A Utopia da Hospitalidade

Por Gonçalo Marcelo*

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À medida que ganha força, na Europa e noutros contextos geográfico-políticos, o discurso xenófobo que faz dos migrantes o bode expiatório de todos os males da sociedade, o próprio conceito de hospitalidade – já para não falar do dever de hospitalidade – parece ter-se tornado polémico. Fará, portanto, sentido falar de uma utopia da hospitalidade? O debate não é novo, mas o problema é recorrente, porquanto na distância que vai entre o ideal ético e a prática concreta se cava um hiato cuja transposição parece difícil, se não mesmo impossível.

Mas comecemos pelo óbvio. Na verdade, a hospitalidade não é um valor abstrato, inventado do nada, que se tenha imposto às nossas sociedades vindo de fora, como se não fizesse parte da nossa tradição cultural. Pelo contrário, é um valor transcultural que mostrou, ao longo da história, ser capaz de inspirar os mais variados gestos; mais concretamente, é um valor central das três grandes religiões do livro, bem como da cultura que marcou de forma mais indelével a formação filosófica do Ocidente, a cultura grega. Com efeito, não se pode entender, por exemplo, a trilogia tebana de Sófocles sem entender até que ponto ela mostra a importância da hospitalidade na cultura grega, e parte da força que atribuímos à personagem de Antígona vem precisamente dessa fidelidade ao dever de hospitalidade, em nome do qual desobedece às próprias leis da cidade. Mas reconhecer esta importância da hospitalidade em diversas culturas também não significa que ela seja uma prática sem obstáculos ou dificuldades.

No debate filosófico recente[1] sobre a hospitalidade, encontramos, entre outras, as vozes de Jacques Derrida, Paul Ricœur e Richard Kearney. Derrida[2] tem uma abordagem radical à hospitalidade: ela só é verdadeira se for absoluta, incondicional: a Lei de hospitalidade, por contraposição às “leis” de hospitalidade que se encontram no direito positivo; por conseguinte, ser hospitaleiro é poder acolher o estrangeiro sem qualquer tipo de condição ou contrapartida: do ponto de vista absoluto da hospitalidade, pouco importa quem é o outro, ou ao que vem; posição que nos recorda a ética hiperbólica de Levinas na qual nos tornamos, de alguma maneira, reféns da alteridade – e não se entenda aqui “reféns” em sentido pejorativo porque essa descrição decorre, precisamente, da constatação das exigências de uma ética hiperbólica. No sentido derridiano, portanto, “tudo se passa como se a hospitalidade fosse impossível” (Dufourmantelle & Derrida, 1997, p. 71) uma vez que a exigência da hospitalidade nunca pode ser completamente instanciada na realidade – algo que, para Derrida, entenda-se, não desqualifica a hospitalidade, antes reforça a sua importância e o seu valor.

Derrida, tal como Ricœur, parte da questão da língua; para Derrida, o gesto da hospitalidade começa por não se exigir ao estrangeiro que ele deva falar a nossa língua ou compreender-nos (ibid., p. 21). Ricœur, partindo dessa ligação entre a hospitalidade e a linguagem, avança a proposta de uma hospitalidade linguística[3], ligando-a à questão da ética da hospitalidade; a tradução, tal como a hospitalidade, é sempre uma mediação intersubjetiva e uma tarefa que, não sendo propriamente impossível, é difícil.

Porque é que a hospitalidade é uma tarefa difícil? É-o na medida em que implica, como assinala Richard Kearney, o gesto de uma aposta que, à partida, soa paradoxal: o de passar do “impossível” para o “possível” e da “hostilidade” para a “hospitalidade”. Como mostrou o linguista francês Émile Benveniste, a palavra hostis, que subjaz à etimologia de hospitalidade, adquiriu, paradoxalmente, ao longo do seu desenvolvimento histórico, dois extratos de significação opostos: hóspede e inimigo (razão pela qual, para sublinhar a sua dimensão aporética, Derrida chega a falar de “hostipitalidade” [hostipitalité]). Richard Kearney sublinha que este movimento é fundamental: perante o encontro com a alteridade, e a possibilidade sempre presente de considerar o outro como alguém hostil, um inimigo, o significado original de hostis envolvia “a deposição das armas, a conversão da hostilidade em hospitalidade” (Kearney, 2015, p. 177)[4].

Ora, é precisamente porque a hostilidade é sempre uma possibilidade presente quando se dá o encontro com o outro que é importante discutir as condições de possibilidade da hospitalidade. No magnífico trabalho desenvolvido no âmbito do Guestbook Project aquilo para que Kearney aponta é a tentativa de quebrar ciclos de hostilidade, isto é, de encontrar pontos de contacto entre comunidades que, historicamente, têm sido hostis umas às outras, convidando-as a criarem um ponto de contacto através da troca de narrativas. Este tipo de gesto é promovido entre os jovens, que são convidados a, primeiro, contar por que razão a sua situação de partida é a de hostilidade para com o outro e, depois, trocando de lugar um com o outro, imaginarem em conjunto a história de uma reconciliação possível; sendo a aposta a seguinte: se é possível fazer o salto, que parecia impossível, da hostilidade para a hospitalidade, através de uma narrativa imaginada, então também deve ser possível fazê-lo na realidade. Por outras palavras: a imaginação pode abrir caminho à prática concreta. E, pelo caminho, a troca narrativa das histórias pode dar azo a uma noção mais dinâmica, e menos reificada, de identidade, sendo essa, precisamente, uma interpretação possível da noção ricœuriana de “identidade narrativa”: uma noção que compreende que as identidades, sejam elas pessoais ou coletivas (religiosas, étnicas, nacionais) são importantes para a compreensão que temos de nós mesmos, mas que elas não são entidades fixas, nem imutáveis; pelo contrário, estão abertas à mudança e são co-constituídas pelo contacto intersubjetivo com o outro, numa lógica narrativa que é dinâmica. Na página do Guestbook Project podem ser encontrados diversos vídeos com exemplos desta troca de histórias, por exemplo entre estudantes católicas e protestantes na Irlanda do Norte, entre judeus e muçulmanos ou entre arménios e turcos.

No momento em que esta reflexão tem lugar, a propósito da sessão do ciclo sobre as utopias europeias em Serralves consagrada, precisamente, à Utopia da Hospitalidade – Unidade na Diversidade, falar sobre a hospitalidade parece revestir-se, uma vez mais, de um carácter utópico. E isto porque, como tantas vezes ao longo da história, o clima político global parece mais propício ao reforço da exclusão e da fronteira, e a transição da hostilidade para a hospitalidade mais difícil. No entanto, entenda-se: na sua dimensão mais radical a hospitalidade é, e será sempre uma utopia; mas, como sabemos, as utopias não precisam de ser escapistas para ser subversivas; pelo contrário, porquanto podem funcionar como as célebres ideias reguladoras, ainda que não sejam plenamente atingidas, podem sempre influenciar a realidade. Para ser realizável, qualquer utopia é uma tarefa que exige um labor permanente; neste caso, a de recusar que a hostilidade seja a única resposta possível, e a mais lógica à alteridade.

Na atualidade, talvez isso signifique mostrar que os diagnósticos segundo os quais o multiculturalismo “falhou” ou “está morto” são motivados por uma ideologia perniciosa que interessa a quem pretende continuar a fazer do “outro” (os refugiados, as minorias étnicas ou religiosas, ou os estrangeiros em geral) o alvo apetecível de uma política populista que se alimenta da criação de inimigos. Hoje, como ontem, o combate por um valor ético pode e deve ser político; hoje, como ontem, a imaginação pode continuar a servir para apontar caminhos alternativos à realidade.

Notas:

[1] Este pequeno texto menciona apenas algumas das reverberações filosóficas deste debate no final do século XX e primeiras décadas do século XXI mas é preciso também não ignorar até que ponto este debate foi influenciado (ainda que dele se desvie muitíssimo) pela figura maior do pensamento moderno sobre a hospitalidade, Kant. Veja-se, a propósito de outra sessão do ciclo de Serralves sobre as utopias, mais sobre o princípio kantiano da hospitalidade aqui.

[2] Anne Dufourmantelle & Jacques Derrida. De l’hospitalité: Anne Dufourmantelle invite Jacques Derrida à répondre (Paris: Calmann-Lévy, 1997).

[3] Paul Ricœur, Sur la traduction (Paris: Bayard, 2004).

[4] Richard Kearney, “Hospitality: Possible or Impossible?” in Hospitality and Society vol. 5, n.º 2 e 3 (2015): 173-184).

*Gonçalo Marcelo – Investigador no CECH, Univ. de Coimbra / Professor Convidado na Católica Porto Business School.

 

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