Ainda há razões para acreditar no futuro?

Há largas semanas que a Humanidade vem mergulhando num dos períodos mais negros da sua História. Se é certo que este período nunca conseguirá rivalizar, em horror, com o das grandes guerras mundiais, nem mesmo com o de outras grandes pandemias do passado, não é incorreto afirmarmos que estamos perante uma página negra da nossa História coletiva. Assim, este momento veio reforçar o pessimismo congénito de alguns e, possivelmente, abalar o otimismo dominante de outros. Pese embora o facto de muitos me considerarem um “otimista”, a sê-lo, considero que este meu otimismo se encontra bem ancorado no realismo. Com efeito, poderia discorrer sobre a espetacular evolução, nas últimas décadas, de todos, e sublinho todos, os indicadores de bem-estar, no mundo. Redução da pobreza, das guerras, dos regimes autoritários, das doenças, do analfabetismo, etc. É possível encontrar esses estudos com uma simples pesquisa na Internet. Dito isto, não ignoro o impacto terrível da crise sanitária atual, como também não ignoro o enorme desafio (não suspenso em tempos de pandemia) que são as alterações climáticas, bem como não esqueço as ameaças ao mundo progressista e desenvolvido que, sob a forma do nacionalismo e do populismo, vão surgindo e que, responsavelmente, não devem ser ignoradas por ninguém.

Apesar disto, são visíveis tendências que nos podem possibilitar prever um futuro melhor.  Começo por realçar que a própria crise pandémica está repleta desses sinais. Vejamos a forma como a esmagadora maioria das pessoas e dos governos tem vindo a respeitar as orientações emanadas da comunidade científica. Este é um grande indício de que as correntes obscurantistas, longe dos holofotes das redes sociais onde as suas mensagens ecoam numa câmara de ressonância composta pelo seu próprio público, não estão a conseguir minar a sociedade. Depois, temos o próprio avanço da ciência. Por certo, todos estamos despertos para o facto de que o avanço conseguido pela ciência, na compreensão deste vírus, nos últimos meses, impressiona pela sua rapidez. Veja-se que, em apenas dez dias, um grupo de cientistas partilhou com a OMS e a comunidade científica uma versão preliminar do genoma do novo vírus SARS-cov-2. Um feito absolutamente impressionante. Há, hoje, milhares de estudos acerca do novo Coronavírus publicados e muito se sabe já sobre este vírus. Informação imprescindível no apoio à decisão política e fundamental para, nas nossas vidas que precisam de continuar, todos corrermos o menor risco possível. Num esforço verdadeiramente internacional e multilateralista, a ciência não deixou de cooperar apesar das retóricas arcaicas e nacionalistas de um número reduzido de governos mesmo poderosos como os EUA.

Sem querer vender a ninguém a ideia de que o aparecimento desta crise pandémica foi positivo, não é mentira alguma afirmar que, muito provavelmente, a experiência que através dela a Humanidade adquiriu vai possibilitar um combate mais eficaz àquela que realisticamente é a sua maior ameaça: as alterações climáticas. Com efeito, para todos, esta crise está a constituir-se uma aula sobre a importância da ciência, de escutarmos a ciência, de combatermos a desinformação, de nos protegermos através de uma informação rigorosa e científica, estando ainda, com mestria a expor a um ridículo insustentável um tipo de políticos que sugere injeções de desinfetante para o combate à Covid-19 ou que tenta forçar ministros da saúde a implementarem programas de uso generalizado de medicamentos não testados cientificamente. Socorrendo-me de um português mais fluido, esta crise veio tirar o resto da última parte da credibilidade que os políticos palhaços ainda poderiam ter. Assim, quando esses políticos negarem o aquecimento global causado pela atividade humana, será para o caixote do lixo que a esmagadora maioria das pessoas atirará os seus discursos. As sondagens começam já a acusar essa realidade e estou convencido de que acusarão muito mais num futuro próximo.

Aproximo-me do final desta viagem pela sustentação do meu otimismo que, como se vê, considero mesmo ter mais de realismo do que de otimismo. Os críticos poderão alegar que estou a esquecer-me da problemática da crescente desigualdade social. Eu diria que, se tivermos uma visão centrada no que se passa dentro dos países, verifica-se, de facto, em média, uma desigualdade crescente (o que não significa, necessariamente, que os mais pobres estejam a viver pior), mas, se olharmos para o mundo como um todo, este é hoje bem mais equilibrado do que no passado. Veja-se que em 1960 o continente asiático representava menos de 20% da riqueza mundial, hoje representa mais de 30% e a tendência é crescente https://www.businessinsider.com/chart-asias-share-of-global-gdp-1700-2050-2012-4 . No ano em que eu nasci, 1989, o mundo entrou num novo capítulo da sua História marcado pela previsibilidade e pelo progresso. Um patamar de desenvolvimento ideológico-social que, na sua substância, permanecerá, provavelmente, inalterado por centenas de anos e onde o bem-estar e o progresso social apenas dependerão da compreensão de que capitalismo, como um bom prato que necessita de sal qb, precisa de uma dose qb de liberalismo económico: de menos e deixaremos de ter capitalismo, pois ele está na sua génese; de mais e teremos sobressaltos (como a crise de 2009) e falta de coesão social. Este será o caminho para a criação de um planeta estável, com um ambiente e uma ecologia estáveis, lar de uma Humanidade comum e fraterna, disposta a procurar novos mundos, outros lares.

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