Broken United Kingdom

freemovt-1

A vitória esmagadora do nacionalismo identitário nas eleições britânicas é mais um sério aviso às democracias liberais e á União Europeia.

A campanha de Boris polarizou a Grã-Bretanha, rachando não apenas o eleitorado, mas o Reino Unido. 

Os ingleses votaram massivamente no “cumprir com o Brexit”, enquanto na Escócia e na Irlanda do Norte o resultado foi bem diferente. Na Escócia, uma maioria esmagadora elegeu 48 deputados do Partido Nacional Escocês pró-europeu, num total de 59 (os Conservadores elegeram apenas 6); no País de Gales, os trabalhistas ainda foram o partido mais votado; na Irlanda do Norte os partidos favoráveis à reunificação com a República da Irlanda tiveram, pela primeira vez, mais eleitos do que os unionistas.  O que confirmam as eleições na Grã-Bretanha é que os nacionalistas não são consensuais e polarizam, gravemente, as sociedades. 

Sim, sabemos que a oposição trabalhista tinha um líder incapaz de assumir uma posição clara contra o Brexit, porém também sabemos que uma parte significativa do eleitorado Labour (32%) tinha votado a favor do Brexit no referendo de 2016, e que os Lib Dem, que defendiam não cumprir o resultado do referendo, sofreram uma clara derrota eleitoral, com a perda de 3 deputados e a não reeleição da sua líder.

Alguns pensam mesmo que se o líder do Labour fosse um Tony Blair, este teria ganho e revertido o Brexit, contudo é importante salientar que a crise da social-democracia ( de que Blair é um dos responsáveis) não é “inglesa”, é europeia, que os partidos socialistas francês e grego quase desapareceram (o britânico ainda teve 203 deputados e 32% dos votos) e que o SPD alemão está em franco declínio. 

Era melhor para os britânicos continuarem na União Europeia e a campanha do Brexit assentou em muitas mentiras, mas não é menos verdade que a Grã-Bretanha é uma democracia com uma imprensa livre e plural e que houve mais do que tempo e informação  disponível para os eleitores se esclarecerem. Com todo o tempo e com toda a informação, depois de 3 anos de debates parlamentares, votaram num líder populista, demagogo, que põe em perigo a existência do Reino Unido. 

Continuo a pensar que é preciso fazer um esforço sério para compreender as razões do voto nos partidos populistas e da desconfiança em relação à União Europeia.

A estratégia dos populistas foi explorar as inquietações da velha classe operária inglesa com a precariedade dos seus empregos, a ameaça da automatização, a crescente desigualdade social, as diferenças de qualidade de vida nos grandes centros urbanos e no resto do país. Os filmes de Ken Loach, como EU, Daniel Blake! ou Passamos por Cá , mostram bem a degradação da proteção social britânica, que já foi um modelo para o mundo.  Não é por acaso que, a par do Brexit, a questão mais debatida nas eleições tenha sido o sistema de saúde, numa altura em que a esperança de vida diminui no Reino Unido. Porém, os populistas não exploram só fraturas reais, abrem novas ao dividirem “autóctones” de “estrangeiros” ao diabolizarem  os migrantes. 

A quota-parte de responsabilidade de democratas liberais na polarização também deve ser reconhecida, ao desprezarem o voto dos eleitores que cedem perante o populismo, vistos como uns alienados, “deplorables”, como afirmou Hillary Clinton.

Para um social-democrata é extremamente difícil aceitar que o Partido Conservador, campeão do Thatcherismo, responsável dede 2010 por uma devastadora política de austeridade, apareça como o partido antissistema, mas fê-lo ao transformar-se no partido “do Brexit” — os populistas ganham por convencerem os eleitores que confiam no seu voto. 

Os eleitores ingleses quiseram confirmar o resultado do seu voto no referendo, que temiam estar a ser-lhes roubado. No meio de todas as mentiras de Boris Johnson, que fazem com que o seu nariz seja visto do outro lado da Mancha, num ponto ele tinha razão: era preciso respeitar o voto do referendo.

Não, os referendos não são a melhor maneira de dirimir questões de natureza constitucional, mas caso tenham lugar devem de ser respeitados, sob pena de, como se viu, o preço a pagar ser muito elevado.

Para reverter o Brexit nestas eleições era necessário que os líderes europeus tivessem compreendido o aviso que vinha da Inglaterra, o que implicava um regresso ao consenso fundador da União Europeia, entre sociais-democratas e democratas cristãos, de uma Europa da liberdade e da justiça social, mas agora menos vanguardista e mais cidadã. 

Aliás, os trabalhistas críticos do euroceticismo de Cornyn, defendiam ser possível “ Another Europe”, mais protetora da justiça social. Para tentarem convencer Corbyn estudaram o exemplo português, como fez Hilary Wainwright, do sucesso da frente parlamentar de esquerda e da reversão de algumas das políticas de austeridade. 

Ainda é tempo de salvar a União. Os partidos democráticos europeus têm de se concentrar nos verdadeiros problemas que afetam a União Europeia e não cair nas armadilhas ideológicas da extrema-direita. Como fizeram recentemente no Parlamento Europeu ao aprovarem uma moção que equiparava Comunismo a Nazismo, uma aberrante aceitação da  estratégia da extrema-direita, como se vê na Polónia, na Hungria, no Brasil ou no Reino Unido, onde Corbyn foi abusivamente identificado com Stalin.

A União Europeia irá enfrentar uma negociação difícil com um triunfalista e oportunista, Boris Johnson, para um acordo com a Grã-Bretanha que não pode ser só de comércio, mas terá de ter uma forte componente de proteção de direitos adquiridos, nomeadamente os que os 65 milhões de cidadãos britânicos gozam  hoje  na União, direitos de livre circulação e residência , mas também direitos ambientais e como consumidores.

Não basta proteger e mal, como faz o acordo de separação, os direitos dos migrantes europeus no UK e dos britânicos na União Europeia, que perdem a liberdade de circulação. Um estatuto europeu de cidadãos associados para os britânicos que o desejem seria mais um fator de  divisão dos britânicos — o estatuto  a negociar deve ser para todos os britânicos.

 Mais difícil  ainda, terá de responder a um muito provável  referendo na Escócia, talvez unilateral, que decida que os escoceses querem continuar plenamente integrados na União Europeia. 

É colocando no centro da discussão os direitos dos cidadãos, é mostrando que a União reconhece o fundamento de muitas das suas queixas, e combatendo, ao mesmo tempo, a xenofobia e o racismo, que se poderá travar o crescimento da extrema-direita e, a prazo, reverter o Brexit. 

Esta é a versão longa do artigo publicado  no ´Público a 20 de Dezembro de 2019

Autor: Álvaro Vasconcelos

Investigador CEIS20 Universidade de Coimbra; Diretor IEEI (1980-2007), Diretor Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia(2007-2012), Professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: