Apresentação de “25 de Abril no Futuro da Democracia” na Feira do Livro do Porto

Por Ricardo Amorim Pereira

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Ao sabor da poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen e de seus versos “Esta é a madrugada que eu esperava / o dia inicial, inteiro e limpo”, e de “Tanto mar”, de Chico Buarque, com seu refrão “Sei que estás em festa, pá / Fico contente / Guarda um cravo para mim”, ambos declamados pelo ator Pedro Almendra, iniciou-se a apresentação de 25 de Abril no Futuro da Democracia, no passado dia 6 de setembro, na Biblioteca Almeida Garrett, inserido na programação da Feira do Livro do Porto.

Do painel fez parte o ilustrador, responsável pela pintura da capa, Albuquerque Mendes, a historiadora Irene Pimentel e o autor Álvaro de Vasconcelos.

Após a declamação de poemas, Albuquerque Mendes tomou a palavra para explicar o sentido da sua ilustração. Segundo ele, alinhado com o pensamento de Vasconcelos, a pintura procurou representar uma amalgama de gentes, de nações, de povos, numa lógica inclusivista que se opõe, por completo, às lógicas obscuras proclamadoras de perigosas utopias de purezas raciais.

Vasconcelos procura, com esta obra, refletir acerca dos processos democráticos do passado recente que se espalharam um pouco por todo o mundo e que tiveram no exemplo da transição democrática portuguesa um referencial. Como referiu Samuel Huntington, foi a Revolução dos Cravos a lançar a terceira vaga democrática que, como lembrou Vasconcelos, ecoou pela América Latina nos anos 80, na Europa de Leste nos anos 90 e, no final da primeira década deste século, no mundo árabe. Hoje, contudo, as forças obscuras e autoritárias estão, com maior ou menor intensidade, a ressurgir em todos os continentes e torna-se urgente repensar a democracia.

Nas palavras da historiadora Irene Pimentel esta obra tem o mérito de trazer o 25 de Abril para os tempos atuais. Segundo a historiadora, à luz dos recentes acontecimentos da política brasileira, é necessário enviar constantemente para o Brasil, como dizia Chico Buarque, “um cheirinho a alecrim”. Mas o refluxo democrático não se fica por esse país da América Latina. Pimentel referiu ainda o exemplo do Egipto, país a que, recentemente, se deslocou e que, após o golpe de estado militar que depôs o presidente democraticamente eleito, Mohamed Morsi, conta já cinquenta mil presos políticos. Estes e outros casos levam a historiadora a concluir que “fazia falta” a reflexão proposta por Vasconcelos e que a revolução portuguesa, de rutura com o antigo regime, é ainda um exemplo no domínio das transições democráticas por oposição às transições pactuadas (caso espanhol, brasileiro, entre outras) onde a tendência para a continuidade das instituições autoritárias é maior.

Álvaro Vasconcelos, na sua intervenção, e à imagem do que pode constatar-se na leitura desta sua obra, balanceou entre a utopia e a distopia, entre o otimismo que larga âncora nas boas notícias que nos chegam de países onde o autoritarismo, há pouco em crescendo, parece enfrentar, agora, maior contestação, caso de Itália, e o pessimismo que verifica que, após a viragem do século e da invasão do Iraque “deslegitimadora da democracia” que a marcou, assistiu-se a um avanço das forças autocráticas que, por exemplo, impediram a concretização dos processos democráticos árabes, caso da Síria, Egito, entre outros, bem como ameaçaram as democracias ocidentais. Retomando o otimismo, Vasconcelos refere que, apesar das brutalidades infligidas ao povo Sírio apenas por desejar viver em liberdade e democracia, no mundo árabe continua a haver povos que lutam por esses princípios, casos recentes no Sudão e na Argélia, podendo assim dizer-se que “a semente da democracia” subsiste. Como nota dominante ficou a observação de que, tal como referido à saciedade pela filósofa judia Hannah Arendt, importa que todos rejeitemos a “banalização do mal” e continuemos, assim, a lutar por uma sociedade livre e democrática.

(Vídeos das intervenções na apresentação de ’25 de Abril no Futuro da Democracia’ na Feira do Livro do Porto: Aqui).

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