Eleições americanas: Biden ou Sanders ?

90Os democratas estão a escolher o candidato que, em novembro, em nome de nós todos, terá de impedir a catástrofe. Hitchcock não se importaria de fazer o filme das eleições americanas de 2020.

Se, no primeiro mandato, Trump fez regredir a democracia no Mundo, um segundo mandato representaria um abalo sísmico autocrático comparável, nos seus efeitos sistémicos, embora de sinal contrário, à vaga democrática que se seguiu ao colapso da União Soviética

Com Trump na Casa Branca até 2024, a desordem internacional seria a regra e as Nações Unidas continuariam paralisadas, em modo de sobrevivência.

Um exemplo do mundo que pode aí vir, o do regresso às guerras intraestatais, são os confrontos militares na Síria entre a Turquia, o regímen de Assad e a Rússia. Uma ameaça muito séria à paz mundial, sem nenhuma ação da comunidade internacional que a contenha. 

Para a União Europeia, a consolidação da aliança Trump/Boris Jonhson/Orban/Salvini representaria uma ameaça existencial.

Perante tão sombria perspetiva, a escolha do candidato do partido democrático torna-se uma questão vital.

Há os que pensam que só um centrista como Biden pode vencer as eleições; outros que só com um discurso anti-establisment, que afirme uma alternativa económica e social vincadamente de esquerda, como o de Sanders, Trump poderá ser derrotado. 

As sondagens mostram que derrotar Trump é possível, mas não será fácil. Nas sondagem os dois  candidatos democratas ganhariam o voto popular contra Trump, por margens confortáveis, mais 6% Biden e mais 5% Sanders, margens superiores às de Hillary (mais 2% do que Trump), o que pode assegurar a vitória no colégio eleitoral, mas as sondagens nos Estados chave, que contam para derrotar Trump, mostram que a derrota de Trump é possível, mas está longe de estar assegurada.

A convicção de que as eleições se ganham ao centro não explica o que aconteceu em 2016, quando Trump, um radical da direita, foi eleito, nem o que aconteceu no Brasil com a eleição de Bolsonaro. O que têm mostrado as eleições em múltiplos países é que o centro tende a desaparecer, perante a polarização política e social. A notável exceção foi a França com a vitória de Macron, mas com um discurso crítico dos partidos tradicionais do centro esquerda e do centro direita. E mesmo o centrista Macron enfrenta hoje sérias dificuldades perante a polarização da sociedade francesa, que não conseguiu prevenir. Não foi por serem esquizofrénicos que os americanos em 2008 elegeram Obama e 8 anos depois Trump; foi porque estão profundamente divididos e porque uma parte significativa da classe média branca perdeu a confiança nas elites liberais, não só por razões económicas, mas por não partilhar os seus valores.

 

 Eu, se fosse americano, teria votado Warren, porque é da esquerda internacionalista, com uma visão do mundo próxima da dos europeus -na defesa de um multilateralismo eficaz- e propõe soluções para os problemas sociais americanos, como a saúde, a educação. Warren estaria em melhores condições do que Sanders para sobreviver à que vai ser uma das campanhas mais sujas da história. Mas como sabemos ela abandonou a corrida. 

A escolha recairá em Biden ou Sanders, o que não é para mim uma boa notícia.

Biden corre o mesmo risco de Hilary de ser visto como uma figura do establishment, responsável pelas angústias da classe média americana branca. Biden espera ser eleito com o voto maciço das minorias negras e latinas, o que, como se viu em 2016, parece ser uma falácia. A sua campanha  é apoiada pelos grandes doadores americanos, incluindo agora Bloomberg, que  investiu, sem sucesso ,uma parte da sua fortuna na sua  campanha e é um dos homens mais ricos do mundo. Ora, um dos problemas da democracia americana que favorece o populismo é a convicção de que o seu voto deixou de contar, que os partidos estão reféns das grandes fortunas e dos seus interesses. É a corrupção da política pela elite financeira.

Os que consideram que Bernie Sanders está em melhores condições para derrotar Trump fazem-no convictos de que muitos dos descontentes podem mudar o seu voto e dá-lo a um candidato com propostas sociais para resolver os problemas de que se queixam muitos dos que votaram em Trump, com um projeto de um novo pacto verde e  que recusa o papel tradicional da América como potência global, mas que se coloca sem dúvidas no campo democrático e do Estado de Direito. Para eles, Sanders é o verdadeiro candidato antielites, pois Trump, como malabarista que é, aumentou a desigualdade e beneficiou os super-ricos.

Será que Sanders, com um discurso antielites, que por vezes se assemelha a um discurso populista de esquerda anti-partidos, afirmando-se socialista democrático — o que para muitos na América é sinónimo de comunismo —, conseguirá  derrotar Trump? Não sei responder a esta questão e creio que ninguém sabe. 

Em 2008, aquando das primárias democráticas, hesitei entre Hillary e Obama convicto de que seria difícil um candidato negro e liberal ganhar as eleições. Estava errado. Em 2016, já me parecia provável a vitória de Trump, tanto nos tínhamos habituados a considerar o altamente improvável como a grande tendência do nosso tempo.

Tudo leva a crer que apesar da miséria intelectual da sua presidência Trump possa ser reeleito, recorrendo, como de costume, para conquistar o eleitorado, à mentira, ao obscurantismo, ao racismo, à política-espetáculo, ao discurso de ódio contra todos os seus opositores. 

Espero, no entanto, que o improvável nos volte a surpreender em novembro; todavia, para isso poder acontecer, é necessário que os democratas se unam à volta do candidato que ganhe as primárias, seja ele quem for. 

 

Esta é a versão adaptada do artigo do Público de 3 de Março de 2020

 

 

 

 

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

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