Novilíngua, fake news e outras ilusões, por Sofia Craveiro

A simplificação do discurso tem como consequência o desprezo do pormenor. Reduzir realidades complexas a comparações diretas e descontextualizadas tem como resultado inevitável a incompreensão de um grande universo de realidades e situações. É assim que nasce o populismo, apoiado na propagação crescente de desinformação.

Na icónica obra de George Orwell, “1984”, esta realidade é assustadoramente bem retratada. No romance, o Partido apoiava a sua hegemonia na manipulação da verdade. A propaganda do Grande Irmão apoiava-se, não apenas em notícias manipuladas e repetidas até à exaustão, como napermanente alteração de arquivos e registos, por forma a que estes espelhassem a confirmação de cada movimentação do Partido.

Além do sufocante controlo de toda a “informação” e conteúdo cultural, estava a ser aperfeiçoada a Novilíngua, um novo idioma simplificado que resultava da supressão de palavras, que eram substituídas através da justaposição de outras. Esta ferramenta tinha como último propósito eliminar completamente conceitos ligados ao pensamento crítico individual, e simplificava cada vocábulo de forma a ser impossível exprimir ideias contrárias ao Partido. Funcionava como uma gradual e profunda alteração do raciocínio crítico, que tinha como último objetivo eliminá-lo por completo. O exemplo de “1984” como alegoria da realidade não é novo, mas revela-se sempre pertinente.

Também hoje presenciamos os efeitos da simplificação intencional do discurso, mas em vez da supressão de vocábulos, assistimos ao desrespeito flagrante pela verdade e à desconsideração de argumentos e informação relevante. Esvaziam-se explicações complexas, dando primazia à noção simplista e radical do mundo. A desinformação que prolifera nas redes sociais está apoiada em mensagens sensacionalistas apelativas, criadas e formuladas para serem facilmente perceptíveis.

A complexidade da ciência, da história e da política democrática é desvalorizada de forma a perder toda a sua credibilidade. O verdadeiro raciocínio crítico dos cidadãos está, por isso, a perder-se aos poucos. A procura da verdade tornou-se subjetiva. Há uma realidade alternativa no “feed” de cada um, potenciada por algoritmos desenhados para agradar a todos.

A capacidade de filtrar e julgar conteúdos e opiniões está a dissolver-se no meio do ensurdecedor fluxo de informação no meio digital, que dá prioridade à rápida captação de atenção do utilizador. A rapidez de acesso e partilha nos meios digitais não é compatível com a necessária demora da análise crítica e comparativa. O discurso simplificado e redutor – típico de populistas e demagogos – acaba por dominar. Na era da informação, aumenta a iliteracia mediática, apoiada na personalização de conteúdos.

A grande diferença entre a sociedade contemporânea ocidental e o mundo de “1984” é a crença atual no poder individual. O acesso aos conteúdos digitais, à informação, às notícias é virtualmente possível a todos, o que reforça a ideia de julgamento crítico e democrático. Mas, sendo que cada conteúdo é adaptado a comportamentos digitais individuais (muitas vezes irrefletidos), a avaliação da informação está sempre sob inevitável influência, potenciada pela ideia de pertença a uma comunidade like-minded (veja-se o exemplo dos “terraplanistas”).

A liberdade de informação fica, por isso, fortemente condicionada. O necessário debate tolerante, que possibilita a democracia, fica colocado em causa pela ausência total de cedências. Os indivíduos vêm nos factos versões distintas da realidade. A informação não é mais analisada, mas adaptada conforme as crenças já existentes.

O discurso moderado desaparece gradualmente, sendo substituído por posições extremistas, apoiadas na simplificação radical. A pluralidade, a complexidade e diversidade sociais são desvalorizadas e descredibilizadas. Gera-se medo da diferença. Nasce o radicalismo, o negacionismo, o cepticismo perante as instituições democráticas, que perdem força face ao facilitismo aparente do populismo.

Não é viável simplificar um mundo que se quer complexo e plural. A sociedade democrática carece de debate profundo e rigoroso. Simplificar a realidade minimiza a sua compreensão e conduz ao radicalismo. É tempo de alargar o pensamento, e não de reduzi-lo.

REASON AGAINST FANATICISM

To overcome such destructive radicalism, we must all unite regardless of our religious beliefs  or lack of them within the confines of collective secularism for, as Voltaire argued two-and-a-half centuries ago, secularism implies tolerance and is, therefore, the way to prevent wars of religion. 

There can be no question but that the murder of Samuel Paty just outside his school’s gate, because he had given a lesson on the topic of ‘freedom of expression’, was a monstrous crime.  

The subsequent attack and decapitation of his body, which his murderer, Abdoullah Anzorov, then immediately posted on the Internet, accompanied by the cry “Allah is great!” was an extreme manifestation of the obscurantism that proliferates throughout our societies today.  It is a phenomenon that ranges from radical Islamism to the currents of white supremacy, protected through the shelter of social networks and hate speech.

Faced with our own horror at such an unthinkable action, our natural reaction would be emotional disgust and rejection of both the perpetrator and what he or she had done.  However, against such enemies of freedom, reason and knowledge are the most effective weapons.

Abdoullah Anzorov, 18 years old, had not even known his victim and had had to rely on passing pupils at the school to identify Samuel Paty.  We know little of him except that he was of Chechen origin and that he had grown up in France.  It is clear, however, that he matched the profile that has emerged, and that has been ably described by Olivier Roy, of those responsible for such incidents since the attack on the Paris Metro in 1995 and up to the Charlie Hebdo and kosher supermarket murders in January 2015. 

The majority are young, rootless nihilists, hostages to the virtual world of the Internet, and the hatred and conspiracy theories it houses, finding in the extremism of Al-Qaïda and Da’sh a justification for their raison d’être.  It is not religion in itself that inspires them, however, rather it is the violence that is stimulated by extremism that gives them meaning. 

They grew up in a social environment in which the only personal and redemptive virtue would be to appear on a social network as a result of their own violent resentments, even after their own deaths. 

Fanaticism also emerges from social exclusion and inadequate, precarious education, where the concept of the Republic is not synonymous with equality and fraternity.

They self-radicalise through the images of violence and death in the Middle East that they discover on the Internet.  They come to prize the violence of war in Syria and Iraq, dismissing respect for the innate human right to life and rejecting the illegitimacy of violence against civilians. And Chechnya, after all, was the precursor to Syria, as the forerunner of the macabre spectacle of Putin’s wars of extermination.

We must, therefore, find ways to isolate those who preach fanaticism, whilst at the same time combating anti-Muslim racism and the extreme-right organisations which feed on it.  Yet, so far, France, like other countries, has not yet found an adequate response to this conundrum and, given the seriousness of its immediate health and social situations, there is an enormous temptation to divert attention to identity issues instead. 

The answer, however, does not lie in theories such as the clash of civilisations, the identification of terror with Islam, nor, as we have seen, in the pursuit of policies that diminish public freedoms in the name of security.  Nor does it lie in counteracting religious fanaticism with secular dogmatism, which through the contempt in which it holds the freedom of expression excludes religion from the public space, stigmatises women who cover their hair and considers fanaticism to be inherent in religion, particularly Islam.  

The overwhelming majority of France’s five million Muslims condemn fanaticism and its crimes.  They, too, are citizens of the Republic in the diversity of their personal beliefs and their tolerance of the faiths of others and of those with no faith at all.  

It is to play into the hands of the criminal, Abdoullah Anzorov, to identify his act with religious belief, as the Minister of the Interior, Gérard Darmadin, did when he spoke of terrorism of “Sunni origin”, stigmatising Islam. To proclaim a “Internal war” as he also did, is to enter a dangerous verbal escalation, doomed to failure, with Marine le Pen. This was not the speech that elected President Macron and made him the hope of political liberalism in Europe.

 It is also important that the media do not allow themselves to be distracted by their internecine ratings wars and encourage the spectacle of verbal violence from the extreme right.  Yet Éric Zemmour in France has been able to do precisely this, condemned though he has been for defending discrimination, whilst he continues to distill racial hatred on television. 

Whatever measures are taken in response to this crime must reflect universal values and condemn all forms of incitement to hatred. It is therefore important not only to apply the law against hate speech to radical Islamists, but also against anti-Muslim and anti-Semitic hate speech from the extreme right. This is all the more important as we are now entering the third wave of terrorism: that of the extreme right. 

The first wave was the violence of the extreme left – Bader-Meinhof, the Red Brigades and similar groups in the 1970s and 1980s.  It was followed by that of radical Islamists in the 1990s and the first decade of this century, which has now transmuted into the self-motivated individualism of lonely fanatics like Abdoullah Anzorov.

In fact, today most acts of terror are perpetrated by white supremacist movements, which had gained a new lease of life with the arrival of President Trump in the White House in 2017.  That has been the source of ninety per cent of the acts committed in the United States in 2018 and 2019, mostly against Blacks, Muslims and Jews. 

Yet the extreme right and radical Islamism now feed and inspire each other. Recently, a member of the Atomwaffen Division (AWD), a neo-Nazi terrorist network active in the United States and Europe, declared, according to a report from CSIS, a leading American security study institute, that, “The culture of martyrdom and insurrection in groups such as the Taliban and Isis should be admired and reproduced.”

To overcome such destructive radicalism, we must all unite regardless of our religious beliefs  or lack of them within the confines of collective secularism for, as Voltaire argued two-and-a-half centuries ago, secularism implies tolerance and is, therefore, the way to prevent wars of religion. 

After all, by beheading Samuel Paty for having extolled the virtues of tolerance, Abdoullah Anzorov was really aiming to separate France from its Muslims – and that is a victory that fanatics cannot be allowed to enjoy!

This article was published by Open Democracy

https://www.opendemocracy.net/en/can-europe-make-it/reason-against-fanaticism/?fbclid=IwAR1CT8rwF4UxlS55Cjo_J6Xn_O_wBuBnV_6NUBHMeLOvYwnwiXBvqjn_dHY

As Eleições dos EUA e a Governação Global, por Mary Kaldor

O fenómeno Trump é um produto da globalização, pelo menos da forma dominante de globalização que caracterizou as últimas décadas. A globalização refere-se à interligação em todas as esferas de actividade (política, cultural, económica, jurídica, pessoal, etc.) e está associada à revolução nas tecnologias da informação e da comunicação. Tende a ser equiparada ao mercado global e às políticas pró-mercado, especialmente a livre circulação de capitais e bens (mas não a mão-de-obra). Mas também tem produzido uma maior consciência global sobre questões como as alterações climáticas, guerra, pobreza extrema, endividamento e repressão. As eleições presidenciais americanas de 2016 foram enquadradas na dicotomia “americano comum” versus a elite global. Trump representou o nacionalismo; Hilary Clinton representou a globalização neoliberal. Se Joe Biden vencer as próximas eleições americanas, poderá ele estimular um tipo diferente de globalização, que tenha em conta as nossas preocupações sobre o futuro social e ecológico do planeta?

O trumpismo tem paralelos com desenvolvimentos semelhantes noutras partes do mundo -Brexit na Grã-Bretanha, Orban na Hungria, Putin, Modi ou Bolsonaro. O que partilham é uma mistura de capitalismo clientelista e política de identidade extremista – racismo, nacionalismo étnico ou fundamentalismo religioso. As suas ideologias também prometem um renascimento de um patriarcado sórdido, envolvendo a misoginia e a homofobia.  A emergência deste movimento tóxico é um resultado da globalização neoliberal em dois aspectos principais. Primeiro, a combinação de liberalização económica e austeridade resultou em aumentos dramáticos das desigualdades a nível mundial, especialmente após a crise financeira de 2008. O fardo da austeridade destinada a reduzir a dívida pública recaiu sobre as pessoas mais pobres enquanto os bancos e os muito ricos não foram sequer tocados.  Em particular, as áreas industriais tradicionais – o cinto de ferrugem nos EUA, os assentos da “parede vermelha” na Grã-Bretanha, grandes partes do mundo pós-comunista – foram duramente atingidas pela concorrência internacional e pela fuga de capitais e tornaram-se as “áreas deixadas para trás” ou os “lugares que não importam”. Foram as pessoas frustradas, destituídas de poder dessas áreas, que elegeram Trump.

Em segundo lugar, o crescimento dos fluxos mundiais de dinheiro e a dependência dos rendimentos minerais, especialmente do petróleo, criou estados rentistas, ou seja, estados dependentes de empréstimos ou rendas em vez de impostos, e isto deu origem a um comportamento de procura de renda – o fenómeno conhecido, por aqueles que estudam os países dependentes do petróleo, como a “maldição dos recursos”. Isto foi agravado pela privatização e pela cultura de contratação, através da qual o Estado paga a empresas privadas para implementar funções públicas, tais como prisões. O resultado final foi o aparecimento de novas elites nas quais oligarcas e políticos se tornaram permutáveis – os oligarcas financiam as campanhas políticas e os políticos dão contratos aos oligarcas. Nos EUA, o complexo industrial militar tem estado envolvido neste tipo de actividade durante anos; mas mais recentemente, Trump acrescentou a sua própria família de empresas com interesses em lugares como a Rússia e Israel.

Os líderes populistas autoritários não são capazes de inverter as consequências da globalização neoliberal. As políticas proteccionistas de Trump, as suas guerras comerciais, as restrições à imigração, ou a rejeição do multilateralismo – retirada do acordo com o Irão, a OMS ou os Acordos Climáticos de Paris – não beneficiam a sua base de apoio, apesar de muitos deles terem permanecido surpreendentemente leais. No Reino Unido, Boris Johnson gastou literalmente milhares de milhões em contratos privados com empresas que apoiavam o Partido Conservador e a campanha Brexit, mas parece incapaz de fornecer apoio financeiro suficiente àqueles que votaram nele nas cadeiras da “parede vermelha”. O proteccionismo é o que o falecido sociólogo Ulrich Beck teria chamado um conceito zombie; uma ideia que, apesar de ser morta repetidamente, sempre renasce.

Porque todas as actividades, especialmente as económicas, estão tão interligadas, as restrições nacionalistas ao comércio que visam vantagens a curto prazo só pioram as coisas. Do mesmo modo, a restrição da migração não liberta o tipo de empregos que se adequam às pessoas nas zonas mais atrasadas; pelo contrário, as restrições abrandam a actividade económica.  O enquadramento nacionalista e racista pode ajudar a ganhar poder, mas não pode fornecer soluções para aqueles que são vulneráveis à sua retórica.

Pelo contrário, o que é necessário é uma reforma global. O mundo precisa de instituições globais que possam tributar, regular ou controlar “males” globais como a desigualdade e a pobreza, a destruição ambiental e a guerra.  As instituições económicas globais como o Banco Mundial e o FMI estão já a afastar-se das políticas de austeridade, mas isto requer um programa maciço de reestruturação da dívida, para ser sustentável. O mundo também precisa de tributar os gigantes globais como Google, Amazon ou LVHM que escapam às jurisdições nacionais, para controlar a especulação financeira e para tributar as emissões de carbono. E precisamos de instituições que possam promover “bens” globais como a redistribuição social e económica, o combate à pobreza, a cooperação em pandemias globais, medidas inclusivas para travar as alterações climáticas, e esforços para enfrentar guerras, terrorismo, crime transnacional, e outros tipos de violência.

Será que uma vitória de Biden tornará isto possível? Biden parece ter-se afastado do neoliberalismo dos seus antecessores e empenhou-se na justiça social e num grande programa de investimento em energias renováveis. Comprometeu-se, também, a aderir novamente aos Acordos Climáticos de Paris e à OMS e a respeitar o acordo com o Irão. Fala sobre a “restauração da liderança americana”. No entanto, parte da mesma proveniência que os seus antecessores democratas e, como todos os políticos americanos, está obrigado aos patrocinadores empresariais. Além disto, uma vitória de Biden não irá mudar o comportamento da Rússia, China ou Índia, tornando a tarefa de reavivar o multilateralismo muito mais difícil. Por fim, a marca americana está muito manchada pelos anos Trump, que enfraquecem a confiança internacional nas promessas americanas.

Há também um perigo real de que, mesmo que Biden ganhe as eleições, não será capaz de tomar o poder. Os apoiantes de extrema-direita de Trump estão a armar-se. Em outras partes do mundo, líderes falhados têm fomentado a violência, para salvar as suas posições. Trump faz lembrar misteriosamente Milosevic; foram os trabalhadores das fábricas desempregados que formaram os bandos armados que infligiram tais horrores na Bósnia e no Kosovo. Biden terá de lidar com o monstro social que Trump criou. É possível conjurar um cenário de pesadelo de uma América segmentada e parcialmente violenta.

É por isso que é tão importante reformar a governação global e que a tarefa não pode ser deixada a Biden. A globalização tem, de facto, o seu outro lado. Está também associada à emergência de uma sociedade civil global e de uma governação global. Os anos 80, 90 e início dos anos 2000 testemunharam a importância crescente dos direitos humanos e da democracia, o crescimento das operações internacionais de paz, e a crescente pressão para fazer algo sobre as alterações climáticas, culminando nos Acordos de Paz de Paris. Estas realizações foram talvez de curta duração e algumas foram manchadas pela associação com o neoliberalismo. A ascensão do autoritarismo populista marcou o regresso da geopolítica, embora sob uma nova forma, caracterizada por ciberataques competitivos e interferências perigosas com a tecnologia, forças especiais e ataques aéreos numa série de conflitos.

Mas a sociedade civil global não desapareceu. Manifestações em lugares como o Sudão, Iraque, Líbano ou Bielorrússia abordam, directamente, a combinação de capitalismo clientelista e políticas de identidade extremistas. “Em nome da religião, eles estão a pilhar-nos”, diz o slogan dos manifestantes iraquianos. Além disso, estes protestos são liderados por mulheres; ao tomarem a linha da frente, são capazes de desviar a violência. A expansão do movimento “Black Lives Matter” teve lugar, apesar das restrições da Covid. Biden pode oferecer uma abertura para a reforma da governação global, tal como a União Europeia, mas requer pressão de baixo para marginalizar o autoritarismo populista e apelar, tanto aos EUA como à UE, para conterem os “males” globais e insistirem nos “bens” globais.

Contra o fanatismo: a razão

Perante o horror do impensável, a emoção e a revolta são reações naturais, todavia, contra o inimigos da liberdade, a razão e o conhecimento são as armas mais eficazes.

O assassinato do professor Samuel Paty, porque ensinava a liberdade de expressão, é um crime monstruoso, manifestação extrema do obscurantismo que prolifera, do islamismo radical às correntes da supremacia branca, ao abrigo das redes sociais e do discurso de ódio.

Perante o horror do impensável, a emoção e a revolta são reações naturais, todavia, contra o inimigos da liberdade, a razão e o conhecimento são as armas mais eficazes.

Sobre Abdoullakh Anzorov, de 18 anos, autor do crime, sabemos que era de origem chechena, que cresceu em França e que postou um vídeo com imagens de Samuel Paty decapitado, tendo gritado: “Alá é grande!” 

 Desde o atentado no Metro de Paris, em 1995, ao do Charlie Hebdo, em janeiro de 2015, que se estuda o perfil dos autores de atos de terror (ler, por exemplo, Olivier Roy). Na maioria são jovens niilistas, desenraizados em França, reféns do mundo virtual da internet, do ódio e das teorias conspirativas, encontrando aí, no extremismo islamita da Al-Qaïda e Daesh uma razão de ser. Cresceram numa sociedade-espetáculo, em que a única glória é aparecer nas redes sociais, mesmo depois de mortos;  radicalizaram-se com as imagens de violência e morte no Médio Oriente, com as guerras da Síria e do Iraque, onde o direito à vida e a ilegitimidade da violência contra civis  não são lei. A Chechénia é outra Síria, do espetáculo macabro da guerra de extermínio levada a cabo a mando de Putin.

O fanatismo medra também nas zonas de exclusão social, de ensino precário, lá onde a república não é sinónimo de igualdade e fraternidade.

Importa discutir como isolar os que pregam o fanatismo, combatendo, ao mesmo tempo, o racismo antimuçulmano e as organizações da extrema-direita que daquele se alimentam.

Como outros países, a França não encontrou ainda a resposta adequada e, perante a gravidade da situação sanitária e social, a tentação de desviar a atenção para as questões identitárias é enorme. 

A resposta não está nas teorias do choque das civilizações, na identificação do terror com o Islão, nem, como temos visto, na prossecução de uma política que diminua as liberdades públicas, em nome da segurança, nem ainda em contrapor ao fanatismo religioso um dogmatismo laico, que em desrespeito pela liberdade exclui a religião do espaço público, estigmatiza as mulheres que cobrem os cabelos com um lenço e considera que o fanatismo é inerente à religião, nomeadamente a muçulmana.  A maioria esmagadora dos 5 milhões de muçulmanos de França condena o fanatismo e os seus crimes, e são cidadãos da república, na diversidade das suas convicções.

É entrar no jogo do criminoso identificar o seu ato com uma religião, como o fez o Ministro de Interior, Darmadin, ao falar de terrorismo de “origem sunita”, estigmatizando o islão. Anunciar uma “guerra interna” é entrar numa perigosa escalada verbal, condenada ao fracasso, com Marine le Pen. Não foi esse o discurso que elegeu Macron e o tornou a esperança do liberalismo político na Europa.

As medidas a tomar devem ter um valor universal e ser contra todas as formas de incitação ao ódio. Importa, assim, além de aplicar a lei contra o discurso de ódio aos islamitas radicais, aplicá-la também ao discurso de ódio antimuçulmano e antissemita da extrema-direita.

As medidas a tomar devem ter um valor universal e ser contra todas as formas de incitação ao ódio. Importa, assim, além de aplicar a lei contra o discurso de ódio aos islamitas radicais, aplicá-la também ao discurso de ódio antimuçulmano e antissemita da extrema-direita.

É também importante que os media não se deixem inebriar pelos índices de audiências, fomentados pelo espetáculo da violência verbal  da extrema-direita, como Éric Zemmour, em França, condenado por defender a descriminação, mas que continua a destilar o ódio racial pela televisão. 

As medidas a tomar devem ter um valor universal e ser contra todas as formas de incitação ao ódio. Importa, assim, além de aplicar a lei contra o discurso de ódio aos islamitas radicais, aplicá-la também ao discurso de ódio antimuçulmano e antissemita da extrema-direita.

Esta questão torna-se ainda mais importante perante a consciência de que estamos a entrar na terceira vaga do terrorismo: a da extrema-direita. 

A primeira vaga de atos de terror foi a da extrema-esquerda (brigadas vermelhas ou Setembro Negro), nos anos 70 e 80, seguida pela dos islamitas radicais, nos anos 90 e na primeira década deste século, que parece agora ter perdido capacidade de organização e os atos serem de fanáticos solitários.

Hoje, a maioria dos atos de terror são perpetrados por movimentos suprematistas brancos, que ganharam um novo fôlego com a chegada de Trump à Casa Branca, como é o caso de 90% dos atos cometidos nos Estados Unidos em 2018 e 2019, na maioria contra negros, muçulmanos e judeus. 

A extrema-direita e o islamismo radical alimentam-se e inspiram-se mutuamente. Um membro da Atomwaffen Division (AWD), rede terrorista neonazi, ativa nos Estados Unidos e na Europa, declarou, segundo um relatório do instituto americano CSIS, que “a cultura de martírio e insurreição em grupos como os talibãs e o Isis deve ser admirada e reproduzida.”

Para vencer a radicalização é preciso unir os cidadãos, independentemente da sua religião ou da falta dela. A laicidade implica tolerância, o caminho para prevenir as guerras de religião, como ensina Voltaire. 

Ao decapitar o professor Paty, Abdoullakh Anzorov ambicionava decapitar a França dos seus muçulmanos, vitória que os fanáticos não podem ter.

Versão integral do artigo publicado no Público a 22 de Outubro de 2020

Eleições americanas – uma declaração pessoal de princípios éticos, por Onésimo Almeida

Os Estados Unidos estão a viver um momento particularmente tenso e difícil da sua história. Dentro de dias teremos uma das mais determinantes eleições em dois séculos e meio de existência como nação independente. Nesta altura da campanha eleitoral já praticamente todas as pessoas tomaram a sua decisão e cada qual votará segundo a sua consciência (aliás, muitos de nós até já votaram). Por isso, com esta minha crónica não espero convencer ninguém a alterar o seu ponto de vista. E, todavia, sinto-me impelido a vir fazer publicamente algo que nunca antes ousei na minha vida: uma declaração de voto.
Tenho o maior respeito pelos valores que levaram à criação do regime pioneiro da democracia moderna, ainda antes da Revolução Francesa – os Estados Unidos da América. Nenhuma democracia é perfeita mas, como Winston Churchill afirmou, “é o pior de todos os sistemas políticos, excetuados todos os outros”. Foram estabelecidas e institucionalizadas regras de conduta, leis, normas — com uma característica básica: o facto de serem aplicáveis a todos os cidadãos, qualquer que seja o lugar que ocupem na pirâmide social. Há, porém, um conjunto de valores que nunca foi legislado por se tomar como implícito em tudo o resto, sendo parte de um código de convivialidade humana: o respeito pelo outro, pelo direito de cada pessoa à sua dignidade e bom nome, o direito a ser tratado com a devida consideração.
Mas há mais: hoje a ciência tem os seus altamente rigorosos processos de estabelecer consensos entre os especialistas sobre o que parece ser o conhecimento mais seguro, porque demonstrado empiricamente e por ter produzido visíveis resultados ao longo dos séculos. Os poderes políticos não têm  o direito de manipular a seu bel-prazer a verdade consensual entre os especialistas e profissionais das respectivas áreas. O respeitabilíssimo especialista Dr. Anthony Fauci, que serviu impecavelmente presidentes de ambos os partidos, agora é repetidamente insultado – “he is a disaster!” – por não se deixar vergar às pressões de Trump que quer que ele distorça os factos para servir os seus interesses eleitorais.
Todos estes valores têm sido pervertidos nos últimos quatro anos. A figura que neste momento ocupa o mais elevado cargo do país, e que deveria constituir um exemplo de cidadania, mente sistematicamente (há equipas bipartidárias, especializadas em confrontar as afirmações do Presidente com a realidade, e têm publicado as suas conclusões: o número de falsas declarações suas já ultrapassa 20 mil!), ele amesquinha e insulta sistemática e grosseiramente todos os que se lhe opõem, faz denúncias infundadas sobre a vida de pessoas, não estuda os dossiers que especialistas lhe apresentam, está convencido de que sabe tudo e diz abertamente que só ele – e ele sozinho – é capaz de resolver os problemas da América. Passa horas infindas dos seus dias a ver televisão e a enviar mensagens no Twitter, numa linguagem de adolescente, apresentando a realidade a seu modo, preocupado apenas com a defesa dos seus próprios interesses, e distorcendo os factos conforme as suas conveniências, sem se preocupar minimamente com a verdade. Nem os veteranos feridos, prisioneiros de guerra, ou nela falecidos escapam aos insultos – eles são meros losers, isto é, simples perdedores. Mais: em vez de procurar unir o país como qualquer presidente anterior sentiu ser a sua missão, instiga o divisionismo.
Para justificar estas minhas afirmações, não preciso de ir além daquilo que me é dado ver  e ouvir da própria boca do actual Presidente dos EUA — e de observar como ele se comporta. Mas temos informações de dentro, porque elas foram tornadas públicas: os testemunhos de colaboradores que acreditaram nele, o defenderam quase fanaticamente e, depois de trabalharem com o Presidente durante meses ou mesmo anos na Casa Branca, desistiram e escreveram livros a contar a sua desilusão, narrando em pormenor e demonstrando como tudo aquilo que conseguimos depreender através da televisão, lendo os Tweets e ouvindo as entrevistas do Presidente, nem de longe se aproxima da realidade testemunhada por quem lida com ele de perto. A lista dessas figuras é considerável. Li muitos dos seus testemunhos em livros e escritos diversos, entrevistas, artigos de toda a ordem, assinados por quem foi incondicional apoiante do Presidente e que hoje vem avisar-nos de estarmos em presença de um ser extremamente perigoso, sem princípios, sem o menor escrúpulo em mentir e capaz até de usar as convicções  religiosas dos cidadãos americanos, fingindo-se aliado de crentes mas escarnecendo-os à porta fechada. Um dos mais devastadores documentos a desmascarar o actual presidente foi subscrito recentemente por um grupo de generais (um dos quais, honra lhe seja feita, o filho de um emigrante de Rabo de Peixe, Paul J. Selva, ex-Vice-Presidente do Joint Chiefs of Staff. “Como americanos, [diz o documento], deveríamos estar assustados e profundamente receosos pelo futuro do nosso país. (…) Trump está a intervir ativamente para destruir cada uma das maiores instituições deste país”.  Cito apenas.
Se as instituições americanas não tivessem acumulado mais de dois séculos de experiência democrática, o actual ocupante da Casa Branca já teria transformado este país numa ditadura, já que não lhe assiste o mínimo  respeito pelo processo democrático. Apenas um exemplo: até William Barr, seu actual Attorney General (o equivalente em português a Ministro da Justiça), que por sinal foi escolhido para substituir quem não estava a tomar as decisões que o Presidente pretendia (portanto selecionado sobretudo para o proteger), até este tem sido criticado publicamente porque o Presidente exige que ele tome atitudes contra opositores seus que o Attorney General considera impróprias. Idêntica situação é a de Mike Pompeo, Secretary of State, seu fidelíssimo colaborador e contra quem se volta agora a ira do líder. Para o Presidente que hoje governa este país, não há leis; há apenas os seus interesses e os da sua família. E nem vou falar nos 750 dólares de impostos que ele tem pago anualmente. Qualquer pessoa decente teria vergonha.  Não ele. Aliás, prometeu, ainda antes da eleição de 2016, tornar públicas as suas declarações de impostos, todavia nunca o fez, alegando razões que têm sido abertamente desautorizadas pelo próprio IRS. Tendo feito a promessa eleitoral de ir para Washington to clean the swamp – limpar o pântano – acabou criando o seu pântano, muito mais corrupto do que os anteriores. Está tudo publicado por aí, em livros que merecem ser lidos. E basta ver quantos dos seus colaboradores, por ele mesmo nomeados, estão hoje na prisão, ou a contas com os tribunais. Uma lista nunca antes igualada.
Mesmo que o Presidente apregoe ter operado um milagre económico (um perfeito exagero porque a economia não é o Stock Market, que favorece sobretudo a camada mais rica da sociedade), há valores que não podem ser desprezados nem adulterados. E há coisas na vida de uma sociedade muito mais importantes do que o Stock Market.
Os EUA merecem um Presidente que honre dignamente as tradições democráticas e os valores civilizacionais que este país sempre defendeu.   As mais  respeitadas nações do mundo (claro que nesse grupo não estão incluídos os regimes ditatoriais) hoje olham com tristeza e desilusão para nós, pois viram os EUA como um farol do futuro e presentemente têm pena – e até desdém –  se bem que muitas vezes esquecendo-se, é claro, que o mesmo lhes poderá acontecer se não tomarem as devidas precauções. Na verdade, as democracias modernas terão de se preparar para perigosos descalabros como este que ameaça a vida nos EUA e em todo o globo. Acredito, contudo, que está ainda nas nossas mãos agir e pôr cobro a tanta devastação.
Escrevo como cidadão convicto nos valores da verdade, da justiça, da liberdade, da paz e da dignidade humana. E como americano, que também sou. Não como membro de qualquer partido. Basta! Dump Trump! Urge regressarmos a uma vida cívica civilizada.

Artigo publicado no semanário luso-americano Portuguese Times.

Amanhã — WEBINAR, A democracia perante o desafio do racismo da extrema-direita, que resposta?

Amanhã, 18h ( Lisboa), 14h ( São Paulo) – Com transmissão em direto no canal Forum Demos no YouTube https://www.youtube.com/results?search_query=forum+demos;

O crescimento da extrema-direita por todo o mundo, e que, em países como os Estados Unidos, o Brasil ou a Hungria, chegou ao poder apoiada nas correntes da supremacia branca, coloca a luta contra o racismo como uma urgência democrática. Nos Estados Unidos, em vésperas de eleições decisivas para o futuro da democracia, o racismo é um dos temas centrais da campanha – o movimento Black Lives Matter está aí para o lembrar. No Brasil, a eleição de Bolsonaro coloca a questão da sobrevivência das comunidades indígenas da Amazónia. Na Europa, a extrema-direita fez do racismo e do ódio contra os imigrantes a sua identidade e em Portugal não é exceção – o aparecimento de um partido de extrema-direita, com um deputado na Assembleia da República, foi acompanhado de um recrudescimento da violência racista. A pandemia do Covid- 19 veio tornar ainda mais evidentes as desigualdades sociais e como elas afetam as minorias. O campo democrático tem respondido de forma dividida a este desafio existencial. Para uns, a questão prioritária é a luta contra a desigualdade social, para outros, o debate é entre universalistas e identitários. Há ainda quem pense que a melhor forma de combater ao racismo da extrema-direita é o silêncio. Debater estas questões e procurar uma reposta comum dos democratas ao racismo da extrema-direita é o objetivo deste webinar do Forum Demos.

O debate será moderado por:

Álvaro de Vasconcelos – fundador do Forum Demos;

Renato Janine Ribeiro – professor titular, ética e filosofia política, Universidade de São Paulo (USP);

Painel:

Cristina Roldão – socióloga, investigadora no CIES-IUL e professora da ESE-IPS;

Jessé Souza – sociólogo, professor titular da UFABC;

Joana Gorjão Henriques – jornalista do Público;

Pedro Bacelar de Vasconcelos – deputado e professor de Direito Constitucional;

Marcela Uchôa – doutoranda em filosofia política na Universidade de Coimbra, investigadora no Instituto de Estudos Filosóficos – ief – uc

WEBINAR, A democracia perante o desafio do racismo da extrema-direita, que resposta?

22 de Outubro, 18h ( Lisboa), 14h ( São Paulo) – Com transmissão em direto no canal Forum Demos no YouTube;

O crescimento da extrema-direita por todo o mundo, e que, em países como os Estados Unidos, o Brasil ou a Hungria, chegou ao poder apoiada nas correntes da supremacia branca, coloca a luta contra o racismo como uma urgência democrática. Nos Estados Unidos, em vésperas de eleições decisivas para o futuro da democracia, o racismo é um dos temas centrais da campanha – o movimento Black Lives Matter está aí para o lembrar. No Brasil, a eleição de Bolsonaro coloca a questão da sobrevivência das comunidades indígenas da Amazónia. Na Europa, a extrema-direita fez do racismo e do ódio contra os imigrantes a sua identidade e em Portugal não é exceção – o aparecimento de um partido de extrema-direita, com um deputado na Assembleia da República, foi acompanhado de um recrudescimento da violência racista. A pandemia do Covid- 19 veio tornar ainda mais evidentes as desigualdades sociais e como elas afetam as minorias. O campo democrático tem respondido de forma dividida a este desafio existencial. Para uns, a questão prioritária é a luta contra a desigualdade social, para outros, o debate é entre universalistas e identitários. Há ainda quem pense que a melhor forma de combater ao racismo da extrema-direita é o silêncio. Debater estas questões e procurar uma reposta comum dos democratas ao racismo da extrema-direita é o objetivo deste webinar do Forum Demos.

O debate será moderado por:

Álvaro de Vasconcelos – fundador do Forum Demos;

Renato Janine Ribeiro – professor titular, ética e filosofia política, Universidade de São Paulo (USP);

Painel:

Cristina Roldão – socióloga, investigadora no CIES-IUL e professora da ESE-IPS;

Jessé Souza – sociólogo, professor titular da UFABC;

Joana Gorjão Henriques – jornalista do Público;

Pedro Bacelar de Vasconcelos – deputado e professor de Direito Constitucional;

Sueli Carneiro – filósofa, escritora e ativista antirracismo;

Idiotas e idolatras

Retomo aqui na íntegra o artigo, aqui já parcialmente publicado, como contributo para o webinar de 22 Outubro: A democracia perante o desafio do racismo da extrema-direita: que resposta?

A narrativa de um país pós-racial dificulta o combate ao racismo que é hoje a grande ameaça à vida democrática, ideologia que é da extrema-direita defensora da supremacia branca. O mesmo se passa, aliás, no Brasil.

Depois das “ greves climáticas”, assistimos agora a um poderoso movimento  antirracista. O que essas duas revoltas de dimensão planetária questionam é  a “a conceção de vida subjacente à economia, à política e ao conjunto das relações humanas”, as mesmas razões que levaram Paul Ricouer a classificar o Maio de 68 como uma revolução cultural.

O que o movimento antirracista propõe é um despertar para a realidade da discriminação racial, tanto na sua forma violenta como insidiosa, e uma análise crítica ao passado de colonialismo e esclavagismo e às consequências sociais da sua glorificação.

Para alguns, o debate é sobre estátuas e vandalismo, mas o verdadeiro debate incide sobre os mitos de uma identidade nacional em que uma parte significativa da população não se pode rever. Portugal, como antiga potência colonial, não podia escapar a esta revolução cultural. 

A  persistência da definição identitária do «ser português», construída pelo discurso nacionalista salazarista, é atestada pelos comentários insultuosos aos lúcidos artigos de Ana Sá Lopes e de Rui Tavares, no Público, ou às publicações nas redes sociais, como às que questionam o mito do Infante D. Henrique. “Idiotasé um dos insultos mais recorrentes… Naturalmente, sem saberem que estavam a utilizar o termo no sentido que lhe deu Dostoiévsky no seu livro O Idiota, sobre um personagem que por ter uma perigosa e subversiva tendência para dizer a verdade e recusar o niilismo assim era considerado.

Não, não se trata de procurar apagar a História quando se questiona o mito do Infante D. Henrique e se lembra que nunca houve uma Escola de Sagres, ou que uma das principais motivações do Infante na expansão marítima era o tráfico de escravos, como demonstraram  os Historiadores Duarte Leite ou Vitorino Magalhães Godinho, que, como este último lembrou, estudaram as fontes em vez de se extasiarem com as glórias. 

Não se trata de querer fazer desaparecer os monumentos — com os quais o Salazarismo quis santificar, para sempre, os conquistadores coloniais, nem, muito menos, se pretende vandalizar “obras de Arte”. O que se pretende é desconstruir a base ideológica do racismo português, o discurso sobre o carácter não racista do “Português” — que não é um mito da direita ou da esquerda, mas antes um mito identitário. Poucos são os que o contrariam, ainda ouvimos recentemente Rui Rio, depois de ter tido um papel importante no combate à pandemia, a reafirmá-lo. 

Para alguns, o debate é sobre estátuas e vandalismo, mas o verdadeiro debate incide sobre os mitos de uma identidade nacional em que uma parte significativa da população não se pode rever.  

O discurso salazarista, sobre a missão civilizadora do império, encontrou uma fonte de inspiração no sociólogo brasileiro Gilberto Freire, que desenvolveu o luso-tropicalismo para sustentar a sua visão do Brasil como país pós-racial, além-racial. Daí para o Portugal pós-racial foi o salto que deram Gilberto Freire e o regime, para se oporem ao processo de descolonização. Salazar abandonou, nos anos 60, o discurso racista com o que em 1933 da “proteção das raças inferiores cujo chamamento à nossa civilização cristã é uma das conceções mais arrojadas e das mais altas obras da colonização portuguesa”, mas manteve as práticas do trabalho forçado dos negros e a violência racial, como, aliás, pude constatar nos anos que vivi em Moçambique.

Ora, a narrativa de um país pós-racial dificulta o combate ao racismo que é hoje a grande ameaça à vida democrática, ideologia que é da extrema-direita defensora da supremacia branca. O mesmo se passa, aliás, no Brasil.

Ao olhar para o passado com olhar crítico, não estamos a tirar a identidade a ninguém, estamos a consolidar a identidade cidadã que fomos construindo desde o 25 de Abril, assente nos direitos fundamentais, na solidez da nossa democracia, no consenso partilhado pela maioria da opção europeia. Identidade que permite a análise crítica da nossa História e que não pressupõe uma referência cultural ou religiosa única, porque dela não depende.

Muitos continuam a dizer que “os negros eram bem tratados”, no Portugal colonial, uma visão paternalista das relações com africanos sem direitos, um dos indícios da amnésia histórica que, como uma verdadeira doença, se alastra para as gerações pós-coloniais.

A revolução política do 25 de Abril pôs termo ao Colonialismo, a revolução cultural que desconstrói os mitos que escondiam a sua brutalidade continua a percorrer o seu caminho, como o atesta a decisão de erigir um monumento às vítimas da escravatura em Lisboa, no antigo mercado de escravos do Campo das Cebolas. O que, hoje, o movimento antirracista exige é uma aceleração dessa revolução. 

Não nos devemos envergonhar ao descobrir que muitos dos nossos ídolos eram menos “santos” do que pensávamos. O que nos deve envergonhar é a persistência do racismo e o encobrimento, em nome do nacionalismo, de crimes contra a humanidade, como a escravatura, a inquisição e o colonialismo, e o que nos deve orgulhar é a capacidade de Portugal em garantir a igualdade e os direitos fundamentais de todos os que cá vivem.

É através de um estudo rigoroso do passado, de um trabalho de memória, que construiremos um futuro melhor.

Este artigo pode ser também lido no Público de 22 de Junho de 2020

O julgamento eleitoral da pandemia

“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos”
Declaração Universal dos Direitos Humanos

No brutal “debate” presidencial, Trump troçou de Biden por usar máscara. Dias depois Trump estava internado num hospital. 

Nove meses antes, a 28 de janeiro, com 9 casos confirmados nos Estados Unidos, Robert Obrien, conselheiro nacional de segurança do Presidente Trump, avisou-o de que o coronavírus “iria ser a maior ameaça à segurança nacional da sua presidência”, como se pode ler em Rage (raiva) de Bob Woodward. Na mesma reunião, o vice-conselheiro de segurança Pottinger acrescentou que um dos seus contactos chineses o alertara: “não pense no SARS 2003, pense na pandemia de 1918”, a chamada gripe espanhola que matou cerca de 50 milhões de pessoas, das quais 675 mil nos Estados Unidos. 

Nove meses depois, já morreram 209 mil americanos e as previsões apontam para números semelhantes aos da gripe espanhola e 40 milhões perderem o emprego.

Nos nove meses seguintes, Trump, com o apoio incondicional do Partido Republicano, falhou completamente no seu dever de proteger os americanos. Apesar de ter dito a Woodward que o vírus era muito perigoso – “transmite-se pelo ar” –, tudo fez para negar a existência da ameaça,  afirmando que era “uma simples gripe”, a “gripezinha“ do seu factonte Bolsonaro.

Trump optou por se opor  ativamente às medidas sanitárias propostas pelos seus especialistas e decretadas pelos governadores dos Estados, fazendo gala de não usar máscara, alimentando teorias da conspiração e propalando supostos medicamentos milagrosos. Num contexto de pandemia, em vez de valorizar a evidência cientifica e reforçar o sistema de saúde , tudo continuou a fazer para desmantelar o Obamacare e retirou os EUA da Organização Mundial de Saúde.

Trump sabe que os americanos o vão julgar pela forma cruel( sádica) e incompetente como lidou com a pandemia e que a sentença lhe deverá ser desfavorável, no dia das eleições, como mostram de forma consistente todas as sondagens.

Com “a América mais fraca”, por trás da retórica nacionalista “fazer a América grande de novo”, emergiu o racismo como instrumento para tentar ser reeleito . 

O seu discurso tinha tido sempre uma forte componente de ódio racista, primeiro contra “a invasão dos latinos”, depois indo buscar ao sótão da história o “perigo amarelo”, agora renomeado “vírus chinês”. Desde o assassinato de George Floyd, o seu discurso de ódio racial visou os afroamericanos que defendiam na rua os seus direitos cívicos e passou a ser a mensagem principal da sua campanha eleitoral A retórica de Trump inspira-se nos grupos de supremacia branca, saudosistas dos tempos da segregação racial, para quem  é um herói.

Perante o insucesso da sua campanha racista, impedir o bom desenrolar das eleições é a única forma de Trump ainda poder ganhar.A estratégia  de Trump de caos e raiva, que fratura a sociedade, é uma tentativa de  sabotagem do ato eleitoral, chegando ao cúmulo de pedir ao grupo neofascista Proud Boys para “estarem prontos”.É a democracia americana que está em perigo e com ela o ideal democrático.

Com  Trump no hospital, Biden declarou que “rezava por ele”, mostrando  o seu respeito pela dignidade dos seres humanos, essencial à convivência democrática. Se mais não houvesse, tal respeito chegava para fazer dele o candidato certo para derrotar Trump. 

O artigo primeiro da declaração universal dos direitos humanos, “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos”, é visto por Trump e os seus apoiantes como parte da conspiração totalitária do politicamente correto (também em Portugal há quem assim pense). 

O desprezo de Trump pelos direitos humanos explica a sua cumplicidade nos crimes de guerra perpetrados pelos seus amigos sauditas no Iémen, na repressão do General Sisi no Egito, ou nos crimes de Netanyahu contra os palestinos, o seu fascínio por ditadores como Kim Jong-un ou Putin.

O que caracterizou a sua gestão da pandemia foi a indiferença de Trump à dor dos outros, o cinismo perante as mortes dos seus concidadãos. O seu narcisismo, próprio de todos os autocratas, levou-o a acreditar que era invulnerável. A sua doença destrói a estratégia de mudar os termos do debate eleitoral e não me parece, mas posso estar errado, que possa contribuir para o humanizar aos olhos da opinião pública

As próximas eleições serão sobre a gestão da pandemia e das suas consequências, sanitárias e sociais. Será assim nos Estados Unidos, mas também em todos os países democráticos e Portugal não será exceção.

Seria um erro grave querer desviar o centro do debate para as questões identitárias, como fez Trump, mas essa é uma tentação a que muitos sucumbiram no passado e que a crise sanitária só pode tornar mais tentadora. 

Não, a questão não é a de uma pretensa identidade ameaçada pelo multiculturalismo e os migrantes, mas sim como proteger a saúde dos cidadãos de um vírus que continua a matar, em particular os desfavorecidos, e quais devem ser as prioridades sociais e ecológicas dos planos de recuperação económica. Essa deve ser a agenda dos partidos democráticos, seja qual for a sua ideologia política.

 A extrema-direita irá certamente fazer o discurso racista, construir um outro ameaçador, culpando os democratas de todos os males provocados pela pandemia. Derrotá-la passa por mostrar que somos todos vitimas do mesmo vírus e que é no respeito pela dignidade da nossa humanidade comum que o podemos vencer. 

É provável que para esse combate possamos contar, em 2021, com um presidente americano decente.

Este artigo pode também ser lido no Público de 5 de Outubro de 2020

WEBINAR, A democracia perante o desafio do racismo da extrema-direita, que resposta?


22 de Outubro, 18h ( Lisboa), 14h ( São Paulo) – Com transmissão em direto no canal Forum Demos no YouTube;

O crescimento da extrema-direita por todo o mundo, e que, em países como os Estados Unidos, o Brasil ou a Hungria, chegou ao poder apoiada nas correntes da supremacia branca, coloca a luta contra o racismo como uma urgência democrática. Nos Estados Unidos, em vésperas de eleições decisivas para o futuro da democracia, o racismo é um dos temas centrais da campanha – o movimento Black Lives Matter está aí para o lembrar. No Brasil, a eleição de Bolsonaro coloca a questão da sobrevivência das comunidades indígenas da Amazónia. Na Europa, a extrema-direita fez do racismo e do ódio contra os imigrantes a sua identidade e em Portugal não é exceção – o aparecimento de um partido de extrema-direita, com um deputado na Assembleia da República, foi acompanhado de um recrudescimento da violência racista. A pandemia do Covid- 19 veio tornar ainda mais evidentes as desigualdades sociais e como elas afetam as minorias. O campo democrático tem respondido de forma dividida a este desafio existencial. Para uns, a questão prioritária é a luta contra a desigualdade social, para outros, o debate é entre universalistas e identitários. Há ainda quem pense que a melhor forma de combater ao racismo da extrema-direita é o silêncio. Debater estas questões e procurar uma reposta comum dos democratas ao racismo da extrema-direita é o objetivo deste webinar do Forum Demos.

O debate será moderado por:

Álvaro de Vasconcelos – fundador do Forum Demos;

Renato Janine Ribeiro – professor titular, ética e filosofia política, Universidade de São Paulo (USP);

Painel:

Cristina Roldão – socióloga, investigadora no CIES-IUL e professora da ESE-IPS;

Jessé Souza – sociólogo, professor titular da UFABC;

Joana Gorjão Henriques – jornalista do Público;

Pedro Bacelar de Vasconcelos – deputado e professor de Direito Constitucional;

Sueli Carneiro – filósofa, escritora e ativista antirracismo;