Mudar de Vida, por Pedro Bacelar de Vasconcelos*

  1. A rutura com o modo de vida assente na competição desenfreada, no consumismo e no entretenimento fútil à custa da exploração da mão de obra barata dos países pobres, ainda que assumida com relutante convicção, parece hoje inevitável.
    A primeira tentativa contemporânea de operar um corte radical com o “sistema” que hoje se reconhece, consensualmente, como “insustentável”, explodiu com a revolta estudantil de Maio de 1968, em Paris, e foi, entre nós, a bandeira assumida pela geração que conduziu a contestação estudantil, com sonora ressonância popular, desde o início dos anos setenta, em Lisboa, Porto e Coimbra. Rapidamente se desvaneceram as expectativas de alguma capacidade de reforma do regime, a pretexto da morte do ditador.
  2. O mais duradouro fascismo europeu – e o mais retrógrado quer na política quer nos costumes! – iria afundar-se na última guerra da era colonial contra as “justas lutas de libertação nacional dos povos oprimidos de Angola, Moçambique e Guiné…”. Com estas palavras de ordem inscritas em manifestações de rua ferozmente reprimidas, se apressou o fim da ditadura que seria em breve apeada pelo golpe militar de Abril de 1974. A palavra “humildade” era desconhecida do léxico desta geração. Não havia desculpas a apresentar a todos os que passivamente condescenderam com tão longa humilhação.
  3. O “radicalismo” da geração de setenta não foi um acaso genético nem a bênção de uma qualquer iluminação providencial. Resultou da consciência do contraste absurdo e intolerável do arcaísmo e da subserviência recomendados pelo ruralismo anacrónico do salazarismo com a cultura irreverente, cosmopolita e libertária que pela música, o cinema, a moda e a literatura transbordavam das muralhas da censura. A rutura com o passado, a recusa da mínima concessão em matéria de valores e de princípios exprimiam-se na máxima “grafitada” numa parede de Paris: “Ceder um milímetro é capitular”.
  4. Hoje, a exaustão dos recursos naturais, as alterações climáticas, a volatilidade da economia de casino dominada pela especulação e pelos mercados financeiros internacionais tornaram evidente que as sociedades contemporâneas não poderão sobreviver sem que ocorram entretanto mudanças profundas e substantivas. A pretensão pseudoliberal de reverter os direitos sociais conquistados no Ocidente após a Segunda Guerra Mundial, sob a ameaça chantagista da “concorrência” dos mercados desregulados do “Terceiro Mundo”, é hoje o mais poderoso estimulante da ascensão da extrema-direita populista. A “pandemia” com os dilemas cruéis que nos coloca é uma metáfora sugestiva. Que nos possa servir de inspiração para fazer o que faz falta: mudar de vida.
    *Deputado e professor de Direito Constitucional
    Este artigo foi publicado originalmente na edição do Jornal de Notícias de 9 de Julho de 2020

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: