A defesa de um símbolo

Joacine Katar Moreira é, hoje, não só mas também, um símbolo para uma larga franja dos portugueses de ascendência africana, que nela veem um representante das suas aspirações. Proteger Joacine, pelos que partilham o ideal de emancipação social que simboliza, é imprescindível. Ao proteger o símbolo, estamos a proteger o que este simboliza. Dito isto, quando um partido, neste caso o Livre, toma a iniciativa de propor uma pessoa de cor para as suas listas de deputados à Assembleia da República, uma vez assegurada essa eleição, deve preparar-se para os ataques racistas de que, inevitavelmente, sofrerá na pessoa do(a) deputado(a). Esses ataques pretendem, no fundo, atingir um ideal, um património de valores. Abstendo-me de fazer qualquer consideração quanto à prestação da deputada em apreço, gostaria de dizer que essa preparação de que falava passa pela compreensão interna da importância de defenderem a sua deputada para, assim, combaterem eficazmente a extrema-direita racista. Não me parece que isso esteja a acontecer, no Livre. Do que tem vindo a público, não há motivo para que a deputada Joacine seja atacada, internamente, da forma violenta como tem sido (ver artigo de Sá Fernandes, no Público). Portanto, a não ser que haja mais factos relevantes ainda não tornados públicos – e se assim for, devem ser tornados públicos o mais rapidamente possível –, esse ataques apenas fragilizam o combate à agenda da extrema-direita, que reemerge (lembremo-nos de que a ditadura salazarista era de extrema-direita). São indícios disso as declarações racistas do líder do Chega e, em menor grau de gravidade, as do  líder do CDS-PP. Fragilizada internamente, Katar Moreira fica mais propensa a sucumbir aos ataques externos de todos aqueles que odeiam aquilo em que ela se tornou: símbolo de uma ideia de sociedade evoluída, aberta a todas as culturas, verdadeiramente democrática e que combate o racismo. Dito isto e para concluir, penso igualmente que chegamos a um estádio da História onde os desafios são globais e as lógicas nacionalistas e etnicistas completamente retrógradas. Penso que poderá ser pobre, para qualquer deputado, acusar e sucumbir à sua marca identitária mais fácil de identificar. Um deputado do interior não deve olhar apenas para os interesses imediatos do interior, pelo contrário e igualmente deve ter a visão do conjunto nacional. Assim deverá ser com um deputado cigano, jovem, mulher, negro, etc. Todos nós devemos olhar menos para as marcas distintivas e muito mais para o universo que nos une, hoje ameaçado, norteados pela procura do bem-comum. 

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