Joacine e as armadilhas da esquerda

Por Marcela Uchôa*

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Os debates que perpassaram o cenário político português nas últimas legislativas ganharam novo fôlego com três mulheres negras candidatas a vagas na Assembleia da República. Beatriz Dias pelo Bloco de Esquerda, Romualda Fernandes pelo Partido Socialista e Joacine Katar Moreira pelo Partido Livre, foram os rostos e vozes que para além de enunciar – como seus outros companheiros de partido – os desafios para a nova legislatura, trouxeram o importante debate sobre raça e racismo para esfera publica que durante longas décadas foi marcado pelo mito luso-tropicalista que ditava que o Estado do bom e inofensivo colonizador português não conheceria nem perpetuaria o racismo.

Ainda em campanha Joacine Katar, para além das lutas e desafios que compõem uma candidatura que se propõe antirracista, seguiu uma estratégia política baseada em um protagonismo individualista que ainda que lhe tenha garantido mais destaque que as outras duas candidatas, aguçaram ataques racistas individuais que marcaram não só o período pré-eleitoral, como têm tido lugar no cenário político nacional desde o início da legislatura.

Em meio a posturas equivocadas como a abstenção no voto de condenação a agressão israelita a Gaza, com justificativa de que não tinha clara a posição do partido. E mais recentemente em voto contra descida do IVA da eletricidade, onde apontou como um dos principais problemas do aumento de energia o que chamou de cultura térmica (em um dos países com energia mais cara da Europa responsabiliza as pessoas pelo aumento na energia no facto de não saberem lidar com o frio e gastarem demasiada energia). Em Portugal que já foi apontado como um dos lugares da Europa com mais mortes devido ao frio, as declarações de Joacine soam a maioria daa minorias sociais como um grande disparate.

Contudo, Joacine segue sendo atacada mesmo quando acerta, em recente proposta para devolução de artefactos aos países de origem para “descolonizar” museus e monumentos estatais – proposta que também foi do Livre – foi vista uma onda de ataques racistas e xenófobos que ganharam espaço mediático após as declarações do deputado André Ventura do partido de extrema-direita Chega que em suas redes sociais, em uma democracia, afirmou: “Eu proponho que a própria deputada Joacine seja devolvida ao seu país de origem. Seria muito mais tranquilo para todos…. Inclusivamente para o seu partido! Mas sobretudo para Portugal”. As palavras xenófobas e racistas de André Ventura encontram eco no populismo que só precisa de discursos vazios, de frases de efeito; mas também do desatino de democratas que subestimam a força do populismo.

É imperativo que esse tipo de discurso público seja fortemente reprimido, sobretudo na voz de um parlamentar. A decisão dos partidos de esquerda pela não condenação da declaração racista de André Ventura com a justificativa de que serviria para ‘amplificar’ as declarações do deputado do Chega, não só tem resultado inverso, como ampliam o próprio populismo na esfera pública que ao ver em um parlamentar a liberdade para fazer impunemente esse tipo de declarações, sentem-se livres para fazer o mesmo.

Para além de erros e acertos, o facto é que os ataques a Joacine Katar quando extrapolam a esfera que lhe cabe: a política, enquanto representante parlamentar que é – devem ser veemente repensadas e ponderadas por todos àqueles que entendem que a linha que difere o discurso democrático do discurso de ódio não deve ser tênue, não deve existir dúvida, ou opção, além do total repúdio.

Diante deste cenário de instabilidade e discurso de ódio, o partido Livre retirar a confiança política da deputada logo na sequencia de esta ser confrontada com o ataque racista de André Ventura, demonstra – dentre outras posturas equivocadas que já não cabem mais citar neste breve artigo – que o partido liderado por Rui Tavares está cada vez mais distante do discurso “Livre” em defesa da democracia e das minorias que se auto reivindicava quando foi fundado.

Ademais várias das estratégias políticas adotadas por Joacine Katar pouco se diferem de posturas que outrora o próprio presidente do Livre, Rui Tavares, adotou: quando depois de eleito pelo BE, saiu do partido, manteve o seu mandato e fundo um novo partido a dar sequência a sua carreira individual.

*Marcela Uchôa – Doutoranda em Filosofia Política na Universidade de Coimbra. Investigadora no Instituto de Estudos Filosóficos – IEF – UC.

 

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