O mercado de trabalho do futuro. Entre o sonho e o pesadelo

Ricardo Amorim Pereira

 

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Esta semana a consultora Forrester, uma referência no que concerne à análise das tendências globais para o mercado de trabalho, publicou o seu mais recente relatório intitulado o “O Futuro do Emprego” (The Future of Work). A nota dominante deste relatório prende-se com o reconhecimento – penso que é a primeira vez que um grupo de especialistas na matéria o faz de uma forma tão explícita – de que a economia do futuro, progressivamente mais digitalizada e automatizada, não vai ser capaz de compensar a perda de postos de trabalho resultante dessa transformação tecnológica. Com efeito, este continua a ser um debate muito aceso.

Ora, o que a Forrester agora vem dizer é que é correto afirmar que haverá uma taxa de substituição, mas que esta será insuficiente para compensar o número de postos de trabalho perdidos. Defende esta instituição que, nas próximas décadas, 29% dos empregos vão perder-se e o trabalho do futuro (aquele criado pelas necessidades próprias de uma economia tecnologicamente mais desenvolvida) só vai contribuir em 13% para a criação de emprego. O que perfaz um saldo líquido negativo.  Este é um cenário muito inquietante ainda para mais se tivermos em consideração que, tomando por ponto de partida destes processos o ano de 2018, o desemprego mundial é superior ao verificado em 1991 em 0.56% da população em idade ativa (fonte: Banco Mundial). Parece pouco mas trata-se de milhões de pessoas. 

É sobejamente conhecida a relação existente entre a precarização das condições de vida, em que o nível de desemprego desempenha um papel determinante, e a insatisfação do cidadão em relação às instituições políticas e democráticas. Por sua vez, é sabido que, quando esse descontentamento galopa, aumenta a probabilidade de as forças políticas populistas e autocráticas ganharem expressão eleitoral. Acredito que os dirigentes políticos e os governantes devem refletir com cuidado sobre esta matéria. Nada fazer não deverá ser o caminho. A este momento o caro leitor poderá julgar que lamento o progresso tecnológico. Culpa minha por não me explicitar devidamente. De modo algum pretendo passar, neste texto, essa imagem de mim próprio. Com efeito, no meu por vezes irritante otimismo, acredito que, pese embora os desafios e ameaças, a humanidade caminha para um futuro próspero e bom para um cada vez maior número de pessoas. Mesmo nesta questão em apreço, a possibilidade de tarefas rotineiras, pouco motivadoras, serem desempenhadas, de forma autónoma, por máquinas, é algo em que me apraz pensar. Portanto, o mal nunca poderá estar no avanço tecnológico em si mesmo mas na eventual falta de capacidade adaptativa, demonstrada pela sociedade, a esta nova realidade. Reconhecendo a ameaça, há quem defenda que uma solução poderá passar pela atribuição de um rendimento incondicional a todas as pessoas maiores de idade, algo que assegure a todos um limiar mínimo de sobrevivência. A implementação de tal rendimento suscita-me algumas reservas. É certo que o chamado Rendimento Básico Incondicional, também designado de Universal, que por definição nunca atingiria valores monetários muito elevados, não é, nos moldes em que tem sido pensado, incompatível com a procura de uma atividade laboral. Contudo, não está suficientemente estudada a força de desincentivo geral ao trabalho produzida por tal subsídio. A questão do financiamento desta medida também levanta muitas inquietudes. Mesmo não eliminando a possibilidade de, num estágio mais avançado da História, se vir a adotar uma medida deste tipo, penso que urge, por ora, dar um passo intermédio. Acredito que um bom compromisso entre a necessidade de se manter os cidadãos conscientes da necessidade de terem, por via do trabalho, de dar um contributo à sociedade, e o risco do aumento do desemprego, poderá ser encontrado na seguinte fórmula. Deverão os governos pensar em legislar no sentido de tornar obrigatório que as empresas que usam as formas mais avançadas de tecnologia reduzam os seus horários laborais, mantendo os salários constantes. Com uma legislação que perseguisse este desígnio teríamos uma correta adaptação da sociedade e da economia ao advento tecnológico. Uma adaptação que fizesse jus àquilo que deverá ser o avanço tecnológico: uma ferramenta de melhoria da qualidade de vida de todos e não um instrumento de destruição em massa de empregos. Estas empresas, contando com um número de horas de trabalho per capita inferior, seriam forçadas a manter os postos de trabalho e os funcionários teriam mais tempo para a família e para si próprios, realizando-se como seres-humanos para lá do ser-produtivo. Este sim, parece-me o caminho do futuro, um caminho equilibrado e próspero que espero vir a testemunhar. 

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