Avançar, mesmo sem a Alemanha 

“Sem sonhar com uma Europa Melhor, não teremos uma Europa melhor

Vaclav Havel .

O Conselho Europeu de 23 de Abril perdeu um pouco do seu drama, com o consenso alcançado no Eurogrupo, mas nem por isso é menos decisivo para o futuro da resposta às gravíssimas consequências sanitárias, económicas e sociais da pandemia. Se o Conselho Europeu não for muito além do proposto pelo Eurogrupo, será um salto no desconhecido, que obrigará os que defendem o ideal europeu a repensar a sua posição em relação a esta União. 

Perante o consenso alcançado no Eurogrupo de 9 de Abril, foi sublinhado o mérito de “existir”. Claramente essa prova de vida da União é mais do que insuficiente perante  a magnitude do desafio. 

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A carta assinada por 9 Estados da União, entre os quais a França, a Itália, a Espanha – 3 das 4 maiores economias do Euro, 39,8% do produto da UE – e Portugal, é uma boa notícia. A França é membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e a única potência nuclear da União Europeia.

Os 9, no caso de impasse no Conselho, deveriam avançar com uma  iniciativa de cooperação , em articulação com as outras instruções da União, para mutualizar a sua dívida. O precedente é o mecanismo europeu de estabilidade que teve a benção do Tribunal de Justiça. Mostrarão à Alemanha que podem avançar sem ela, se a tanto forem forçados. Será possivelmente a única forma de impedir que a Itália, onde Salvini espera pela sua vez, abandone a União e siga o caminho autocrático da Hungria.

Os 9 deveriam ir além do debate sobre os meios financeiros e mostrar que a sua utilização será ao serviço de uma nova política, intransigente nas questões democráticas e socialmente mais justa, em suma um projeto de refundação da União Europeia. Deveriam apresentar um programa solidário para enfrentar a pandemia  e condicionar o programa de relance da economia, inspirado no New Deal de Roosevelt, para combater as desigualdades e os desafios sociais, sanitários e ecológicos atuais, ou seja um Green New Deal.

 

Uma Europa confinada, mas aberta ao Mundo, que fizesse do ideal da humanidade comum o seu credo e do multilateralismo o meio da acção para a proteger seria um horizonte em que, neste momento de angústia sobre o futuro, a maioria dos cidadãos se reveria. 

Sendo a Alemanha um país democrático com fortes correntes europeias e federalistas, a ousadia de tal projeto seria recebida com entusiasmo por muitos.

Tal projeto é uma Utopia, sem dúvida, mas uma utopia realizável. As grandes utopias surgem quando a imaginação humana é estimulada a procurar soluções para as grandes tragédias, como a Comunidade Europeia, imaginada em plena distopia da II Guerra Mundial.

Como Havel disse “sem sonhar com uma Europa Melhor, não teremos uma Europa melhor”.

Ler o artigo na integra no Público

‪Avançar, mesmo sem a Alemanha https://www.publico.pt/2020/04/20/mundo/comentario/avancar-alemanha-1912947

 

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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