A América que marcha pela igualdade 

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Nunca a América apareceu, na figura burlesca de Donald Trump, tão isolada e obscurantista. Uma nação impotente perante a tragédia da pandemia que a devasta e deixa milhões sem emprego, sem seguro de saúde e sem casa. A ausência de empatia para com as vítimas da tragédia, da “bondade extremamente dolorosa” de que fala Clarice Lispector, no conto “Amor”, fez de Trump um horrendo Presidente, parafraseando Milton Hatoum.

Porém, nunca a “outra América”, a que é Mundo na sua diversidade, foi tanto a referência necessária para enfrentarmos os grandes desafios do presente. É assim com o movimento antirracista Black Lives Matter, com o New Green Deal, na pujança e na criatividade intelectual do movimento pela igualdade de género, do #MeToo e da marcha das mulheres. Foi assim com o movimento Occupy Wall Street,  a revolta contra o neoliberalismo e a corrupção da política pelas grandes fortunas, movimento de que Benny Sanders, Elisabeth Warren e  Alexandria Ocasio-Cortez são os herdeiros.

A influência da contracultura americana na linguagem é também considerável, os despossuídos estão a assumir “o poder de definir”, escreveu Toni Morrison. Os mandarins cá de casa indignam-se com “a ditadura do politicamente correto” por perderem o poder de definir, mas, para sua vergonha, foi em Trump que encontraram um aliado e não nas correntes progressistas que estão a transformar a América.

 

É essa América que nos lembra que a política não se resume aos partidos — como salientou Barack Obama na Convenção Democrática —, que os grandes avanços na sociedade resultaram das lutas “dos que marcharam e marcham” pelos direitos cívicos, pela igualdade, contra a violência policial;  dos que se indignam com a desigualdade social e com o escândalo da influência política do 1% dos híper ricos que a perpetuam.

 

É essa América que nos lembra que a política não se resume aos partidos — como salientou Barack Obama na Convenção Democrática —, que os grandes avanços na sociedade resultaram das lutas “dos que marcharam e marcham” pelos direitos cívicos, pela igualdade, contra a violência policial;  dos que se indignam com a desigualdade social e com o escândalo da influência política do 1% dos híper ricos que a perpetuam. 

Para a minha geração, essa é a América da contracultura dos anos 60 e 70, dos beatniks e da pop art, do combate à segregação racial e à guerra do Vietname, que viria a influenciar grandes revoltas europeias como o Maio de 68. É a América que cantava com Bob Dylan e Joan Baez e que “tinha um sonho” com Martin Luther King.

O entusiasmo que as eleições americanas despertam não advém apenas do seu carácter decisivo para o futuro da paz e da proteção da vida na Terra, mas do facto de, na sua enorme diversidade, a América ser “Mundo” — podemos todos sentir preocupação com o seu destino.

O projeto distópico de Trump e dos supremacistas brancos que o apoiam assenta na construção de uma sociedade em que os filhos dos escravos e dos índios, bem como os milhões de latinos que atravessaram o Rio Grande, sejam invisíveis e não tenham voz. É  a tentativa vã de reconstruir tudo o que o vento levou — a retrotopia de Margaret Mitchell. Ao mesmo tempo, Trump procura manter os privilégios que outrora foram dos senhores de escravos e que hoje são dos que querem perpetuar um sistema que se alimenta da desigualdade e da manipulação do sistema financeiro mundial.

O princípio de que todos nascem iguais, com direito “à vida, à liberdade e à procura da felicidade” ficou gravado na  declaração de independência americana e impulsionou, desde então, todas as lutas que foram ampliando a sua aplicação.

A Convenção do Partido Democrático inscreve-se nessa longa caminhada. A mensagem mais marcante foi a afirmação da diversidade americana e da luta pela igualdade de direitos de género, étnico-racial e dos direitos dos migrantes. Foi assim na escolha do Presidente e da sua vice, Kamala Harris, afro-americana, como se proclama, e foi assim em todos os momentos da Convenção.

Não compreenderam as transformações que se deram na América (e no Mundo) os que consideram que a afirmação dessa diversidade fratura a sociedade americana. A afirmação da diversidade é a do direito à igualdade

Não compreenderam as transformações que se deram na América (e no Mundo) os que consideram que a afirmação dessa diversidade fratura a sociedade americana. A afirmação da diversidade é a do direito à igualdade. Obama declarou-o e bem: “black lives matter no more no less”. Só no reconhecimento da força dessa diversidade poderá a América voltar a unir-se, não no silêncio dos que sofrem com a desigualdade. 

A proclamação da legitimidade dos que “marcham” e, por vezes, “vão para a prisão”, da justeza da indignação e da revolta, a afirmação de que é preciso pôr termo à supremacia do capital que desde Reagan  privilegia as grandes fortunas, surpreende num partido que em 2016 foi derrotado porque  apareceu como o partido desse sistema. A força dos movimentos sociais obriga-o a mudar. Mas será Biden capaz de se apoiar na força dos que marcham para derrotar Trump?  Ainda não chegou a hora da nova geração de políticos, nascida do ativismo comunitário, como Alexandria Ocasio-Cortez, a campeã do New Green Deal, ou como as lideres do movimento Black Lives Matter. Sanders e Elisabeth Warren ficaram pelo caminho, mas sem os seus planos, sem o entusiasmo dos seus apoiantes, os democratas não terão os votos necessários para derrotar Trump. 

Biden tem ainda a sua campanha financiada pelas grandes corporações, mas o seu surpreendente discurso na Convenção mostra que ele não é apenas “um homem decente”. Propõe-se, se for eleito, a fazer da causa da igualdade o seu desígnio. Para isso terá de romper com a herança do reaganismo, continuada por republicanos e democratas, regressar a políticas inspiradas pelo New Deal, a um capitalismo de face humana. Será ele capaz? Foi essa a promessa do seu discurso. A fonte de inspiração que pairou sobre a Convenção, para combater a pandemia e a grande recessão em que entrámos, foi o mais notável presidente americano do século xx, o democrata Franklin Roosevelt. 

As eleições americanas aparecem-nos como as mais decisivas desde as que em 1932 e 1940 elegeram Roosevelt, permitiram o New Deal e a entrada da América na guerra, decisiva para a derrota do nazismo. As que se avizinham são comparáveis, pela sua importância histórica, às que em 1861 elegeram Lincoln e criaram as condições políticas para o fim da escravatura. Derrotar as força do obscurantismo é possível, mas para isso é preciso romper com o sectarismo dos aparelhos partidários.  Assim saiba o partido democrático, para bem de todos nós, ouvir as vozes dos que marcham pela igualdade. 

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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