Muito mundo nos olhos no 25 de Abril no Futuro da Democracia

Por Rui Pereira*

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Entre as razões para ler o mais recente texto de Álvaro Vasconcelos, 25 de Abril no futuro da Democracia (Porto, Estratégias Criativas, 2019), encontram-se a reconhecida dimensão intelectual do seu autor e, por consequência, o saber subjacente ao escrito. Mas, não apenas.

O primeiro dos três ensaios que constituem a obra, elaborado a partir de uma conferência na cidade de Havana, em 2016, sobre o 25 de Abril, constitui, pode dizer-se, um memorando sobre o PREC para espíritos ausentes. Nele pontifica, a par da grande sensibilidade do autor – temperada na oposição à ditadura e na vivência direta dos acontecimentos – uma dose inabitual de heterodoxia, relativamente às versões mais consensualistas sobre Abril e o seu tempo.

O segundo ensaio encerra o paradoxo de um escrito sobre real politik, território de especialidade do autor, precisamente pela pena de um intelectual que pauta a sua intervenção pelos referenciais da energização utópica, como é o caso de Álvaro Vasconcelos. E a promessa não é traída. A questão das transições pactadas ou roturistas entre regimes de oligarquia iliberal (vulgo, ditaduras) e regimes de oligarquia liberal (vulgo, democracias) surge no texto de Álvaro Vasconcelos com uma informada profundidade, em rotura manifesta com o paroquialismo seguidista e unanimista com que os media portugueses nos falam usualmente do mundo.

Já o ensaio/ficção final, um exercício hipotético sobre a democraticidade do regime em 2034, estimula a reflexão e abre o debate sem receio da controvérsia, que é, no fim de contas, a melhor razão para que um livro de ensaio seja escrito e lido, mormente um texto sobre a difícil construção da liberdade e da justiça social.

No caso concreto, insistiria, por fim, como traço fundamental desta curta e densa obra, com cujas ideias ora se concorda ora se discorda, o seu carácter de golpe contra o paroquialismo medíocre das abordagens comuns da nossa história, da política e das questões internacionais, um corte tão mais nítido quanto bem percetível é o muito mundo nos olhos de que se fazem as páginas deste 25 de Abril no Futuro da Democracia, de Álvaro Vasconcelos.

* Rui Pereira – Docente da Universidade Lusófona do Porto.

** Imagem: Cartaz do Seminário Egypt’s transition to democracy: constitutional challenges. Este seminário teve lugar no dia 25 de março de 2012 no Cairo e foi organizado conjuntamente pelo EUISS e pelo Fórum Árabe para Alternativas. O seminário teve como objetivo comparar os diferentes processos constitucionais de outras nações que passaram por uma transição democrática com o processo constitucional então em andamento no Egito.

 

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