Os Novos Tempos de (In)segurança

Por Catarina Neves*

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(Imagem: Jacinda Ardern – Dubai’s Public Diplomacy Office)

É indubitável: a percepção ocidental de segurança tem vindo a mudar drasticamente ao longo dos últimos anos. Apesar dos grandes hotspots do terrorismo estarem localizados a sul e a leste da Europa, nunca o Ocidente se viu a braços com tantos atentados mediatizados num tão curto espaço de tempo. E as mortes ocidentais têm vindo a assumir um peso político cada vez maior: os governantes (especialmente os europeus) têm sido minuciosamente escrutinados — nomeadamente pela extrema-direita, que se aproveita destas situações para aplicar a sua demagogia do medo — e cada vez mais se fala na necessidade de novas práticas de liderança no que toca a gestão de crises.

Chegou-nos, nesta última semana, um bom exemplo disso mesmo, vindo da Oceânia, por ventura do ataque de 15 de março, em Christchurch (Nova Zelândia). A Primeira Ministra neozelandesa, Jacinda Ardern, posicionou-se de forma extraordinária, servindo não só como um verdadeiro símbolo de empatia mas também como um exemplo para líderes de todo o mundo. Jacinda não se limitou a oferecer o conforto dos seus braços àqueles que mais sofreram com este ataque ou a ordenar dois minutos de silêncio no parlamento e na televisão nacional. Jacinda utilizou o véu islâmico na sua visita à mesquita onde prestou condolências e prometeu que os funerais das cinquenta vítimas do ataque seriam pagos, independentemente do seu estado de imigração. Jacinda recusou-se ainda a mencionar o nome do terrorista australiano que perpetrou o ataque em Christchurch — mas, acima de tudo, menos de uma semana depois do atentado, anunciou que, a partir de abril, será proibida a venda de armas semiautomáticas e de assalto de estilo militar. As suas ações foram positivas e afirmativas. Resumindo, retirou a tónica do indivíduo que tanto a desejava e pô-la no reforço das políticas de segurança do seu país. Por isso, fixem este nome: Jacinda Ardern. É o tipo de líder que estes novos tempos de insegurança requerem.

Contudo, os media internacionais insistem em referir-se ao terrorista como “atirador”; e, ainda numa tentativa de humanização do mesmo, expõem fotos da sua vida privada e passada, para mostrar o quão “normal” e “afável” este havia sido até então. Uma breve pesquisa no Google Imagens acerca da palavra terrorista e a maior parte dos resultados remete-nos para pessoas de tez um pouco mais escura, barbas negras e fartas. Estas são apenas algumas das evidências que nos mostram como o Ocidente define terroristas: pelo seu tom de pele e/ou pela sua etnia. O próprio senador de Queensland (Austrália), ao qual se suspeita admiração pela ideologia nazi, tentou, no comunicado em que começou por lamentar o atentado, desculpabilizar este claro ato terrorista contra muçulmanos com a própria imigração muçulmana. Mas que mundo é este onde é considerado anormal que um homem branco leve a cabo um ataque terrorista — mas o mesmo é expectável para imigrantes muçulmanos?

Este tipo de narrativa, nativista e nacionalista, cria a ideia do “nós e o outro”, que ajuda a alimentar a xenofobia, o racismo e, em última instância, os movimentos nacionalistas de extrema-direita, que tanta expressão têm vindo a ganhar no seio da nossa mui amada União Europeia. Este projeto, edificado na sequência de duas guerras proporcionadas por nacionalismos exacerbados, vê-se agora a braços com um novo rumo — que não é necessariamente mais favorável, e se imbuiu de uma noção de segurança (e quem devemos nós proteger) que diverge do ideal de paz que esta União se propôs a defender aquando da sua concepção. O tipo de movimentos que nos conduziram a duas terríveis guerras mundiais são os mesmos que agora ganham terreno numa Europa cada vez mais fragilizada por um medo explorado pela agenda da extrema-direita.

Um pouco por toda a Europa vemos os alicerces sociais e políticos estremecerem perante a ameaça destes movimentos. Já não falamos apenas de países como a Alemanha, a França, a Áustria ou a Polónia — este fenómeno parece começar também a afetar países que sempre admiramos pela abertura, liberdade e aceitação, tal como a Holanda. Depois do ataque terrorista do passado dia 18 de março, em Utrecht, perpetrado por um homem de origem turca, e do qual resultaram três vítimas mortais e cinco feridos, o Forum voor Democratie, partido eurocético e populista holandês, ganhou relevância nas eleições provinciais. Consequentemente, prevê-se que o partido de Thierry Baudet, que é a favor de restituir controlos fronteiriços e de acabar com imigrações em massa, terá tantos lugares no senado como o partido que está no governo, os liberais do VVD… Mas teria o mesmo acontecido se o terrorista fosse holandês?

Portugal, por sua vez, parece estar à margem deste medo demagogo. É um verdadeiro caso de sucesso a nível europeu: movimentos, partidos e políticos de extrema-direita têm uma expressão aparentemente diminuta; e, muito recentemente, Portugal recebeu até um grupo de refugiados egípcios de braços abertos. No entanto, citando Rui Tavares num artigo para o Público, “A grande razão que nos tem protegido, até agora, da extrema-direita resume-se numa palavra: sorte”. Portugal pode regozijar-se no facto destas ideologias nocivas não terem ainda tomado conta da opinião pública do nosso país. Mas não podemos regozijar-nos ao ponto do comodismo: devemos (continuar a) trabalhar ativamente para que assim se mantenha.

*Catarina Neves estuda Relações Internacionais/Empresariais e Direitos Humanos entre as Universidades do Porto e de Coimbra. Promove a participação juvenil na política através do seu trabalho junto da associação Bringing Europeans Together Association Portugal (BETA Portugal) e do Conselho da Europa; e é também conselheira do Ministério dos Negócios Estrangeiros para as relações dos países 5+5 da zona do Mediterrâneo.

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