A utopia como a melhor maneira de superar a crise do coronavírus

por Renato Janine Ribeiro, Filosofia, Universidade de São Paulo, Brasil

A crise do coronavírus mostra que a utopia é mais necessária do que nunca. Por utopia, quero dizer uma sociedade cujos objetivos principais serão a felicidade e a justiça (a última pode ser sinônimo de justiça social). Uma série de políticas públicas e valores sociais deve, portanto, ser redefinida. Antes de tudo, devemos limitar seriamente o consumismo. Ele é fortemente responsável pela destruição do meio ambiente. Recentemente, alguns estudos sérios sugeriram que, à medida que nós, humanos, elevamos nosso padrão de vida, também destruímos as fronteiras entre nós e a natureza, especialmente o mundo selvagem. A hipótese de que as atuais pandemias se tenham originado de humanos comendo morcegos em Wuhan é bastante simbólica: o habitat dos animais, incluindo os selvagens, teria sido ocupado e até devastado pelo homem. O equilíbrio entre a humanidade e a natureza foi comprometido. Em relação aos alimentos, sabemos que os grãos são mais saudáveis ​​que a carne e requerem menos água e outros nutrientes, mas nem por isso alteramos nossa dieta cotidiana para torná-la mais respeitosa da natureza.

Obviamente, esse modo de vida humano não pode durar. Como a Terra tem atualmente a maior população humana de sua história e esses bilhões de humanos comem e consomem mais do que nunca, o planeta está fortemente estressado: é possível que doenças de vários tipos constituam uma das reações de autodefesa do organismo vivo que chamamos de nosso planeta.

Mais de um pensador disse que o animal mais perigoso da Terra é o homem. Se a natureza nos ataca, pode se tratar de um contra-ataque, significando que a Terra estaria tentando salvar-se da agressão humana. Então, precisamos parar nossa guerra contra a natureza. Devemos considerar nosso planeta como nosso lar, não como um estoque de mercadorias de que podemos dispor à vontade. Ele existe para ser valorizado, não para ser pilhado.

Na verdade, não há grande distinção entre nosso comportamento em relação aos pobres e em relação à natureza. A abundância é alcançada ao custo de destruir o planeta e de despojar os humanos mais pobres. Certamente, não devemos considerar a humanidade homogênea. Desde milênios, ela tem sido fortemente hierárquica. Os ricos sempre sobrepujaram e espoliaram os que não têm. Nos últimos dois séculos e meio, desde as revoluções democráticas do final do século XVIII, nos últimos 70 anos, desde a Segunda Guerra Mundial, no entanto, houve um forte movimento em direção à igualdade. Mas esse fenômeno também implica que todo mundo tenta consumir tanto quanto os ricos. Devemos entender que isso é impossível. Portanto, devemos nos comprometer com uma série de mudanças importantes.

Antes de tudo, precisamos criar uma sociedade mais igualitária. Nosso passo inicial seria entender que precisamos de uma igualdade de oportunidades. Ainda que as diferenças de renda persistam, elas não devem decorrer da herança, mas da capacidade. Devemos também limitar as diferenças de renda e propriedade. Sempre que se tornam grandes demais, implicam muito desperdício. Por exemplo, se você tem duas ou três residências secundárias, irá gastar recursos naturais e sociais muito mais do que se tiver apenas uma casa e pernoitar em albergues ou hotéis quando viajar. Se o tráfego se torna monopólio de carros particulares, como acontece em muitos países, incluindo alguns pobres, a paisagem urbana é destruída e a poluição do ar aumenta. Um dos poucos pontos positivos das pandemias atuais é que, como as pessoas foram impedidas de sair de suas casas, a qualidade do ar melhorou.

Devemos entender que há estratégias ganha-ganha e perde-perde. Apostar em imensas residências sumptuárias, carros caros, comida de luxo significa que as vantagens serão poucas e para apenas alguns – enquanto, se entregarmos as ruas aos pedestres, como Paris tem feito nos últimos anos, a qualidade de vida melhorará. É um erro grave, pior, é uma mentira séria apresentar o progresso material como beneficiando a todos (ou a maioria das pessoas) ou mesmo como um jogo de soma zero, no qual alguns vencem na mesma proporção que outros perdem. Cientistas, filósofos, artistas têm mostrado que todos nos beneficiamos da boa qualidade da comida, do ar e do tráfego. Devemos lembrar Rousseau, que entendeu que mesmo aqueles que, à primeira vista, parecem ganhar com a exploração do homem pelo homem, acabam perdendo sua qualidade humana, ou humanitária (no original inglês: human – humane).

Há outras etapas a serem seguidas. Hoje é possível produzir comida suficiente para todos no mundo. A fome agora decorre de dificuldades no acesso a alimentos, não de escassez. O problema está na distribuição, não na produção. Deveríamos, assim, garantir que todos tenham acesso a alimentos. Depois de resolver o problema da quantidade (de alimentos), devemos resolver o problema de sua qualidade. Temos que tomar as medidas necessárias para melhorar a qualidade da nutrição. Gordura e açúcar devem ser fortemente reduzidos se quisermos ter populações mais saudáveis. Felizmente, nas últimas décadas, houve uma melhoria significativa no sabor e sabor dos chamados alimentos orgânicos.

A boa notícia é que, muito provavelmente, a população mundial está chegando a um limite, de modo que as demandas humanas por recursos naturais possam ser contidas no decorrer do próximo século. Mas, como a expectativa de vida está aumentando, é provável que a população ainda cresça por algum tempo. Poderíamos esperar ter de 10 a 20 bilhões de seres humanos vivendo ao mesmo tempo em nosso planeta até o século XXI. Portanto, é absolutamente necessário mudar o que extraímos do nosso planeta.

Isso significa que precisamos de uma mudança filosófica e espiritual que não será fácil de realizar. Se olharmos para as crises políticas e econômicas das últimas décadas, vemos que a maioria delas decorreu da escassez ou (talvez?) da incapacidade dos governos de satisfazer uma demanda crescente de produtos a serem consumidos. O consumismo se tornou um grande valor – talvez o mais importante em nossas sociedades. Devemos deter e reverter esse processo. A boa notícia é que agora temos os meios técnicos e econômicos para fazer isso. Por exemplo, afirmei acima que possuir várias residências secundárias não é uma coisa boa; bem, tanto a indústria de hospedagem como aplicativos como o AirBnb nos fornecem meios para acolher mais pessoas, mantendo o mesmo número de salas ou prédios. Um aplicativo como o Uber facilita a vida de muitas pessoas sem ter um carro. Elas podem empregar transporte público e recorrer apenas ocasionalmente a um carro que pagarão pelo uso exclusivo. (Evidentemente, tem que se pôr cobro ao caráter predatório desses aplicativos, bem como à precarização que acarretam das relações de trabalho). Mas, se meios técnicos e econômicos são necessários para mudar nosso modo de vida, meios nunca são suficientes para mudar fins. Nós devemos trabalhar nos nossos fins.

Fins significa, aqui, valores, ética, moralidade. Estamos nos acostumando aos quatro R’s da sustentabilidade: repensar, reduzir, reutilizar e reciclar. Decorrem de uma forte consciência de que devemos respeitar a natureza e outros seres humanos. Eu disse acima que as diferenças de renda e propriedade devem sofrer alguns limites éticos e aceitáveis. Todos devem ter direito a boa educação e saúde pública, acesso à água potável e ao ar, a um uso pelo menos moderado das comunicações, incluindo a Internet, e talvez, para resumir tudo, a uma renda básica universal. Esses direitos devem ser independentes da capacidade ou mesmo da disposição dos cidadãos de pagar por eles. Uma justificativa simples para isso será: se as pessoas perderem esses direitos ou bens, o custo social de tais perdas será muito maior do que se a sociedade entender que deve (e é claro que pode) pagar por eles. Sem água limpa, as pessoas ficam doentes. A sociedade arca com o custo do tratamento ou deixa que morram e assim se perde todo o investimento feito em suas vidas, às vezes por muitos anos.

Outro motivo para garantir esses direitos ou bens para todos é que as crianças não devem sofrer com a incapacidade ou a falta de vontade de seus pais de lhes dar o mínimo para uma vida decente. Na verdade, não devemos vincular o que acontece com uma criança ao que seus pais fizeram. Elas não têm mérito ou demérito pelas ações de seus genitores.

Podemos acrescentar que pessoas mais ricas geralmente exigem mais do que pessoas pobres de recursos naturais e sociais. Por último, mas não menos importante, vários pagamentos, como os descritos acima, consistem em investimentos, não em despesas: quanto melhor a educação, a saúde, o acesso à informação, a capacidade de se comunicar, maiores serão os benefícios para a sociedade. O Bolsa Família conseguiu reduzir drasticamente as doenças no Brasil. Nos países nórdicos, as longas licenças de maternidade e paternidade reduziram as doenças (inclusive as mentais), o crime e melhoraram o desempenho educacional. Uma discussão importante que deveríamos começar antes do final das pandemias atuais será até onde devemos ir no financiamento do novo estado de bem-estar social que definimos nos últimos parágrafos.

Quando mencionei uma utopia como a melhor saída para a crise da atual pandemia, quis dizer um Estado de Bem-Estar modernizado. É claro que a ciência e a tecnologia devem priorizar a luta contra novas pandemias. Nossa aliança com a natureza foi quebrada, devemos repará-la. Mas não podemos discutir ciência, tecnologia ou meio ambiente sem levar em consideração as relações sociais e humanas. Até agora, tenho insistido nos ingredientes da justiça social. Agora devo mudar para o que é necessário para a felicidade. Utopia significa, desde Thomas More: o que causa injustiça causa infelicidade. O que é necessário para tornar os humanos felizes? Eu me deteria em dois fatores. Primeiro de tudo, atividade física. Isso não deve ser confundido com esporte competitivo. O esporte profissional é o domínio de um número bastante pequeno de pessoas – no Brasil, algumas dezenas de milhares de pessoas. Os atletas frequentemente acabam sofrendo de sua atividade física excessiva, devido à necessidade de obter constantemente novos recordes. A atividade física, pelo contrário, é uma necessidade universal. Em vez de milhares de pessoas por país, é necessário para todos – no Brasil, mais de duzentos milhões de pessoas. Melhora a saúde, reduz doenças, aumenta o prazer.

A atividade cultural é a outra prioridade. Nos dois casos, atividade física e cultural, não estamos lidando com profissionais, mesmo que estes sejam necessários e mereçam ser admirados. Em vez disso, é necessário dar a todos uma boa saúde e uma boa quantidade de criatividade. Em nossa sociedade, o entretenimento substituiu a cultura, e isso deve ser discutido. Tanto o entretenimento quanto o esporte como espetáculo levam as pessoas a uma atitude passiva. Pelo contrário, atividades culturais e físicas tornam as pessoas mais ativas, o que implica que suas vidas serão mais significativas. Um dos problemas atuais no que tange à felicidade é que as pessoas mais velhas perdem o interesse em quase tudo. Se enfatizarmos sua capacidade de lidar com seus corpos e mentes, podemos mantê-las realmente ativas, vivas, despertas, por longos períodos de tempo. Isso pode torná-las mais felizes. Uma sociedade mais justa e feliz é possível; na verdade, é necessária.

Um pensamento em “A utopia como a melhor maneira de superar a crise do coronavírus”

  1. Felicito o Professor Renato Janine Ribeiro, Filosofia, Universidade de São Paulo, Brasil, por esta reflexão que vou partilhar com os membros da Dartemundo, Rede para o Desenvolvimento de Novos paradigmas da Educação, de que sou o Presidente da Direção e, através destes, com outras pessoas

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