Idiotas e idolatras

Retomo aqui na íntegra o artigo, aqui já parcialmente publicado, como contributo para o webinar de 22 Outubro: A democracia perante o desafio do racismo da extrema-direita: que resposta?

A narrativa de um país pós-racial dificulta o combate ao racismo que é hoje a grande ameaça à vida democrática, ideologia que é da extrema-direita defensora da supremacia branca. O mesmo se passa, aliás, no Brasil.

Depois das “ greves climáticas”, assistimos agora a um poderoso movimento  antirracista. O que essas duas revoltas de dimensão planetária questionam é  a “a conceção de vida subjacente à economia, à política e ao conjunto das relações humanas”, as mesmas razões que levaram Paul Ricouer a classificar o Maio de 68 como uma revolução cultural.

O que o movimento antirracista propõe é um despertar para a realidade da discriminação racial, tanto na sua forma violenta como insidiosa, e uma análise crítica ao passado de colonialismo e esclavagismo e às consequências sociais da sua glorificação.

Para alguns, o debate é sobre estátuas e vandalismo, mas o verdadeiro debate incide sobre os mitos de uma identidade nacional em que uma parte significativa da população não se pode rever. Portugal, como antiga potência colonial, não podia escapar a esta revolução cultural. 

A  persistência da definição identitária do «ser português», construída pelo discurso nacionalista salazarista, é atestada pelos comentários insultuosos aos lúcidos artigos de Ana Sá Lopes e de Rui Tavares, no Público, ou às publicações nas redes sociais, como às que questionam o mito do Infante D. Henrique. “Idiotasé um dos insultos mais recorrentes… Naturalmente, sem saberem que estavam a utilizar o termo no sentido que lhe deu Dostoiévsky no seu livro O Idiota, sobre um personagem que por ter uma perigosa e subversiva tendência para dizer a verdade e recusar o niilismo assim era considerado.

Não, não se trata de procurar apagar a História quando se questiona o mito do Infante D. Henrique e se lembra que nunca houve uma Escola de Sagres, ou que uma das principais motivações do Infante na expansão marítima era o tráfico de escravos, como demonstraram  os Historiadores Duarte Leite ou Vitorino Magalhães Godinho, que, como este último lembrou, estudaram as fontes em vez de se extasiarem com as glórias. 

Não se trata de querer fazer desaparecer os monumentos — com os quais o Salazarismo quis santificar, para sempre, os conquistadores coloniais, nem, muito menos, se pretende vandalizar “obras de Arte”. O que se pretende é desconstruir a base ideológica do racismo português, o discurso sobre o carácter não racista do “Português” — que não é um mito da direita ou da esquerda, mas antes um mito identitário. Poucos são os que o contrariam, ainda ouvimos recentemente Rui Rio, depois de ter tido um papel importante no combate à pandemia, a reafirmá-lo. 

Para alguns, o debate é sobre estátuas e vandalismo, mas o verdadeiro debate incide sobre os mitos de uma identidade nacional em que uma parte significativa da população não se pode rever.  

O discurso salazarista, sobre a missão civilizadora do império, encontrou uma fonte de inspiração no sociólogo brasileiro Gilberto Freire, que desenvolveu o luso-tropicalismo para sustentar a sua visão do Brasil como país pós-racial, além-racial. Daí para o Portugal pós-racial foi o salto que deram Gilberto Freire e o regime, para se oporem ao processo de descolonização. Salazar abandonou, nos anos 60, o discurso racista com o que em 1933 da “proteção das raças inferiores cujo chamamento à nossa civilização cristã é uma das conceções mais arrojadas e das mais altas obras da colonização portuguesa”, mas manteve as práticas do trabalho forçado dos negros e a violência racial, como, aliás, pude constatar nos anos que vivi em Moçambique.

Ora, a narrativa de um país pós-racial dificulta o combate ao racismo que é hoje a grande ameaça à vida democrática, ideologia que é da extrema-direita defensora da supremacia branca. O mesmo se passa, aliás, no Brasil.

Ao olhar para o passado com olhar crítico, não estamos a tirar a identidade a ninguém, estamos a consolidar a identidade cidadã que fomos construindo desde o 25 de Abril, assente nos direitos fundamentais, na solidez da nossa democracia, no consenso partilhado pela maioria da opção europeia. Identidade que permite a análise crítica da nossa História e que não pressupõe uma referência cultural ou religiosa única, porque dela não depende.

Muitos continuam a dizer que “os negros eram bem tratados”, no Portugal colonial, uma visão paternalista das relações com africanos sem direitos, um dos indícios da amnésia histórica que, como uma verdadeira doença, se alastra para as gerações pós-coloniais.

A revolução política do 25 de Abril pôs termo ao Colonialismo, a revolução cultural que desconstrói os mitos que escondiam a sua brutalidade continua a percorrer o seu caminho, como o atesta a decisão de erigir um monumento às vítimas da escravatura em Lisboa, no antigo mercado de escravos do Campo das Cebolas. O que, hoje, o movimento antirracista exige é uma aceleração dessa revolução. 

Não nos devemos envergonhar ao descobrir que muitos dos nossos ídolos eram menos “santos” do que pensávamos. O que nos deve envergonhar é a persistência do racismo e o encobrimento, em nome do nacionalismo, de crimes contra a humanidade, como a escravatura, a inquisição e o colonialismo, e o que nos deve orgulhar é a capacidade de Portugal em garantir a igualdade e os direitos fundamentais de todos os que cá vivem.

É através de um estudo rigoroso do passado, de um trabalho de memória, que construiremos um futuro melhor.

Este artigo pode ser também lido no Público de 22 de Junho de 2020

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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