e uma vez que ninguém quer regressar à tragédia das “guerras democráticas de Bush”, uma tentativa de regresso à hegemonia benigna dos anos 90 está igualmente condenada ao fracasso.

O combate à pandemia e ao aquecimento global são desafios que a América não pode resolver sozinha, pelo que que regressará à OMS e ao Acordo de Paris para limitar aquecimento global, prioridades de Biden/Harris que prometem promover um multilateralismo eficaz, porque inclusivo, o que impõe aceitar o novo peso da China e da Índia, ou seja, um mundo pós-ocidental. 

No Médio Oriente, o propósito de regresso ao acordo nuclear com o Irão indicia o fim do compadrio de Trump com as ditaduras da região, unidas à volta da Arábia Saudita e deverá colocar os direitos dos palestinos na agenda da nova administração americana. 

Para vencer o obscurantismo, o império da mentira e do nilismo. é necessário que as democracias liberais sejam mais inclusivas, vencendo as graves fracturas que a economia neoliberal e a arrogância  das suas elites cria, mas também mais inclusivas do ponto de vista internacional, aceitando que o tempo da hegemonia ocidental terminou. 

Contrariar a vaga autocrática não depende apena dos americanos. A União Europeia tem de ouvir as vozes que vêm de lá, em particular do movimento antirracista, abandonando as políticas anti-imigração, aceitando a diversidade cultural e sancionando os Estados que violam o estado de direito. Ora, surpreendentemente, a União, por proposta francesa, prepara-se para tomar medidas restritivas que descriminam as comunidades muçulmanas, em nome da obrigação de integração. 

A luta para reverter a vaga autocrática teve uma primeira grande vitória, mas o caminho ainda é longo e se depende, em boa medida, do sucesso da administração Biden, depende ainda, em maior medida, da luta e dos sacrifícios de muitos pelo mundo inteiro.

Para vencer o obscurantismo, o império da mentira e do nilismo. é necessário que as democracias liberais sejam mais inclusivas, vencendo as graves fracturas que a economia neoliberal e a arrogância  das suas elites cria, mas também mais inclusivas do ponto de vista internacional, aceitando que o tempo da hegemonia ocidental terminou. 

Versão revista do meu artigo do Público de 11 de Novembro de 2020

Momento para respirar e comemorar : Biden Harris eleitos!

Forum Demos nasceu da preocupação com o futuro da democracia que a vitória de Trump tinha criado. Como escrevemos no Manifesto:

A eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, o crescimento da extrema-direita xenófoba na Europa, a recusa da hospitalidade europeia relativamente aos que fogem da guerra nas nossas fronteiras, os milhares de mortos sepultados no Mediterrâneo, a repressão brutal da oposição em vários países árabes, as vitórias eleitorais de conservadores religiosos no Brasil. Esta penosa série de acontecimentos, que alerta para as ameaças que pairam sobre a democracia, é a razão para o lançamento do Fórum Demos.

A vitória de Biden e Harris é uma etapa importante nesta luta. A extrema-direita fica enfraquecida, mas ainda está no poder no Brasil, na Índia, na Hungria, e representada em parlamentos de vários países europeus e mesmo em Portugal .

Os nossos objectivos continuam a ser a defesa da democracia , os direitos humanos e o multilateralismo contra o racismo , o sexismo e a desigualdade.

Agora é a hora para respirar e comemorar !

Outro Futuro é possível: Abraçar o momento Biden- Harris

 

Uma presidência Biden- Harris pode reverter a vaga autocrática e trava a destruição da ordem multilateral. Para a União Europeia será uma excelente notícia.

Em 2016, a vitórıa de Trump foi uma notícia dolorosa, tudo em que acreditávamos, as conquistas democráticas da minha geração estavam ameaçadas por uma contra-revolução obscurantista, pela emergência de uma corrente política a que algos têm chamado nacional populista e a que eu, com Humberto Eco, classifico de  neo-fascista.

 A democracia já regredia, mas foi a vitória de Trump que lhe deu o sentido trágico de vaga autocrática: o Brasil elegeu um reacionário, o Reino Unido abandonou a UE ,a extrema-direita ganhou vento na Europa e as forças mais reaccionárias do Médio Oriente encontraram em Trump um aliado. 

O regime de regras e direitos e as instituições internacionais que o sustentam foram ameaçados pelos Estados Unidos, transformados em Estado pária. Putin sentiu que tinha carta branca para destruir a Síria, Erdogan para reconstruir o Império Otomano, a Arábia Saudita para massacrar os iemenitas e decapitar opositores.

Em 2016, Hillary Clinton inscrevia-se na corrente do neoliberalismo adocicado de Bill Clinton e  Blair e considerava os trabalhadores que sofriam com os efeitos de uma globalização desregrada, que temiam a concorrência da China, como deplorables. Biden-Harris prometem romper com essa herança. 

Quatro anos depois, perante uma pandemia devastadora, Biden, o centrista, incorporou as aspirações dos movimentos populares, das marcha das mulheres ao Black Lives Matter e de milhares de iniciativas cívicas nacionais e comunitárias. Chamou para a sua campanha o talento e o compromisso social e ético de muitos dos seus líderes e disse-lhes querer ser “o Presidente mais progressista desde Roosevelt.” O que explica ter passado a defender os elementos essenciais do Green New Deal, da redução das emissões de CO2 ao combate às desigualdades sociais. 

Muitos dos que o apoiaram continuarão mobilizados e a exigir o cumprimento  dessas promessas. 

O Partido Democrata é hoje  menos dependente dos “lobos de Wall Street”, mais capaz de combater o racismo e de promover um modelo multicultural, assente na igualdade de direitos e numa laicidade tranquila.A escolha de Kamala Harris, que se define como afro-americana e no Senado defendeu posições progressistas, é uma prova da evolução do Partido Democrata.  

Para aplicar o seu ambicioso programa o Partido Democrata terá também, de conquistar a maioria no Senado. Mas, em todo o caso, o impacto da vitória de Biden será enorme.

A derrota de Trump ajudará a desconstruir a narrativa obscurantista, o mundo das mentiras e  das teorias conspirativas, enfraquecendo líderes como Bolsonaro ou Orbán.

Com Biden os Estados Unidos voltarão à Organização Mundial de Saúde e ao Acordo de Paris; regressarão também ao acordo de desarmamento nuclear com o Irão, nas bases de 2015, e darão continuidade aos acordos de controlo de armamento com a Rússia. 

Quanto à China, Biden, sem confronto nem complacência, deverá optar pela resolução das divergência no quadro multilateral, de forma a prevenir uma guerra (fria ou mortífera). 

Será fundamental tirar partido do momento político criado por uma vitória democrata para reformar as organizações multilaterais, tornando-as mais inclusivas e eficazes. 

Esperemos que  a UE se aproprie do momento- uma nobre ambição para a Presidência portuguesa.

 É imperioso aproveitar o regresso dos Estados Unidos para reformar a OMS e lançar, a partir das Nações Unidas, um plano global para vencer a pandemia, superar a recessão e enfrentar a urgência climática.

Outro futuro será, assim, possível. 

Sobre Trump, está tudo dito. 

Versão ligeiramente revista do artigo do Público de 3 de Novembro de 2020

WEBINAR – E.U.A. que futuro? As eleições mais importantes do pós-Guerra


Dia 06, 18h00 ( Lisboa), 15h00 ( São Paulo)
 – Com transmissão em direto no canal Forum Demos, no YouTube https://www.youtube.com/results?search_query=forum+demos;

As eleições americanas de 3 de Novembro são as mais decisivas para o futuro da ordem internacional e da democracia, desde a II Guerra Mundial. A presidência Trump, que chega ao fim, fez os Estados Unidos tornarem-se numa séria ameaça para as instituições multilaterais, abandonando, em plena pandemia, a OMS – depois de já terem abandonado a UNESCO, os Acordos de Paris e o Tratado Nuclear com o Irão. Neste contexto, importa debater os resultados eleitorais. Se Trump for reeleito, que impacto terá na ordem internacional e no futuro da democracia? Uma vitória de Biden poderá ser uma oportunidade para a reforma do sistema multilateral? Quais seriam as primeiras prioridades? Que impacto teria na contenção da ascensão do populismo? Algumas das questões.

O debate será moderado por:

Álvaro de Vasconcelos – fundador do Forum Demos;

Renato Janine Ribeiro – professor titular, ética e filosofia política, Universidade de São Paulo (USP);

Painel:

Francisco Seixas da Costa – diplomata;

Gonçalo Marcelo – professor convidado na Católica Porto Business;

Maria Hermínia Tavares de Almeida – cientista política, ex-diretora do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo;

Pedro Dallari – professor titular da Faculdade de Direito da USP, coordenador da Comissão Nacional da Verdade;

Susana Peralta – professora na Nova SBE