O Infante D. Henrique: um herói pouco recomendável 

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“No Reino Unido Drake cai do pedestal. O que fazer com o nosso traficante de escravos: o Infante D.Henrique?”, foi o post que publiquei no Facebook, no seguimento do questionamento pelo movimento anti-racista da homenagem que ainda é prestada por muitos Governos, pelo mundo fora, a personagens com ligação à escravatura. .

O post mereceu vários comentários  críticos e alguns  insultuosos (que eliminei por estarem em desacordo com o ‘código deontológico’ da minha página). Outros compreenderam que o meu objectivo era provocar o debate sobre o nosso passado colonial e esclavagista, sem o qual Portugal continuará a ser, como mostram os inquéritos sociológicos, um dos países europeus onde se manifestam mais opiniões racistas.

As reações merecem a seguinte análise:

  1. O mito do Infante D. Henrique, que começou a ser construído, durante a sua vida, pelo seu adulador Gomes Eanes de Azurara, mantém-se bem vivo, apesar de todo o trabalho de historiadores como Duarte Leite ou Vitorino Magalhães Godinho. Não é por acaso que a maior condecoração portuguesa é a da “Ordem do Infante”; 
  2. Alguns dos indignados não questionam que o Infante seja um mito, no entanto acrescentam um “mas”, “mas” também houve escravatura africana, “mas” também houve escravatura árabe, “mas” etc… Ora, os crimes dos outros não justificam os “nossos”, os crimes portugueses, e não impedem, ou não devem impedir, uma reflexão séria sobre o nosso passado;
  3. Alguns, poucos, questionam a ligação do Infante ao tráfico de escravos. O que é mais uma prova da falta que faz um ensino rigoroso e crítico da História de Portugal. Se não tiverem tempo de ler um estudo sobre a escravatura em Portugal, pesquisem, por ex., no Google. Sugiro ainda a ida ao pequeno Museu da escravatura, em Lagos e a visita, uma vez inaugurado, do Memorial da Escravatura em Lisboa, no antigo mercado de escravos do Campo das Cebolas; 
  4. Outros questionam quem é que decide se uma dada personagem histórica merece ser homenageada nas nossas praças. Serão os historiadores? Se o fossem, o Infante não seria objeto das honrarias que tem. Quem decide é o poder político, muitas vezes municipal. É sobre esse poder político que os movimentos anti-racistas exercem pressão, por vezes, com resultados. 
  5. Alguns consideram que é um ato de violência contra a História o movimento que nos países ocidentais, que foram potências esclavagistas e/ou coloniais questiona a glorificação de Colston, mercador de escravos, ou do Rei Leopoldo II, responsável pela morte de 10 milhões de pessoas. ou dos nossos esclavagistas, personagens odiosas. A violência contra a História não será a recusa de assumir uma atitude crítica sobre o o passado?
  6. Muitos pensaram que eu estava a sugerir a remoção do Padrão dos Descobrimentos, obra do salazarismo que glorifica o Infante, construído para a exposição colonial dita do Mundo português, de 1940. Descansem. Não é minha intenção lançar uma campanha para que o monumento seja retirado. Gostaria, contudo, que o Memorial da Escravatura tivesse ficado mais perto do Padrão dos Descobrimentos.
  7. De uma forma geral, parece-me que muitos dos que me criticam se sentem pessoalmente ofendidos, como se um pulsar nacionalista os leve a considerar como seu o “passado glorioso de Portugal”, quando o que nos deve orgulhar é a capacidade de Portugal de garantir a igualdade e os direitos fundamentais de todos os que cá vivem e o que nos deve  envergonhar é a persistência do racismo e o encobrimento em nome do nacionalismo de crimes contra a humanidade, como a escravatura, a inquisição e o colonialismo. 

Termino esta breve resposta como o comentário na minha página do Facebook de Fátima Diogo 

“Caro Alvaro Vasconcelos, quando neste país se levanta uma problemática interessante ou se é mal entendido ou se é insultado … aqui não se entendem nem se suportam debates que ponham em causa as figuras históricas que foram decoradas no ensino primário como santos e que de facto se desconhecem…e não se tem o mínimo interesse em conhecer.” (sic)

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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