A propósito de Greta Thunberg….

Por Ricardo Amorim Pereira

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A COP25 foi o golpe final no otimismo justificado que surgiu após a COP21, com o histórico acordo aí alcançado – o pacto climático de Paris. Nesse outono de 2015, o mundo viveu dias bonitos. O multilateralismo triunfava e a Comunidade Internacional unia-se contras a grande ameaça que são as alterações climáticas.  Entretanto, quatro anos passaram-se e o mundo está diferente: mais desunido, mais incapaz de fazer frente às grandes ameaças que ensombram a Humanidade mas, em oposição a isto, apresentando, de uma forma muito mais veemente, uma consciência cívica acutilante e esperançosa. Essa consciência cívica é simbolizada pela jovem Greta Thunberg.  É por isso que vejo com muita estranheza e repulsa as críticas, injustas e injustificáveis, que lhe têm lançado, por cá e um pouco por todo o lado.

Greta Thunberg é, para mim, um raio de luz, uma aragem limpa e revigorante num mundo a partir do qual não esperava já ser possível que tal fenómeno despontasse. Obviamente que Thunberg não é um messias e as alterações climáticas não deixaram de ser um problema graças ao seu surgimento na cena mediática. Pensar isso seria o equivalente, neste século, a, no século passado, pensar-se que o surgimento de Martin Luther King de per si resolveria as discriminações raciais.

Tenho tido o cuidado de ouvir, atentamente, o que Greta Thunberg tem dito a propósito da questão das alterações climáticas. Do que nos tem chegado pela comunicação social, e como pessoa que há muitos anos se vem interessando pelo tema e lido a respeito, posso dizer que a mensagem dela é uma mensagem rigorosíssima e assente em factos científicos. Nada, absolutamente nada do que ela diz é ideológico. Querer instrumentalizar a mensagem dela, tendo por finalidade o alimentar de guerras ideológicas, quer esse ímpeto parta de setores da esquerda quer parta de setores da direita, é um exercício que apenas classifica quem o faz.

Penso que nunca ninguém terá ouvido Greta Thunberg, a pretexto das alterações climáticas, a atacar o capitalismo. A mensagem de Thunberg é de um rigor científico total e totalmente surpreendente em alguém de tão tenra idade – ou talvez seja mesmo essa (a tenra idade) a explicação. O que ela vem dizendo ao mundo, desde que começou a fazer greve às aulas de uma forma corajosa e quando ninguém poderia prever as proporções do que daí para a frente se iria passar, é que temos pela frente um enorme desafio civilizacional. Este desafio civilizacional prende-se com o facto de o sistema económico, assente na queima de combustíveis fósseis, ter uma consequência, a prazo, insustentável – a alteração química da atmosfera e consequente alteração climática.

É preciso que as pessoas entendam, de uma vez por todas, que esta verdade nada tem a ver com ideologia, isto é ciência. Felizmente, a tecnologia evoluiu até um ponto em que, hoje, nos é permitido dizer com verdade que, se houver vontade política no sentido de mobilizar as verbas suficientes, é possível manter a organização social assente no capitalismo – e que tem permitido progresso e criação de riqueza – controlando, ao mesmo tempo, o problemas das alterações climáticas.

Ao contrário do que acontecia até há não muitos anos, hoje, os automóveis elétricos e a produção renovável de energia – dois dos maiores causadores de emissões de gases de efeito de estufa, sendo a produção de energia o maior – são realidades perfeitamente viáveis. Mas essa transição energética custa dinheiro, montes de dinheiro e é por isso que é tão importante que as pessoas continuem a mobilizar-se e, assim, a fazer pressão junto dos decisores políticos. Vou mais longe e afirmo ser quase criminoso que os governos não isentem, já, de impostos os veículos elétricos, nem que para isso tivessem de agravar a carga fiscal dos demais veículos.

O próprio capitalismo necessita, não de ser questionado nos seus fundamentais, mas de ser regulado. A lógica basilar do funcionamento do mercado: a chamada “mão invisível” de Adam Smith, isto é, o facto de cada um de nós, trabalhando por motivos egoístas, acabar, no final, por desse modo estar a contribuir para a melhoria da sociedade, é insuficiente. Mas é uma teoria que deixa de funcionar quando, por exemplo, se trata de controlar os problemas ambientais. É importante explicar aos liberais, tantas vezes dogmaticamente presos na “cartilha” do liberalismo clássico – que também não deixo de valorizar em muitos dos seus aspetos – o facto de que não é possível encontrar em Adam Smith, John Locke, David Ricardo, etc. formas de lidar com problemas exclusivos da modernidade, como o é o ambiental, pelo simples motivo de que esses problemas não existiam no século XVIII e início do XIX, quando o liberalismo surgiu.

Muitas vezes, defendendo os interesses imediatos da sua empresa, os gestores não tomam as decisões ambientalmente mais eficazes. Usando agora a terminologia liberal, apesar de serem egoístas, a “mão invisível” não traz o melhor resultado para o conjunto da sociedade. É aí que os Estados têm de intervir, obrigando as empresas a adotarem as medidas ambientalmente mais benéficas, independentemente do seu custo.

Concluindo, o facto de, a geração mais jovem, hoje, estar a mobilizar-se em torno de uma mensagem científica – e não ideológica – é, para mim, algo surpreendente mas no bom sentido. Num mundo onde crescem fenómenos, arcaicos e obscuros, como o ressurgir da extrema-direita, ver as camadas mais jovens a mobilizarem-se, com muito mais vigor, em defesa de ideias científicas, não pode deixar de ser visto como sendo um combate da luz contra as trevas, desenrolando-se bem à frente dos nossos olhos.

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