A arma do Ultramar que matou Bruno Candé é de todos nós

img_900x508$2020_07_25_23_47_12_961110_im_637313866753162912

No sábado, Bruno Candé morreu com quatro tiros à queima roupa, disparados por um homem de 76 anos. Segundo as notícias que entretanto foram surgindo, o autor dos disparos sobre Bruno Candé teria ameaçado a vítima dias antes, afirmando que tinha “armas do Ultramar” e iria matá-lo. A família de Bruno Candé também disse que o autor dos disparos proferiu insultos racistas contra a vítima. 

Para quem me lê, já não é novidade que considero que Portugal é um país racista. Há uma parte desta convicção que advém de constatações empíricas não quantificadas. Continuo perplexa pela ausência de negros (e de outras minorias) em certos patamares da nossa vida social. A começar pelos bancos da universidade, pelo menos daquela onde ensino. Continuando pela comunicação social, cargos dirigentes de empresas, política. Contam-se pelos dedos de uma mão os representantes de minorias étnicas nestes lugares de poder. 

Há toda uma dimensão do racismo que infelizmente não podemos medir porque estamos impedidos de recolher dados étnicos. Será que as pessoas oriundas de minorias são discriminadas no sistema de saúde ou judicial, no emprego e no salário? Os terríveis casos de abusos policiais ou as reportagens dos bairros pobres das periferias onde se concentram tantas caras não brancas leva-me a crer que se levantássemos o tapete íamos encontrar muita coisa que uma parte da nossa sociedade não quer ver. E até me arrisco a apostar que é para não nos confrontarmos coletivamente com esse Portugal discriminatório e cruel que continuamos a não querer obter a informação necessária.

Há outra parte da minha convicção com origem em dados conhecidos. Em junho, lembrei aqui que Portugal é o único país em que mais de metade dos inquiridos do European Social Survey consideram que há etnias biologicamente menos inteligentes. Segundo esta medida, somos o país mais racista da Europa. Será que este racismo se traduz numa estrutura social e económica que de facto corta o caminho dos negros para o sucesso? Para responder a esta pergunta, só com os tais dados que não querem que tenhamos. 

Mas entre as linhas do assassinato de Bruno Candé aparece a arma do Ultramar. O Ultramar é provavelmente o maior monstro no armário da nossa história recente, que teimamos em manter fechado a sete chaves. Já foi há quase dez anos que li no Público um artigo sobre um estudo que afirmava o “fim de um tabu”. Dizia assim: “Uma equipa envolvendo o Ministério da Defesa, o Instituto Superior de Tecnologias Avançadas, a Academia Militar, a Escola do Serviço de Saúde Militar, o Centro de Psicologia Aplicada do Exército e o Arquivo Geral do Exército, com elementos das áreas da psicologia, sociologia, direito, engenharia e economia, dedicou-se durante dois anos a este tema e encontrou uma realidade diferente da imaginada”. E qual, era, então, a grande revelação do estudo? A guerra colonial tinha causado mais danos físicos do que psicológicos: havia apenas 9% das 3020 queixas de ex-combatentes analisadas que configuravam casos de doença pós-traumática. 

Isto foi em 2011, mas lembro-me de na altura achar que o estudo cheirava a esturro por todos os lados. Um coronel na reserva a anunciar o facto de os danos físicos da guerra serem mais graves do que os psicológicos como “o fim de um tabu”, quando a saúde mental é um dos maiores tabus da sociedade portuguesa, já era estranho que chegue. Depois, havia a falta de independência do estudo, feito por tudo o que é instituição militar ou com ligações ao exército. E não era só isso. Quem, como eu, anda atento a estas coisas conhece o trabalho de Afonso de Albuquerque, médico psiquiatra que durante anos luta pelo reconhecimento dos custos psicológicos da guerra colonial. Em 2002, este médico tinha feito umas contas com base na prevalência de stress pós-traumático nos veteranos de guerra do Vietname e tinha concluído que haveria cerca de 150 mil antigos combatentes afetados por esta perturbação, de um total de 800 mil portugueses enviados para as várias frentes de combate, ou seja, quase 19%. Mais do dobro dos 9% do estudo do exército que vinha quebrar o tabu. Independentemente da percentagem exata, haverá maior tabu do que, quase 30 anos depois da guerra colonial, se usarem valores importados de outra guerra para estimar o custo psicológico da nossa? E sabermos que só passados vinte anos do final da guerra houve a primeira consulta psicológica para ex-combatentes?

Quantas armas de crime em Portugal, racistas e outros, virão do Ultramar? Não sabemos. Mas acontece que, nos últimos dias, tenho-me lembrado do filme Caché, de Michael Haneke. Por muito espesso que seja o manto que cobre o tabu, ele vem um dia assombrar um quotidiano coletivo que só na aparência é funcional. E as armas do Ultramar vão continuar a atravessar o nosso caminho.

Do artigo “The Psychological costs of war: military combat and mental health”, publicado no Journal of Health Economics em 2013, retiro outros números que falam por si. O Center for Disease Control and Prevention estima que os veteranos de guerra representam 20% do total de suicídios em cada ano nos EUA. Um outro estudo citado no artigo revela que 26% dos soldados da recente “guerra contra o terrorismo” sofrem de depressão, abuso de droga e álcool, são sem abrigo, ou suicidam-se. A análise dos autores é baseada em dados longitudinais, isto é, segue jovens soldados e outros que não fazem serviço militar, ao longo do tempo, antes e depois de servirem no exército. Os resultados mostram que os jovens soldados têm uma probabilidade que pode ser até 15 pontos percentuais mais elevada de cometer suicídio, terem sintomas de depressão ou stress pós-traumático do que os restantes. No Journal of Human Resources em 2010, o artigo “Does Combat Exposure Make you a More Violent or Criminal Person?” estima que o custos social da violência e dos crimes causados pela exposição ao combate na guerra do Vietname (ler: soldados que regressam da guerra com comportamentos violentos) é de 65 mil milhões de dólares.  

Não estou a escrever isto para desculpar o autor dos disparos sobre Bruno Candé. Ainda nem sequer sabemos se, ainda jovem, terá sido enviado para a frente de combate viver intimamente com a morte e a crueldade e nada desculpa ceifar a vida ao jovem pai de três crianças. Quantas armas de crime em Portugal, racistas e outros, virão do Ultramar? Não sabemos. Mas acontece que, nos últimos dias, tenho-me lembrado do filme Caché, de Michael Haneke. Por muito espesso que seja o manto que cobre o tabu, ele vem um dia assombrar um quotidiano coletivo que só na aparência é funcional. E as armas do Ultramar vão continuar a atravessar o nosso caminho.

Susana Peralta

Professora de Economia na Nova SBE

Artigo originalmente publicado no  Público  de 31 de Julho de 2020

https://www.publico.pt/2011/01/27/sociedade/noticia/a-guerra-colonial-causou-mais-danos-fisicos-do-que-psicologicos-1477438

https://www.publico.pt/2002/06/07/sociedade/noticia/cinquenta-mil-portugueses-sofrem-de-stress-postraumatico-de-guerra-149664

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: